08 de julho de 2026
Geral

Exames médicos

Adriana Amorim
| Tempo de leitura: 6 min

SUS cria excluídos da tecnologia

SUS cria excluídos da tecnologia

Texto: Adriana Amorim

Além de enfrentar fila nos núcleos de saúde, permanecer nos corredores de prontos-socorros à espera de uma vaga nos hospitais, os usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) também ficam de fora de parte da tecnologia de ponta da qual a Medicina moderna dispõe. Atualmente, quem precisa passar por ressonância magnética, por exemplo, não encontra o exame na rede pública em Bauru.

Tanto a ressonância como a densitometria óssea (exame que analisa os componentes ósseos) e a videolabaroscopia

(procedimento para diagnóstico e cirurgia feito através de uma microcâmera inserida em um pequeno corte) constam da tabela do SUS, mas ainda não estão à disposição dos usuários do sistema público de saúde em Bauu.

Além deles, outros dois procedimentos - transplante de coração e neurocirurgia dos tipos 2 e 3 - também não podem ser realizados na cidade. Isso porque não existe nenhum prestador de serviço conveniado nesse tipo de exame. Entre outros motivos, a baixa remuneração do SUS faz com que muitos profissionais não se interessem em colocar o recurso à disposição.

A Associação Hospitalar de Bauru (AHB) deve suprir a carência nas cirurgias do cérebro, uma vez que a entidade pediu o credenciamento junto ao Ministério da Saúde para poder realizar os dois tipos de procedimentos que envolvem técnicas mais sofisticadas.

Mesmo assim, o usuário do SUS que precisa passar por essas cirurgias ou pelos outros tipos de procedimentos inexistentes no Município têm que ser encaminhados pela Divisão Regional de Saúde (DIR-10) para cidades onde hospitais ou clínicas colocam os exames à disposição. O paciente que necessita de videolabaroscopia, por exemplo, geralmente

é encaminhado para Jaú. Nesse caso, o paciente corre o risco de ter que aguardar até meses para conseguir uma vaga (veja matéria anexa). A dificuldade acontece até mesmo no caso dos exames que são oferecidos na cidade. Devido à pequena quantidade colocada à disposição, eles não são suficientes para atender a demanda.

Se enquadram nessa situação a mamografia e a ultra-sonografia, que estão sendo agendadas pelo Ambulatório de Especialidades da DIR para o final dezembro ou início do ano 2000. Isso significa que, embora parte dos recursos esteja disponível, nem sempre eles chegam em tempo e em com qualidade suficiente para evitar consequências mais graves na saúde do paciente.

As clínicas particulares são uma alternativa praticamente descatarda para os usuários do SUS. Para fazer uma densiometria

óssea, por exemplo, o paciente precisa pagar em torno de R$ 270,00. A ressonância magnética sai em média por R$ 750,00.

EXAMES OFERECIDOS PELO SUS

Disponíveis em Bauru

(cada grupo contém alguns exemplos de procedimentos praticados)

- radiodiagnóstico : mamografia, raio-x, urografia excretora

- patologia clínica : exames laboratoriais, de fezes a hormônios, incluindo o de HIV

- exames hemodinâmicos : cateterismo

- TRS (Terapia Renal Seletiva) : hemodiálise

- imagenologia : tomografia computadorizada

- outros exames especializados : biópsia, teste de alergia, eletroencefalograma

- outras terapias especializadas : transfusão de sangue, cauterização

- medicina nuclear

- ultra-sonografia

- radioterapia

- quimioterapia

- fisioterapia

Não-oferecidos em Bauru

- ressonância magnética

- densiometria óssea

- videolabaroscopia

- transplante de coração

- neurocirurgia 2 e 3

Fonte: DIR-10

Custo-benefício afasta alguns procedimentos

Os custos necessários para a manutenção de determinados exames médicos na rede pública de saúde são maiores que os benefícios originados por eles, fator que muitas vezes impede que os procedimentos sejam oferecidos aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS). A explicação é da Divisão Regional de Saúde (DIR-10), que aposta em alternativas como substituição

às técnicas mais modernas.

