Reeducandos tentam no esporte saída para a vida
Segunda Divisão
Reeducandos tentam no esporte saída para a vida
Texto: José Carlos Azenha
O Vitória, formado pelos detentos do Instituto Penal Agrícola, fez ontem o primeiro jogo fora do presídio, derrotou, no Mirante Ferroviário, o Bandeirante por 2 a 0. O time é destaque no Campeonato Amador de Futebol de Bauru da 2ª Divisão. Dos cinco jogos que fez, venceu quatro e empatou um. E o mais importante, não teve nenhuma expulsão ou problema de disciplina.
"Só o Cléber tomou dois cartões amarelos, o resto tá limpo", diz o agente penitenciário Marcos Cardoso, o principal incentivador do time formado por detentos que já cumpriram no mínimo 1/6 da pena. Alguns tentaram na vida carreira no futebol profissional, há casos de passagens pelo juvenil do São Paulo ou Tupã. Mas não deu certo, acabaram incursos no 157 (assalto e furto), 71 (estelionato), 12 (tráfico de droga) e homicídio.
O IPA, presídio de regime semi-aberto, permite a saída de no máximo 25 detentos por domingo, só quem "trabalha" no setor esportivo. O grupo, ontem, incluía pessoal de apoio e alguns "torcedores". Duas esposas de detentos aproveitaram o dia de visita para acompanhá-los no futebol
"A fita aqui é pegar a bola", diz o reserva Valdenir Nascimento, 27 anos, fugitivo duas vezes de DPs em São Paulo. Logo aos 9' do 1º tempo o Vitória faz 1 a 0, com Renato na cobrança de falta. Após o gol, o adversário, na base de muita correria, cresceu. Com futebol tecnicamente superior, os jogadores do Vitória passaram o jogo inteiro evitando revidar entradas violentas do Bandeirante. Só com gol de Tupã, aos 38' do 2º tempo, é que o time aliviou a pressão adversária.
José Marcos, ex-jogador da várzea paulistana e do Derac de Itapetininga, é o técnico. Do banco, trata seus jogadores chamando-os de "o malandro". No time, não aceita detentos que usem droga. E reclama que o futebol do Vitória piorou com desfalques de "quatro de liberdade", detentos que cumpriram suas penas.
Em campo não permite reclamação ou discussão entre os jogadores: "vamos jogar bola", diz. A sua preleção
é quase um alerta. "Não quero ninguém brigando, não quero pontapé. O trabalho é social, através do futebol buscar a reitegração dos detentos ao convívio da sociedade". Cumprindo pena no IPA há quatro meses, o técnico faz a sua avaliação: "procuramos trabalhar a mentalidade dos presos, 70% deles não voltam à vida do crime, os outros 30%... "
Time ganha chuteiras novas
O detento Odair, na função de roupeiro e massagista,
é dos principais colaboradores do Vitória. Antes da partida, guarda as correntinhas e relógios de todo o time. Qualquer jogador que cai no gramado, é atendido com o "55", como é conhecido o remédio "anti-reumático" semelhante ao Gelol. Ele só não gosta de aplicar a solução no local da contusão: "suja a mão", diz. O remédio é conhecido por
"55", seu número na farmácia do IPA.
APOIO - Arnaldo Regalin, presidente do Triagem, teve direito até a faixa de homenagem por parte do Vitória ontem pela manhã no Mirante. O agente penitenciário Marcos Cardoso, ex-diretor do Triagem, em busca de apoio externo pediu "algumas chuteiras velhas" e Nardão comprou doze pares novos.
A movimentação do Vitória é acompanhada pelo diretor de disciplina do presídio. Após a partida, Claudete Martins Carradore, do núcleo de educação do IPA, também esteve presente ao Mirante Ferroviário
(José Carlos Azenha)