Creci busca novos caminhos
Creci busca novos caminhos
Texto: Paulo Toledo
O Conselho Regional dos Corretores de Imóveis (Creci) vem buscando contornar as dificuldades financeiras que enfrenta por conta de uma liminar que reduz o valor da anuidade a ser paga. Roberto Capuano, 55 anos, presidente licenciado do órgão, e José Augusto Viana Neto, 48 anos, presidente em exercício, destacam que o trabalho desenvolvido atualmente busca dar respaldo ao desenvolvimento profissional dos corretores. Eles lamentam que o problema dificulta, também, as fiscalizações, o que permite aos que exercem a profissão ilegalmente ter a possibilidade de lesar muitas pessoas.
Apesar da liminar, Bauru está em primeiro lugar no pagamento das anuidade, com um total de 70% dos profissionais e empresas,
"dando um exemplo de consciência para todos os profissionais". Veja os melhores momentos da entrevista exclusiva ao Jornal da Cidade:
Jornal da Cidade - O Creci está passando por uma transição, com o senhor assumindo a presidência, depois da morte do José Ponchio Vizzari. Como está o atual momento?
Viana Neto - Veja bem, não é uma fase de transição é uma fase de continuidade do trabalho que vinha sendo feito, primeiro pelo Capuano, depois pelo Vizzari. Agora, tenho a responsabilidade de administrar o Conselho, interinamente.
O objetivo principal deste trabalho é envolver o corretor de imóveis como entidade, fazer com que ele participe mais da administração desta entidade, fazer com que perceba que tem no Creci uma entidade que vai poder dar respaldo a seu desenvolvimento profissional, de seu prestígio dentro da comunidade e na união entre os companheiros.
O trabalho principal estará dirigido a essa orientação. Fornecer material e informação para que o corretor possa estar mais atualizado, mais habilitado a oferecer seus serviços com segurança de informações que dizem respeito
às lei. Percebemos que o tempo vai passando e muitos colegas não procuram se atualizar ou especializar, em algumas determinadas
áreas que são de vital importância para o desenvolvimento da profissão.
Jornal da Cidade - O Creci está com problemas de mais uma liminar que impede o pagamento integral da anuidade, baixando-a para R$ 30,00, o que reduz sua capacidade financeira. Como enfrentar isso?
Viana Neto - A liminar atrapalha muito, impedindo que o trabalho possa ser desenvolvido na totalidade. Então, em determinados momentos ficamos reduzidos a administrar o patrimônio do Creci. Com isso, fica-se impossibilitado de desenvolver um trabalho que alcance todo o Estado nesse sentido mais amplo, de estar levando mais formação. Mas, estamos confiantes. A Justiça está para decidir e, temos uma grande convicção que, a exemplo do ano passado, quando o Creci obteve a vitória, a Justiça vai decidir em favor do Creci.
Jornal da Cidade - Enquanto isso, o que ocorre?
Viana Neto - Uma das providências que estamos adotando, para que possamos atravessar essa fase difícil, é a emissão de uma taxa espontânea, que poderá ser paga pelos colegas que quiserem colaborar para que o conselho possa manter suas atividades. Temos buscado uma restrição de despesas, que é uma ordem absoluta. Vamos levar com os recursos que dispomos.
Jornal da Cidade - Qual o posicionamento dos membros da categoria?
Capuano - Muitos corretores têm dado uma demonstração de consciência profissional muito grande, porque essa liminar foi amplamente divulgada e, ainda assim, esses corretores pagaram a anuidade integral, mesmo sabendo que poderiam para um valor menor, o que mostrou um nível de consciência muito grande.
Estamos notando que os corretores já se cansaram de meia dúzia de políticos profissionais que tentam criar problemas. Para se ter uma idéia, essa liminar foi obtida por um Sindicato de Rio Claro que quase não tem sócios... Isso é induzido. A idéia, quando se faz isso é travar o desenvolvimento do Creci. Não sei a serviço de quem está esse pessoal, mas, na verdade, não está a serviço da categoria. A boa notícia
é que o corretor se conscientizou disso, tanto que animou o Viana a fazer essa contribuição espontânea.
Cada vez mais, sentimos que o corretor quer a profissão dele consolidada, cada vez mais prestigiada e não está mais olhando esse lado da querela política. A quem beneficia você criar dificuldades para a maior entidade do País no setor imobiliário? O que isso fez? Temos um projeto de treinamento que hoje é fundamental, pois é a adequação do corretor ao mercado atual, à crise de mercado, quais estratégias a serem usadas, qual o comportamento e o trabalho que deve fazer, como negociar com o cliente, como lidar com financiamento. São coisas básicas, uma reciclagem importante que os grupos estavam dispostos a fazer em todo o Estado e está travada por dificuldades financeiras, porque a liminar cria os problemas, prejudicando o desenvolvimento de 60 mil profissionais. A gente sente que muitos corretores têm repudiado essa situação.
Jornal da Cidade - Como foram os pagamentos?
Viana Neto - Bauru é exemplo para todo o Estado. Cerca de 70% dos corretores de imóveis e das empresas da cidade pagaram as anuidades. Bauru está em primeiro lugar no Estado. Então, fica até a diretoria do Creci obrigada a ter uma atenção muito especial com os profissionais daqui.
