Acordo de exportadores de café poderá cair em Londres
Acordo de exportadores de café poderá cair em Londres
Texto: Paulo Toledo
O acordo internacional de limitação das exportações de café pode ruir, em razão da posição adotada pelo Brasil que vem estourando, mensalmente, em quase 70%, sua cota. A reunião da Associação dos Países Produtores de Café (APPC), que começa na segunda-feira, em Londres, pode colocar um fim ao cartel implantado pelo produtores. Por outro lado, em outra reunião, a da Organização Internacional do Café (OIC) deve renovar por mais dois anos o acordo existente, o que garante, por enquanto, a sobrevivência do órgão.
Maurício Lima Verde Guimarães, 61 anos, vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp), presidente do Sindicato Rural de Bauru (SRB) e membro do Conselho Deliberativo de Política Cafeeira (CDPC), que vai participar das reuniões acredita que a APPC pode estar com os dias contados, em razão do descrédito brasileiro.
Lima Verde disse que, na volta da última reunião, em maio, marcou-se uma reunião para julho, na qual os países produtores acertaram que as cotas de vendas estabelecidas pela APPC voltariam a ser respeitadas com rigor. Porém, o Brasil continuou vendendo até 1,7 milhão de sacas de 60 quilos por mês, enquanto sua cota era de 1 milhão de sacas. "Agora, temos um protesto enorme da Colômbia, que está vendendo café por um preço muito ruim e culpando exclusivamente o Brasil, que continua exportando além da cota", afirmou.
O vice-presidente da Faesp destaca que, em maio, os países produtores já não acreditavam no Brasil, porém deram um voto de confiança na promessa brasileira de passar a cumprir as cotas. O Ministério da Indústria e Comércio do Brasil chegou a afirmar que fecharia os registros de exportação, evitando os excessos. Porém, o controle passou para o Ministério da Agricultura que permitiu a continuidade das vendas.
Como conseqüência disso, o valor da saca de café já chegou a US$ 75,00, o preço mais baixo em dólar dos últimos anos no mercado internacional. "Só não atingiu um caos muito grande porque o dólar vale R$ 1,80. Se o dólar estivesse num patamar próximo do real estaríamos em dificuldades muito maiores", destacou.
Porém, a APPC vai passar por uma mudança na presidência, da qual sai o embaixador Rubens Barbosa, que está em Washington, no Estados Unidos, e assume Sérgio Amaral, atual embaixador na Inglaterra (ex-porta-voz do presidente Fernando Henrique Cardoso).
A desculpa utilizada na última reunião para justificar o excesso de exportação era a desvalorização cambial. Porém, mesmo passada essa fase, o Brasil não cumpriu o acordo de maio, pelo qual deveria voltar a cumprir a cota de 1 milhão de sacas.
Para Lima Verde, não há mais motivos para a existência da APPC, pois não está conseguindo controlar o mercado, pois todos, principalmente o Brasil, que é o maior exportador, estão vendendo o quanto querem. "A entidade perdeu, completamente, a credibilidade. Tanto perdeu, que o países compradores sabem que podem oferecer qualquer preço que conseguem adquirir o produto", afirmou.
O vice-presidente da Faesp lembrou que o Brasil tem um excedente de 5 milhões de sacas que vão para estoque. Assim, acredita que o preço poderá cair ainda mais. "Um especialista francês disse para mim, ontem (quinta-feira) que a situação vai se tornar caótica se não houver uma medida forte para coibir o excesso. A única coisa que se fala é que, se o Sérgio Amaral assumir terá que tomar uma posição firme, pois o outro estava saindo e não a teve. Isso só vamos ver na próxima semana na reunião da APPC", afirmou.
Em relação à OIC, a situação também deverá se definir na próxima semana. O governo brasileiro ameaçava se retirar da Organização, caso os países consumidores não concordarem em fazer algumas concessões, como a destinação de verbas para marketing internacional e a permissão de entidades não governamentais de consumidores entre os membros, substituindo os organismos governamentais que não fizerem parte. A atitude brasileira poderia inviabilizar a existência da Organização, da qual o País faz parte desde a fundação, há 38 anos. A renovação do acordo por mais dois anos, como está previsto, parece deve acalmar os ânimos.