"Questionamos se valeria a pena trabalhar com determinadas coisas, uma vez que elas custam tão caro e acrescentam tão pouco que o custo-benefício não indica a sua adoção", afirma o diretor da DIR-10, Flávio Badim Marques. "De repente, é preferível gastar menos e atender mais gente, porque a pessoa que está precisando do aparelho sofisticado não vai morrer por conta disso".

O diretor da DIR acrescenta que alguns exames foram incorporados

à prática médica, mas outros podem ser substituídos por técnicas menos modernas e conseguir resultados semelhantes. Ele cita o caso do laser, que atualmente é utilizado em diversas áreas da medicina, mas que não precisa ser usado necessariamente na extração de verrugas.

Badim Marques argumenta ainda que o SUS garante à população alguns exames que nem mesmo determinados convênios médios oferecem cobertura, como a quimioterapia e a radioterapia. Aspecto que segundo ele mostra o "atendimento de qualidade prestado

à população". De acordo com a DIR, o governo estadual gasta R$ 5,8 milhões por mês para manter todos os tipos de exames à disposição da população das 41 cidades englobadas pela DIR.

Quanto às baixas cotas de determinados procedimentos oferecidos pelo SUS, Badim afirma que elas refletem a realidade do Município analisada através de pesquisas periódicas. Exemplificando, ele diz que não é viável colocar à disposição 20 exames de uma determinada especialidade se a demanda geral não passa de 10.

Badim garante que o SUS acompanha os avanços tecnológicos e oferece atendimento global aos usuários, prestando desde serviços básicos até os mais sofisticados.

(AA)

Falta de equipamentos dificulta o diagnóstico

A inexistência de alguns equipamentos na rede pública de saúde dificulta a elaboração de um diagnóstico mais preciso. Os profissionais que atendem pelo Sistema Único de Saúde (SUS) muitas vezes precisam recorrer a técnicas menos modernas e não tão eficazes no tratamento.

Para o oncologista e hematologista Paulo Eduardo de Souza, o problema a falta de acesso da população a determinados procedimentos que possuem tecnologia mais avançada passa por questões políticas. Mesmo assim, ele acredita que o sistema público deveria colocar à disposição do usuário todo tipo de atendimento. "Todo sistema de saúde que na sua atribuição é de prover saúde, deve contemplar todos os tratamentos", afirma. "A universalidade no atendimento é atribuição inerente a qualquer sistema de saúde, tanto público como privado".

Na sua área de atuação, os exames não oferecidos pelos SUS chegam a prejudicar na elaboração do diagnóstico. "Ainda bem que é uma minoria de pacientes, mas em alguns momentos eles podem ser tratados de forma não completa", acrescenta.

É o que acontece com a densitometria óssea, um procedimento que dificilmente pode ser substituído por outro. Ele permite a melhor acuidade no aferimento da osteoporose e a monitoração do paciente. "Ele atesta a eficácia da tratamento em uma área que ainda tem pouco a ser feito", explica.

No caso da ressonância magnética, o médico explica que o exame pode ser substituído pela tomografia computadorizada, mas em situações específicas ela continua sendo o melhor método. "A ressonância

é o melhor método de investigação e auxilia melhor o tratamento", completa. Souza diz que o exame é oferecido em outras cidades da região, mas nem sempre na mesma urgência que a doença impõe.

Um dos últimos avanços da Medicina, a videolabaroscopia também não é oferecida pelo SUS em Bauru. A técnica oferece menos agressão ao paciente, diminui o tempo de permanência no hospital e os riscos decorrentes da internação. É usada tanto como instrumento de diagnóstico como para a realização de cirurgias. "Um desenvolvimento tecnológico que poderia ser ofertado para o usuário do SUS", aponta. (AA)