15 de março de 2026
Geral

Lançamento de livro

Adriana Amorim
| Tempo de leitura: 4 min

Arcebispo diz que povo deve mudar o País

Arcebispo diz que povo deve mudar o País

Texto: Adriana Amorim

A melhoria das condições de vida da população está nas mãos do próprio brasileiro. Essa

é a opinião do arcebispo emérito Dom Paulo Evaristo Arns, 77 anos. Ele esteve ontem em Bauru no lançamento do livro "Dom Paulo Evaristo Arns: um homem amado e perseguido", escrito por Ecanize Sydow e Marilda Ferri. Arcebispo de São Paulo durante 28 anos, defensor dos direitos humanos e árduo combatente da opressão durante a ditadura militar, Dom Paulo adota atualmente uma postura mais contida. A seguir, entrevista concedida à imprensa.

Jornal da Cidade - Se o senhor fosse escrever uma autobiografia, qual seria a fase de sua vida que mereceria mais destaque?

Dom Paulo Evaristo Arns - O período militar é uma fase muito importante para mim. Eu acho que aquilo que o livro

(que foi lançado ontem) diz é muito mais a história do Brasil do que a minha história. Ontem à noite, por exemplo, esse período foi representado dentro do Dops, por pessoas que sofreram nesse lugar. Fiquei impressionado de ver as celas onde eram feitas as torturas.

Imprensa - Foi uma peça de teatro?

Dom Paulo - Não. Estivemos no lugar onde as pessoas foram torturadas. Até uma pessoa disse: "Imagima se pudéssemos passar isso para toda a juventude do Brasil".

Jornal da Cidade - Por que seria importante passar isso para a juventude atual?

Dom Paulo - Para não se repetir.

Jornal da Cidade - O senhor acha que a atual situação do Brasil, com crise econômica e social, é muito diferente daquela época da ditadura?

Dom Paulo - A situação geral do Brasil é muito ruim, mas não há aquela tortura, aquela censura e recessão. Não há a mesma forma de encarar as pessoas como naquele tempo.

Imprensa - O que o senhor acha da juventude despolitizada de hoje?

Dom Paulo - A juventude precisa de muita esperança. Se nós não dermos motivos dela saber que o Brasil será melhor do que é, ela vai desaminar.

Jornal da Cidade - Mas dá para ter esperança?

Dom Paulo - É evidente. O Brasil vai melhorar, não tenho dúvida nenhuma. E vocês (a imprensa) devem ser os elementos que levam a esperança.

Imprensa - Quais caminhos o senhor acha que levariam a uma melhora?

Dom Paulo - O principal é o povo começar a melhorar o Brasil. É só de baixo para cima que um país melhora. Eu perguntei para um bispo luterano na Suécia como eles tinham conseguido fazer que todo mundo tivesse o suficiente para viver bem. Ele me disse que foi a pressão do povo, depois da mudança de legislação por causa da pressão do povo. E nós estamos fazendo o contrário, desanimando o povo, que não está procurando alternativa. E o povo brasileiro é o mais inventivo do mundo.

Jornal da Cidade - O povo tem que fazer a sua parte. Mas o que o governo precisa fazer?

Dom Paulo - Fornecer dados para que o povo busque alternativas, criar condições para isso. Eu já fui duas ou três vezes ao presidente para dizer isso. Eu conheço o pensamento dele, sei que ele quer fazer alguma coisa, mas precisa de condições.

Imprensa - Como o senhor analisa a situação do País pós-Real?

Dom Paulo - A situação não é a melhor, mas como pode ser ideal? É muito difícil que uma país atinja essa situação. Você vai nos Estados Unidos, tomo mundo se queixa. E aqui escrevem que lá não há dívidas e desempregados. A queixa contra o governo é geral, o povo nunca estará satisfeito.

Jornal da Cidade - A impressão que se tem é que o senhor está muito mais conformista. É só impressão ou não?

Dom Paulo - Eu não sou conformista, não. Dia 4 de outubro estarei com o presidente e vou me queixar de novo. Mas cada um tem que cumprir o seu dever onde pode.

Jornal da Cidade - A Igreja está cumprindo o seu papel?

Dom Paulo - A Igreja não está cumprindo. Se ela estivesse cumprindo, seria a Igreja com Cristo presente, trabalhando, curando, não deixando o povo faminto, fazendo com que o povo acordasse para a esperança.