08 de julho de 2026
Geral

Doenças do estômago

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 5 min

Úlcera atinge de 5 % a 10% da população

Úlcera atinge 5% a 10% da população

Texto: Sabrina Magalhães

Gastrite e refluxo gastro-esofágico (azia) são problemas estomacais mais comuns

Cerca de 5% a 10% da população adulta da maioria dos países ocidentais é portadora da chamada úlcera péptica - uma lesão escavada, geralmente solitária e crônica, que se forma na mucosa dos órgãos digestivos. Uma ferida que pode aparecer no esôfago, estômago ou duodeno (a intestinal é mais freqüente). O interior desses órgãos é revestido por uma mucosa cuja função é impedir que os ácidos do estômago corroam suas paredes. A úlcera começa com uma inflamação que rompe esse tecido superficial, de forma que os sucos gástricos, hepáticos e pancreáticos entrem em contato com esta parede.

A gravidade de uma úlcera depende da profundidade que ela atinge, ou seja, a parede dos órgãos é composta por várias camadas de músculos e vasos sangüíneos que ficam atrás da mucosa. Quando a lesão atinge apenas a camada superficial, recebe o nome de erosão. Se os ácidos chegam à camada muscular, tem-se uma úlcera aguda. E se a lesão atravessa toda a parede, permitindo que as secreções passem para tecidos adjacentes, então a úlcera é perfurada. Em qualquer situação, a pessoa tende a sentir dores e desconforto e, algumas vezes, pode haver hemorragia.

Gastrite

Já a gastrite é uma inflamação na parede do estômago, que se manifesta em forma de edemas ou feridinhas múltiplas, superficiais e hemorrágicas. Quase sempre é causada pela ingestão ou inalação em excesso de produtos que irritam a mucosa, como bebidas alcoólicas, alimentos condimentados (pimenta, principalmente), medicamentos

(tipo aspirina), cigarros e substâncias tóxicas.

Nestes casos, basta evitar o uso desses produtos que o próprio organismo se encarrega de sanar o problema em dois a cinco dias. Quando isso acontece, diz-se que o paciente teve uma gastrite aguda, momentânea. No entanto, se o agente agressor não

é eliminado ou se a inflamação é causada por um germe, a gastrite pode se tornar crônica se não houver tratamento adequado. A pessoa que tem uma gastrite geralmente apresenta dores abdominais, a chamada queimação e pode apresentar náuseas. Em alguns casos, porém, a patologia pode não apresentar qualquer sintoma.

Refluxo

De acordo com o gastroenterologista Ricardo Lia Mondelli, outro problema muito freqüente nos consultórios é a esofagite de refluxo ou refluxo gastro-esofágico. É a chamada azia, quando o indivíduo sente a "boca" do estômago queimar e às vezes volta uma água azeda na boca. "Só que a mucosa do esôfago não está preparada para receber ácidos, de forma que o refluxo causa uma inflamação no local. Se não for tratada, essa inflamação pode se agravar e pode se transformar numa lesão pré-maligna."

Ele ressalta que o refluxo geralmente é causado por um

"defeito" anatômico do indivíduo, ou seja, no ponto de ligação entre o esôfago e o estômago há uma "dobra", uma angulação natural que impede que o conteúdo estomacal volte para o esôfago. Alguns indivíduos têm esse ângulo pequeno ou atenuado, de forma que mediante qualquer pressão no estômago, o ácido volte pelo esôfago.

O tratamento vai depender da gravidade do problema. "Basicamente o tratamento é clínico, o paciente tem que perder peso para diminuir a pressão intra-abdominal, tem que elevar a cabeceira da cama (em cerca de 20 centímetros) para dormir. Algumas vezes nós usamos medicação para baixar a acidez do estômago. E no caso de hérnia de hiato, se for acentuada, fazemos uma cirurgia corretiva."

De acordo com A Gazeta Digestória (jun/99), o refluxo gastro-esofágico afeta cerca de 15 milhões de norte-americanos, sendo que na maioria das vezes o problema é confundido com doenças respiratórias: "São inúmeros os casos de problemas respiratórios, dores no peito do tipo anginoso, inflamações da porção posterior das cordas vocais e muitos outros sintomas, cujo foco de atenção para diagnóstico deveria ser o esôfago. Estudos realizados na Filadélfia, publicado no American Journal of Gastroenterology demonstrou que 75% das pessoas com problemas respiratórios, nas quais o refluxo era uma suspeita, de fato eram portadoras de esofagites DRGE (distúrbio de refluxo gastro-esofágico)".

Dispepsia

Outro problema estomacal destacado pelo gastroenterologista Márcio Matheus Tolentino é a dispepsia, uma disfunção do funcionamento digestivo, que gera sensação de gases, arroto, desconforto durante as refeições, má digestão, mal-estar, dor no estômago. "Você submete o paciente a vários exames e não dá nada. É uma dispepsia não ulcerosa, uma falta de relaxamento do estômago quando recebe o alimento." Segundo ele, na maioria das vezes esta disfunção está associada aos aspectos emocionais, como estresse e ansiedade.

Sintomas

Os especialistas explicam que os sintomas de qualquer problema digestivo são muito parecidos. Conforme a gastroenterologista

Ângela Aparecida Figueiredo, esôfago, estômago e duodeno não podem ser vistos como unidades separadas no trato de patologias, porque eles formam um conjunto digestivo. Qualquer problema em qualquer ponto deles vai se refletir na chamada queimação, no desconforto, em gases, sensação de peso no estômago, má digestão.

Se esses sintomas aparecem esporadicamente e desaparecem sozinhos, em poucos dias, é sinal de que a inflamação era aguda, ou seja, passageira. Mas se o mal-estar é freqüente e persiste por semanas ou meses, é indispensável que se faça uma avaliação médica e um tratamento, impedindo o agravamento do problema.

Câncer é assintomático

Os médicos observam que uma pequena porcentagem das úlceras evolui para câncer. Segundo eles, o risco é maior para úlceras localizadas no estômago (as de duodeno tendem a ter uma cicatrização fácil e em 99% das vezes são benignas). No entanto, o gastroenterologista Ricardo Lia Mondelli chama atenção para o fato de que os tumores malignos não geram dor e, portanto, podem passar despercebidos na fase inicial. "O câncer de estômago vai apresentar três sintomas: uma redução de peso importante, com perda de vários quilos em pouco tempo, inapetência (falta de apetite) e anemia. Ele pode ainda ter dificuldade para engolir os alimentos ou sentir que comeu um boi, mesmo tendo comido muito pouco."

Mondelli lembra que qualquer câncer pode ser eliminado quando descoberto logo no início. Ele ressalta que havendo qualquer suspeita, o paciente deve ser submetido a exames complementares, como a endoscopia e a biópsia. "Porque se o médico se restringir ao exame clínico, quando ele conseguir apalpar um tumor no estômago, é porque o câncer já está grande demais e não tem mais solução."