Preço da paz e da liberdade
Preço da paz e da liberdade
B. Requena é editor de Internacional do JC
O Planeta viveu um final e início de semana de muita importância com relação ao avanço da democracia, da liberdade e autodeterminação dos povos. Contudo, simultaneamente a esses avanços, é arrasadora a constatação de que velhos e abomináveis métodos, o extremismo e a intolerância seguem atuantes talvez como nunca.
O presidente da Autoridade Palestina, Yasser Arafat, e o primeiro-ministro de Israel, Ehud Barak, assinaram uma reiteração do acordo de paz de Wye Plantation, já firmado com o governo anterior israelense, no final do ano passado, nos Estados Unidos.
Na Índia, nas maiores eleições do mundo, 600 milhões de eleitores compareceram às urnas no domingo para votar a formação de um novo governo. Disputam a simpatia da população indiana o atual primeiro-ministro A. B. Vajpayee, da Aliança Democrática Nacional, e Sonia Gandhi, viúva do ex-primeiro-ministro Rajiv Gandhi e nora da ex-primeira-ministra Indira Gandhi, ambos assassinados.
Finalmente, a população do pequeno Timor Leste, agregado à Indonésia e que tem conosco o fato comum de falar a língua portuguesa, foi às urnas no sábado decidir se quer a liberdade do governo de Jacarta ou se pretende continuar vinculada. O resultado falou muito alto: 78% dos votantes optaram pela liberdade, demonstrando pela primeira vez, oficial e publicamente, o seu apoio aos Prêmio Nobel da Paz, bispo católico Carlos Belo e o líder popular Xanana Gusmão, este último até ontem cumprindo prisão domiciliar.
Estes acontecimentos deixam claro que a democracia avança no mundo. Lamentável é o preço dessa evolução.
Em Israel, tão logo foi divulgada a notícia de que um novo documento havia sido firmado, dois carros-bombas explodiram em menos de 24 horas em duas cidades diferentes: em Haifa, junto ao Mar Mediterrâneo, e em Tiberíades, na fronteira com a Síria. Três pessoas morreram. Em Haifa, a vítima foi o próprio terrorista, que morreu no momento em que preparava a bomba dentro do veículo.
Na maior eleição do mundo, cinco cabos eleitorais foram mortos no primeiro dia da votação. Na região do Punjab, ao norte do país, foram registradas algumas batalhas entre eleitores fanáticos; o mesmo acontecendo em Andhra Pradesh. Desde que obteve sua autonomia à época do assassinato do Mahatma Gandhi, e com as mortes violentas de Indira e o filho Rajiv, a Índia busca seu lugar na história da democracia ao preço de muito sangue.
No Timor Leste, os conflitos perpetrados por aqueles que não desejam ver a sua libertação da Indonésia provocaram 100 mortos entre sábado e domingo. Como se pode ver, de maneira paradoxal, o homem civilizado evolui politicamente. Pisando em cadáveres... (B. Requena)