Notícias da África
Notícias da África
Texto: Gustavo Cândido
Não é sempre que se tem a oportunidade de conversar com alguém da África do Sul, lugar de muitas belezas e também muitos conflitos. Nerisha Baldevu tem 29 anos e dá aulas para estudantes de jornalismo na África do Sul. Esta semana ela esteve em Bauru, uma de suas paradas durante a longa viagem que ela pretende fazer por tudo País, e visitou o Jornal da Cidade, onde falou sobre a sua vida na África e a situação atual do seu País.
Jornal da Cidade - Você é jornalista mas parece que se decepcionou com a profissão. Como foi a sua experiência na área?
Nerisha Baldevu - Eu não gostei muito de trabalhar no Sunday Times porque não era um jornal muito bom, mas era um jornal popular. As pessoas compravam no domingo mais por hábito do que qualquer outra coisa, era um jornal sensacionalista, com muita fofoca sobre popstars. O jornal tinha um bom analista político mas a coluna dele era muito pequena.
JC - O que você fazia?
Nerisha - Eu era repórter geral, como o jornal só saia de domingo eu ia atrás de boas histórias que ainda pudessem ser relevantes no fim de semana. Para mim o jornal não servia pois eu tive uma posição política a vida toda e aquele jornal nunca assumiu um lado. O jornalismo me decepcionou porque não se tratava de descobrir e passar uma informação mas sim de simplesmente vender jornal.
JC - Quanto tempo você ficou no jornal?
Nerisha - Não fiquei muito lá, passei a dar aulas de jornalismo em uma escola com alunos de maioria negra, numa cidade perto de Pretória, a capital do País. No departamento de jornalismo não temos muitos alunos, são apenas 200, mas no total a escola tem 9 mil alunos. Temos alguns problemas com equipamentos e instalações mas o corpo docente é bom e os alunos realmente querem aprender. A situação é mais ou menos igual aqui no câmpus da Unesp de Bauru, segundo me contaram alguns alunos que eu conheci.
JC - E o que trouxe você ao Brasil?
Nerisha - Estou passeando, conhecendo lugares, pessoas e conhecendo melhor o País. Existe uma pesquisa na África do Sul sobre as similaridades entre os dois países em termos de pobreza, analfabetismo, pessoas sem teto, parece que os dois países são mesmo muito parecidos. Isso é uma das razões pelas quais eu quis vir para cá, para ver como vocês lidam com seus problemas porque nós temos os mesmos problemas, claro que numa escala bem menor porque nosso país é bem menor.
JC - O que se sabe do Brasil na África do Sul, ou que se pensa sobre o Brasil?
Nerisha - Nós temos essa idéia de que o Brasil
é um lugar lindo e mágico, temos uma visão romântica sobre o País.
JC - O que você conheceu até agora?
Nerisha - São Paulo, Campinas, Sumaré e agora Bauru. Estou planejando conhecer o Rio, as cidades costeiras e depois Manaus.
JC - O que você tem achado do País?
Nerisha - Tem sido ótimo, é muito diferente de partes da África do Sul, existem pessoas não tão pobres que estão se dando bem, aliás até agora não vi a pobreza real. Percebi que existem poucos alunos negros na universidade, mas ainda é cedo para traçar um perfil do País.
JC - E o povo brasileiro?
Nerisha - Todo mundo é tão caloroso e simpático, na África do Sul as pessoas são mais reservadas, eles te tratam bem, mas não te abraçam e te convidam para ir na sua casa se acabam de te conhecer, como tem acontecido comigo.
JC - Nem te dão três beijinhos?
Nerisha - Não, não têm beijinhos, eles só te apertam a mão.
JC - Nós temos uma visão talvez um pouco errada da África do Sul, porque só ouvimos falar do País quando a notícia é ruim. São casos de violência, racismo. O que é verdade nisso tudo?
Nerisha - Temos muita pobreza e problemas sociais, que não são desculpas, é claro, para a violência que existe em alguns lugares do país, como Johannesburg, por exemplo. Não existe mais violência política no País, pelo menos não como havia antes. Alguns partidos representam grupos étnicos e isso sempre foi motivo de conflito.
JC - E como anda a relação entre brancos e negros?
Nerisha - Ainda existem muitos brancos em posições do comando porque dizem que os negros não têm capacidade para liderar, mas o fato é que existem poucos lugares que possam oferecer aos negros a instrução necessária para assumir cargos de chefia.
JC - Mas e nas ruas, como está essa relação?
