15 de março de 2026
Geral

Cineclube

Fabiano Alcantara
| Tempo de leitura: 4 min

O surto cinematográfico de Bauru

O surto cinematográfico de Bauru

Texto: Fabiano Alcantara

Sem espaço nas salas de cinema da cidade, filmes e vídeos de arte conquistam seu território na Unesp; cineclube da univesidade promove, esta semana, um ciclo de exibições e debates sobre o banditismo e a marginalidade no cinema brasileiro.

Se a moda pega, os (sofridos) cinéfilos de Bauru e região não vão ter mais do que reclamar. Depois do Sesc Bauru direcionar a maior parte de suas atividades neste mês para o audiovisual e o Centro Cultural Mestre Cirilo (CCMC) promover uma excelente mostra de cinema iraniano, o Cineclube da Unesp realiza esta semana, de terça a sexta-feira, um ciclo de filmes brasileiros.

O mais importante é que além de exibidos, os filmes vão ser debatidos por pesquisadores, gerando uma reflexão sobre as obras.

"Procuramos mostrar filmes que não são do circuito comercial, alguns, inclusive, nem são disponíveis em vídeo. Existe uma carência de cultura cinematográfica em Bauru, até porque as salas de cinema só passam filmes comerciais e as locadoras têm um acervo de filmes de arte muito limitado", afirma Rafaela Tasca, articuladora do Cineclube da Unesp ao lado de Juca Pastori, Pedro Paulo Rocha, Andiara Silva, Renina Valejo e Ivanise Pachane. O projeto do grupo é coordenado pelo professor Marcelo Magalhães Bulhões, do departamento de Ciências Humanas.

No ciclo de filmes que começa na terça-feira, batizado de "Banditismo e Marginalidade", estão programadas as exibições de "Boca de Ouro", de Nelson Pereira dos Santos, "O Cangaceiro", de Lima Barreto, "O Bandido da Luz Vermelha", de Rogério Sganzerla e "Deus e o Diabo na Terra do Sol", de Glauber Rocha.

As mostras, seguidas dos debates, estão programadas para começar às 14 horas, na sala 2A, que fica em frente à cantina. Todas as atividades são grátis e abertas para qualquer pessoa participar.

"Queremos que as pessoas de Bauru participem, a Unesp tem que deixar de ser tão isolada ideologicamente. Entre os nossos planos, está estimular a participação de professores e pesquisadores de fora da Unesp, até para fazer uma aproximação com a cidade", afirma Pastori.

De acordo com os articuladores do cineclube, no entanto, neste primeiro ciclo, o único representante da intelectualidade bauruense é o crítico de cinema Rodrigo Pereira. Ainda assim, o pesquisador é formado em comunicação pela Unesp, onde cursa mestrado.

Os debatedores

Pesquisadores com posições distintas sobre os filmes, algumas antagônicas, prometem

"esquentar" os debates sobre os filmes.

A articuladora Rafaela aponta o debate de

" O Cangaceiro", por exemplo, como uma das obras que devem gerar uma discussão saudável. "Enquanto o Rodrigo Pereira é um admirador do filme, o professor

(José Marcos) Romão tem sérias críticas

à tentativa do Lima Barreto de criar uma indústria de cinema no Brasil", afirma.

De acordo com ela, o filme foi escolhido por ser polêmico. "'O Cangaceiro' dialoga com 'Deus e o Diabo na Terra do Sol', marco do Cinema Novo, que por sua vez, influenciou a Boca do Lixo, de onde saiu o 'Bandido da Luz Vermelha'. Já 'Boca de Ouro' antecipa o Cinema Novo", explica.

Banditismo e marginalidade

A escolha do banditismo e da marginalidade para "amarrar" os filmes deste primeiro ciclo tem relação com a criação de uma maneira brasileira de fazer cinema.

"O banditismo e a marginalidade têm relação com o subdesenvolvimento, o que o Glauber chamava de estética da fome. Estes dois elementos representam uma revolta da pessoa. É algo relacionado com a injustiça da sociedade", afirma Pastori. "O nome do ciclo proporciona uma unidade da discussão", completa Rafaela.

Cineclube da Unesp

O Cineclube da Unesp surgiu a partir de alunos ligados ao Dadica (Diretório Acadêmico Di Cavalcanti). Este ano, o grupo encampou a parte audiovisual do projeto Perspectiva

(que promove atrações artísticas todas as quartas-feiras na Unesp) e passou a exibir filmes seguidos de palestras e debates.

"A idéia do cineclube é promover discussões, apesar de ser só uma sala e um telão, é diferente de assistir ao filme sozinho em casa", afirma Rafaela.

De acordo com ela, neste semestre o cineclube vai priorizar o cinema brasileiro. "Não é xenofobia. Pouca gente conhece a produção nacional".

Serviço

Ciclo de cinema brasileiro: banditismo e marginalidade. De terça a sexta-feira, na Unesp Bauru, a partir das 14 horas, na sala 2A. Grátis. Informações: 221-6000. Contatos com o cineclube para apoio cultural: 2239250. E-mail: jucapastori@zipmail.com.br, rafamt@hotmail.com.

Veja a programação

Terça-feira

Boca de Ouro - Nelson Pereira dos Santos

Debate: Marcelo Carbone e Maximiliano Vicenti

Quarta-feira

O Cangaceiro - Lima Barreto

Debate: Rodrigo Pereira e José Marcos Romão

Quinta-feira

O Bandido da Luz Vermelha - Rogério Sganzerla

Debate: Solange Maria Bigal, Fábio Negrão Pinto e José Amauri de Oliveira

Sexta-feira

Deus e o Diabo na Terra do Sol - Glauber Rocha

Debate: Loriza Lacerda de Almeida e Marcelo Magalhães Bulhões