10 de março de 2026
Geral

Violência nas escolas

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

Violência juvenil

Violência juvenil

Texto: Gustavo Cândido

No último dia 17 um jovem de 14 anos esfaqueou sua professora de Educação Artística na Escola Luiz Castanho de Almeida. Uma semana depois, dois outros estudantes, ambos de 15 anos, foram flagrados com armas, um revólver e um canivete, em suas escolas. O que está acontecendo com os adolescentes que está deixando cada dia mais difícil para os pais se sentirem tranqüilos com os filhos na escola? A violência distribuída gratuitamente na televisão? A resposta e a solução para isso podem estar dentro de casa mesmo.

Até alguns dias atrás, ouvir que um aluno entrou na escola e tentou matar a sua professora era associar imediatamente a imagem de uma escola americana, com seus meninos loirinhos armados até os dentes, com armas de última geração, geralmente "emprestadas" dos pais, atirando para todos os lados. A freqüência com que esse tipo de acontecimento vinha ocorrendo na América do Norte fez com que naturalmente se associasse esse tipo de comportamento somente aos jovens americanos, se esquecendo que isso também pode acontecer aqui, bem próximo de todos. O ataque do jovem D. R. P. F. à sua professora, que só não saiu gravemente ferida porque usava várias roupas de frio, serve de alerta para os pais, do quanto a violência está presente na vida dos jovens hoje em dia.

A adolescência sempre foi um período associado à rebeldia. Muita gente acha completamente normal que os filhos adolescentes reajam com certa rispidez em certos assuntos, "é coisa da idade", dizem, "depois melhora". Esse tipo de comportamento passivo em relação à rebeldia adolescente pode acabar ignorando possíveis problemas com os jovens que, mais cedo ou mais tarde, podem acabar se manifestando em forma de violência.

Estrutura familiar

Segundo a psicóloga Kátia Simone Villanova, a família

é o local onde o jovem cresce e se desenvolve, por isso tem que ser também o lugar onde desde cedo deve aprender a ter limites e saber distinguir o certo do errado. "A família atualmente tem mudado, antes ela era patriarcal ou matriarcal, os pais tinham mais importância e autoridade que os filhos, Hoje a coisa se inverteu e o que se vê são pais e mães voltados para os filhos, que passaram a ser os centros da família", diz, "isso tem feito com muitos pais percam o hábito de impor limites aos filhos", explica a psicóloga. De acordo com ela, grande parte dos jovens violentos são aqueles que não tiveram limites em casa.

"O importante é que os pais sempre dialoguem com os filhos e procurem resolver qualquer tipo de conflito que eles tenham com a conversa. Deixar um filho fazer o que ele bem entende e depois repreende-lo violentamente não é solução, só vai fazer com que ele assimile essa violência e se torne violento", diz Kátia Villanova, "os filhos que fazem tudo o que querem em casa vão acabar tendo problemas na escola, onde a professora impõe limites".

Desde cedo

É importante que os pais saibam que não é a partir de uma certa idade que os filhos precisam de um limite, mas desde que são bem novos. Um criança que ainda pequena gosta de ficar batendo nos pais, ou no irmãozinho

(mesmo que sejam batidinhas inofensivas), não está demonstrando o quanto tem personalidade ou gênio forte e precisa ser ensinada que não deve fazer isso para não se acostumar.

Da mesma maneira, uma criança que briga na escola e bate nos coleguinhas não deve ser considerada pelos pais apenas como uma criança que sabe se defender e bate se for preciso. Ela precisa ser ensinada que não precisa fazer uso da força para se impor.

De acordo com Kátia Villanova muitos pais confundem o ser passivo, com o ser pacífico e ao invés de coibirem a violência quando ela se manifesta, acabam ignorando-a e agindo com passividade em relação a ela (veja no boxe algumas características de crianças com tendência a se tornarem jovens violentos).

Outra coisa que também acontece, segundo a psicóloga

é uma reação de 8 ou 80 dos pais, por exemplo: se alguém diz que os jovens que fazem artes marciais são violentos o pais vai lá e proíbe o filho de fazer karatê, o que é uma atitude extrema. O correto seria conversar com o filho e mostrar a ele que é possível ser diferente dos outros e que nem todos os que fazem artes marciais precisam ser violentos.

Sociedade violenta

Para a psicoterapeuta Maria Regina Corrêa Lopes Vanin, as crianças estão crescendo cercadas de muita violência em todos os lados, na televisão, nos filmes, nos brinquedos, nos video-games, "a sociedade de consumo nos empurra tantas coisas que acabamos consumindo a violência naturalmente", diz, "isso passa muito para as crianças desde cedo".

Segundo a psicóloga o problema da violência é reflexo desta sociedade e para a situação mudar vai ser preciso uma atitude geral das pessoas.

"Os pais têm tido pouco tempo para acompanhar o crescimento dos filhos e por isso eles não sabem como colocar para fora seus medos e ansiedades e acabam crescendo sem limites", diz. "No caso das crianças americanas que entraram na escola e mataram os colegas e professores, eles não eram crianças que gostavam de esportes e participavam de grupos com os outros. Eram isolados e tinham inveja dos outros. Ou seja faltou trabalhar a parte emocional dessas crianças, dar segurança para elas e isso deveria ser feito pelos pais em casa e também na escola", explica Maria Regina Vanin, "muitas vezes isso é muito difícil porque existe também toda a mídia estimulando a violência".

O futuro

A sociedade vai sempre estimular cada vez a violência? Maria Regina Vanin é otimista e acredita que estamos passando por uma fase que vai terminar, "vivemos um momento histórico muito importante em termos de evolução da humanidade e o fato de nos preocuparmos com a violência e tentarmos estudar suas causa já significa uma tomada de consciência que é o primeiro passo para uma mudança para melhor". Kátia Villanova salienta que apesar da violência cercar os jovens nos meios de comunicação e na sociedade em geral, só os pais vão poder resolver o problema dos filhos, "se a televisão, os brinquedos ou jogos estimulam a violência, então cabe aos pais regularem a maneira com que os filhos entram em contato com essa violência.

É preciso regular e ensinar, só assim o futuro vai ser menos rebelde e violento para elas".

Sinais de alerta

Os pais podem perceber nos filhos alguns comportamentos que indicam uma tendência à violência. O ideal é agir o mais cedo possível e dialogar, principalmente quando a criança:

* É muito ansiosa ou nervosa. Se irrita facilmente e não gosta de perder nenhum tipo de brincadeira, por exemplo.

* Gosta de brincadeiras agressivas, repete na vida real o que vê em jogos e na televisão e é muito competitiva.

* Tem problemas no relacionamento com os colegas da escola e vive em confusões.

* Briga muito com os irmãos por razões sem muita importância.