Nerisha - Eles estão se tratando bem, é claro que existem problemas em certas áreas, particularmente entre fazendeiros e seus funcionários. Os fazendeiros são todos brancos e os empregados, negros então existem alguns casos de espancamento e é muito difícil um fazendeiro pagar pelo que comete. Em geral nas cidades a coisa está melhorando.
JC - O turismo na África do Sul tem sido muito afetado durante esses últimos anos por causa dos problemas raciais e da violência?
Nerisha - Muito dinheiro entra no País por conta do turismo mas a indústria do turismo tem sofrido muito nos últimos anos. A África do Sul é um país lindo mas precisa ser melhor explorado e ter melhores condições de segurança para os turistas. Mesmo assim temos muitos visitantes ainda.
JC - Você tem uma expectativa otimista para o futuro?
Nerisha - Em geral eu tenho uma visão otimista do futuro para a África do Sul. Uma das razões pelas quais decidi viajar foi para ter uma visão distanciada das coisas e dos problemas do meu país. Nós tivemos eleições este ano e espero que o sistema educacional e as relações entre as pessoas melhorem cada vez mais. As pessoas estão começando a trabalhar mais e tenho muitas esperanças no país. Eventualmente iremos nos sobressair mais ainda vai demorar um pouco.
Um pouco de história
A África do Sul é um país que ocupa grande parte do sul do continente africano. A nordeste, o Transvaal faz fronteira com Botsuana, Zimbabue, Moçambique e Suazilândia. No sul, o Estado Livre de Orange cerca Lesoto parcialmente. Na costa sudeste, Natal tem fronteiras com Moçambique, Suazilândia e Lesoto, enquanto a maior de todas as regiões, a Província do Cabo, ocupa todo o sul do país.
Formado como domínio independente da Coroa Britânica em 1910, a União Sul-Africana compreendia as antigas colônias britânicas Cabo e Natal, as repúblicas bôeres do Transvaal e o Estado Independente de Orange recentemente derrotado nas guerras dos bôeres. Politicamente dominada pela minoria branca, a África do Sul apoiou a Grã-Bretanha nas duas guerras mundiais com tropas lutando em várias fronteiras.
Após 1948, o partido Nacional Africânder, de orientação direitista, formou o governo, instituindo um severo sistema de apartheid, intensificando a discriminação contra a maioria não-branca, e privando-a de direitos civis. A
África do Sul tornou-se república (1960) e deixou a Commonwealth (1961), o Conselho Nacional Africano foi banido e seus líderes, incluindo Nelson Mandela, aprisionados. Apesar de sua força econômica permitir que dominasse a metade sul do continente, o crescimento do nacionalismo negro, tanto interno quanto nos países ao redor (inclusive a Namíbia, antigo território do mandato), acarretou uma violência crescente e intensificou o isolamento da África do Sul no mundo diplomático.
Em 1985 o regime de P.W. Botha tentou diminuir a tensão ao interpretar o apartheid de forma mais liberal, o que não satisfez, nem a cada vez mais militante população não-branca, nem os extremistas grupos de direita da pequena elite branca. Em 1986 foi decretado estado de emergência e milhares de pessoas foram presas sem julgamento. Os aspectos interno e internacional do problema permaneceram inseparáveis, com tropas sul-africanas lutando contra as guerrilhas da Swapo na Namíbia e Angola, e o apoio de países vizinhos ao proscrito Congresso Nacional Africano acarretou uma série de incidentes dentro das fronteiras do país. Em 1988 o Congresso americano votou a favor do apoio aos Estados africanos da 'Linha de Frente' em suas exigências de sanções internacionais. O presidente Botha afastou-se do cargo em 1989 e seu sucessor, o presidente de Klerk, iniciou o caminho para a reconciliação racial.
Após a revogação do apartheid em julho de 1990 foram aliviadas as sanções e a África do Sul foi readmitida no cenário internacional do esporte. Em dezembro de 1991 delegações do governo, do Partido Nacional, do Partido Democrático, do Partido Comunista Sul-Africano, do Congresso Nacional Africano, do Incatha e das comunidades indianas e de cor reuniram-se para formar a Convenção pela África do Sul Democrática (Codesa). Durante o ano de 1992 violentos incidentes raciais atrapalharam as reuniões da Codesa, que também foi ferozmente atacada pelo Movimento de Resistência Africânder, neofascista. Em maio de 1994, Nelson Mandela, do Congresso Nacional Africano, foi eleito nas primeiras eleições gerais livres presidente da África do Sul. Em outubro Mandela e de Klerk ganharam o Prêmio Nobel da Paz.
Fonte: Enciclopédia Ilustrada da Folha