08 de julho de 2026
Geral

Relacionamentos via Internet

Redação
| Tempo de leitura: 6 min

Os filhos da Internet

Os filhos da Internet

Uma nova geração de crianças está surgindo no Brasil. São os filhos da Internet. É esse o nome que se poderia dar às crianças cujos pais se conheceram em sites de conversação da rede de computadores, partiram para contatos pessoais, se casaram e já tiveram filhos. Tudo numa rapidez notável, típica dos tempos do on-line. Alguns desses casais, aliás, já se desfizeram e os pais partiram para outra.

O menino Matheus, que vai completar um ano este mês, nasceu de uma dessas relações. Seus pais, Tatiana de Oliveira Sita e Marcelo

Renaud, conheceram-se em uma sala de bate-papo sobre sexo, em janeiro de 1996. Em dezembro do mesmo ano já estavam casados.

"Na época, as pessoas estranharam a maneira como nós nos conhecemos e a velocidade do casamento", recorda Tatiana, que tem 24 anos e é professora de inglês.

Ela conta que a distância foi uma das razões da rápida união. Marcelo, que é gerente de vendas, na época morava em Santos. "Queríamos ficar juntos logo e não estávamos gostando de ter de viajar todos os dias", diz ela, que mora na capital.

Há nove meses o casamento se desfez. Tatiana não atribui o rompimento à forma como os dois se conheceram. Na opinião dela, a separação deve-se a problemas de convivência que são comuns a todos

os outros casais. "Achei ótima a maneira como nos encontramos e pretendo contar tudo isso ao meu filho." Fabiana Carlini, de 21 anos, e Paulo César de Moraes Carlini, de 33, também deverão contar ao filho, que nasce em novembro, a forma como se conheceram. O casal começou a trocar mensagens em setembro de 1997. Casaram-se dez meses depois e agora esperam um filho.

Preconceito

O casal, que mora em Brasília, convive com um grupo de 20 amigos que se conheceram em sites de conversação.

"Muitas pessoas acreditam que só se fala bobagem ou mentiras durante as mensagens, mas é puro preconceito", diz Fabiana.

A psicóloga Mariângela Blois, de 34 anos, concorda.

"Fiquei viúva há 3 anos, com dois filhos pequenos, e passei a teclar para distrair-me", conta. Numa das noites em que visitava um chat - como são chamadas as salas de conversação virtual - Mariângela conheceu Júlian. Um mês e meio depois, em maio de 1997, conheceram-se pessoalmente. Em agosto começaram a namorar e, em outubro do mesmo ano, estavam morando juntos. O casal também espera um filho, que deve nascer dentro de um mês. Mariângela conta que, no período em que apenas trocava mensagens com Júlian, passava horas na frente do computador.

Mensagens

A maior parte dos casais segue o mesmo trajeto. Antes dos encontros pessoais, passam horas teclando mensagens e, numa etapa intermediária, falando por telefone. Nessa fase, geralmente as pessoas abandonam o codinome usado na Internet, onde se diz nickname, ou simplesmente nick.

Muitas vezes todo esse percurso é interrompido bruscamente, com o sumiço de um dos companheiros. "Isso ocorre com pessoas que usam as salas para brincar, mentindo sobre idade, sexo, profissão ou estado civil", diz Júlian.

Júlian e Mariângela afirmam que tiveram sorte. "Ela

é exatamente aquilo que imaginei", confessa ele. Mariângela conta que, ao saber que Júlian era solteiro, ficou temerosa.

"Ele tinha na época 34 anos e, por isso, imaginava-o um solitário convicto."

A rival

Depois das uniões, o papel da Internet costuma mudar. Ela deixa de ser a madrinha dos casamentos para se transformar em rival. Tatiana e Marcelo, por exemplo, depois que se casaram, abandonaram totalmente as salas de conversação.

"Dava ciúmes, mesmo", diz Tatiana. Ela só voltou a freqüentar os chats depois de separada. E desde então já teve dois namoros rápidos.

Mariângela e Júlian também deixaram as salas.

"Já estamos casados, vivemos em uma família

ótima, não temos tempo para gastar com conversas virtuais."

Rapidez

A rapidez com que se formam os casais, a partir da Internet, chama a atenção. Para o psicólogo do Instituto Paulista de Sexualidade Marcelo Toniette os casamentos-relâmpago formados a partir da Internet não espantam. "Na maioria das vezes, são pessoas solitárias, que buscam uma companhia, um par."

Sempre existe o risco, na opinião do psicólogo, de a pessoa apaixonar-se por uma fantasia. "As pessoas estão em frente de uma máquina e geralmente acabam se correspondendo com um personagem", diz.

O psicólogo acrescenta que o falso conceito do parceiro pode ocorrer tanto por enganos de quem recebe quanto de quem envia a mensagem. "Quando uma pessoa está teclando, ela se expressa de outra forma, às vezes mais comedida do que no contato pessoal, às vezes mais solta", observa.

"Isso acaba causando enganos."

Desilusão também

marca romances on-line

A professora Regina Campos até hoje não entende o que aconteceu. Separada, com 49 anos, ela se inscreveu em um site de encontros virtuais. Alguns dias depois, foi procurada por Cleber. Conversaram

e marcaram um encontro, cercado de cuidados. Regina escolheu um restaurante no shopping, foi com seu carro e levou celular. "Tomei as precauções por segurança", conta.

"Caso ele não me agradasse, ficaria mais fácil ir embora."

O encontro foi perfeito. "Vivemos por duas semanas um conto de fadas", diz. Nesse período, Cleber a levou para conhecer sua casa em São Paulo, o trabalho, sua casa de praia, a família. "Achei que ele estava mostrando detalhes para eu me certificar que tudo o que dizia era verdadeiro", afirma Regina.

Quando o namoro completou três semanas, Regina preparou um almoço para comemorar o aniversário de Cleber.

"No banheiro, ele já havia colocado toalhas compradas especialmente para mim, cor-de-rosa, com iniciais", revela.

"Qual mulher não ficaria impressionada?"

No entanto, logo depois do almoço, Cleber desapareceu.

"Não sei o que aconteceu, fiz de tudo para vê-lo de novo, mas nada adiantou." Decepcionada, ela retirou seu nome do site de encontros, o Como Vai. "Mas depois pensei melhor, voltei a colocar o nome e já estou me encontrando com outro homem, agora numa relação mais madura."

O espaço entre uma relação e outra é menor que um mês. "A vida moderna é assim mesmo, não?', diz ela.

O site Como Vai (http://www.comovai.com.br)demonstra o quanto as pessoas recorrem à Internet em busca de pares. Inaugurado há pouco

mais de três meses, já tem mais de 5 mil inscritos.

"Damos um questionário, onde a pessoa responde quais são suas características e expectativas", explica Mirian Bobrow, sócia do Como Vai. "Depois disso, elas recebem uma lista com as pessoas candidatas."

Roberto Andrade, que há um mês criou o site Amizade Colorida (http://www.amizadecolorida.com.br), tem a mesma avaliação.

"As pessoas que estão solitárias recorrem a serviços como esse, mas sempre querem alguma garantia", afirma. No serviço do Amizade Colorida, será preciso cadastrar-se e pagar uma quantia, ainda não definida. Por enquanto, o serviço é gratuito.