Capuano - Rio Claro está em quarto. A cidade de Rio Claro, que entrou com a liminar está em quarto em pagamentos. Os próprios corretores de Rio Claro estão indignados com a liminar.
Viana Neto - A diretoria desse sindicato que entrou com a liminar pagou normalmente. Só o presidente que não pagou. É uma situação muito difícil que, com muita criatividade, com contenção de despesas, consegue levar. Porém, trava a atualização técnica do profissional. Ficamos de mãos atadas, não dá para desenvolver mesmo.
Jornal da Cidade - Um dos grandes problemas que sempre se teve na profissão de corretor de imóveis são os não-habilitados, os chamados picaretas. Como está a fiscalização?
Viana Neto - Estamos fiscalizando, na medida do possível, com os recursos que temos. Não dá para fazer a fiscalização que fazíamos anteriormente porque tem um alto custo de combustível e para manter os inspetores viajando. Mas, dentro daquilo que é possível, estamos trabalhando. O Creci está atuante. As denúncias são atendidas, principalmente aquelas que partem do poder público, prefeituras, Ministério Público, Procon, etc. O Departamento Jurídico funciona normalmente. A estrutura do Creci na sede e nas delegacias está normal.
Jornal da Cidade - Além da categoria, a população também está perdendo, com a possibilidade de ser lesada por um "picareta"?
Viana Neto - Essa é a grande preocupação da diretoria. É no sentido de coibir, principalmente, a ação dos estelionatários que vitimam, geralmente, a população de baixa renda. Nesse momento, o Creci fica de mãos atadas. Nosso interesse é ter nossas viaturas circulando pelas estradas, cidades turísticas, em fins de semana, onde é grande a atuação desse tipo de pessoas, e fica impossibilitado.
Com isso, uma família que, às vezes, tem suas economias de uma vida toda envolvidas em uma transação que não é legítima, acaba sendo um prejuízo que não tem como ser reparado. A atuação do Creci fica prejudicada de uma forma odiosa. Quando você percebe que um vigarista, um ilegal, agiu e trouxe prejuízo para uma família inteira e que ela não vai ter a recuperação desse dinheiro, aí sim que a gente fica muito aborrecido e vê o mal que essas pessoas, que são os inimigos da profissão, estão causando.
Jornal da Cidade - É tão grave assim?
Capuano - Ontem à noite, vi no noticiário, em Brasília, onde não há fiscalização, um sujeito lesou 50 ou 60 pessoas. Quando a pessoa compra um imóvel
é altamente significativo na vida dela. É importante lembrar que precisa tomar muito cuidado e procurar um corretor credenciado. Pois, a pessoa faz duas, três, quatro operações durante a vida. Então, é um nível de informação muito baixo e a pessoa fica muito vulnerável a ser enganada. E, quando não podemos colocar uma fiscalização efetiva e a pessoa não procura um corretor credenciado a situação fica extremamente mais grave.
Então, queria lembrar isso: o despreparo da população para entender a verdadeira atividade é muito ruim. Uma das principais lutas do Viana vai ser, neste final de mandato e no próximo, que tenho certeza que ele vai exercer, mostrar, realmente, a verdadeira cara do corretor, mostrando que existe uma diferença abissal entre o profissional imobiliário e o ilegal. Agora, invariavelmente, da mesma forma que o brasileiro se recusa a ler contrato e acaba realizando péssimos negócios, ele se recusa e tem vergonha de pedir uma identificação profissional que, para ele, é a maior proteção que existe. Temos isso estatisticamente provado, em 10 anos de convênios com Procons e Decons, que o corretor profissional dificilmente cria problemas, dificilmente realiza uma operação ilegal, porque vive da palavra e da quantidade de negócios. Todas as queixas, todas as grandes encrencas são gerados por ilegais, por aventureiros, por irresponsáveis.
Jornal da Cidade - Os conselhos e órgão de São Paulo costumam ter concentração de direção de pessoas da Capital. O Creci tem uma grande parte o Interior
é o reconhecimento profissional?
Viana Neto - Certamente. Uma das coisas que queremos corrigir
é que a força de trabalho do Interior equivale a 60% do total do Estado e existem lideranças excelentes em todo o Interior. Sacrificando um pouco a parte das pessoas que têm que se deslocar para São Paulo, estamos com grande parte das lideranças do Interior. No conselho, são 70% de representantes do Interior.
São Paulo é um País dentro de um País. Você tem 10, 12, 15 cidades que são maiores de muitas capitais do Brasil. Então, temos um celeiro de lideranças fantástico. Tivemos o Vizzari. Temos o Viana que é uma pessoa de uma grande profundidade e com espírito comunitário fantástico. Esse espírito comunitário e de liderança, às vezes, encontramos com mais facilidade no Interior do que na Capital. Então, a experiência tem sido um sucesso. É da própria abertura do Creci que, durante muitos anos ficou hermético. Essa abertura começou comigo, de não olhar a posição política da pessoa, mas a qualidade que ela tinha, no que poderia contribuir com a entidade que, na verdade, não
é de uma pessoa só.