Capoeira angola: na raiz da cultura negra
Capoeira angola: na raiz da cultura negra
Texto: Fabiano Alcantara
Grupo de capoeira Angoleiros do Sertão faz apresentação hoje, às 10h30, na praça Rui Barbosa; dois mestres do interior da Bahia estão em Bauru para difundir a prática
"Eu sou filho de Santo Amaro", diz o mestre de capoeira angola Felipe Santiago, 72 anos, quando alguém pergunta onde ele nasceu. Ele é de Santo Amaro da Purificação, interior da Bahia. A cidade, pouca gente sabe, além de terra de Dona Canô, Caetano Veloso e Maria Bethânia é um pólo de capoeira angola.
De Feira de Santana, outra cidade do interior da Bahia - onde a angola também é forte, vem outro mestre, Cláudio Costa, 33 anos. Desde o começo da semana, os dois estão em Bauru para divulgar a capoeira angola.
Com origem perdida no tempo, a angola foi a primeira manifestação da dança-ritual chamada capoeira. Por este motivo é considerada por alguns a capoeira mais próxima da manifestação popular criada pelos escravos.
É nos anos 30, com mestre Bimba, que a capoeira se divide com a criação da regional, hoje mais difundida e conhecida. Diferenças estilísticas
à parte, enquanto a capoeira regional aceita ser vista também como esporte e atividade de defesa pessoal (leia texto sobre o I Encontro Regional de Capoeira de Bauru), a angola não. Para os seus mestres e praticantes, a angola é cultura.
Leia a seguir uma entrevista com os mestres de angola Felipe Santiago e Cláudio Costa.
Jornal da Cidade - Como vocês vêem o interesse da capoeira angola por universitários?
Felipe Santiago - A capoeira sempre foi do povo. Começou como uma dança-ritual e virou a capoeira que hoje em dia está espalhada e afamada no mundo todo. A angola foi a primeira capoeira que existiu, a primeira eu não digo, é (enfatiza) a capoeira. Agora, como mestre Bimba criou a regional, ficou a regional e a angola.
Cláudio Costa - A capoeira angola passou muitos anos sendo oprimida por este sistema que a gente vive aí. Na verdade, com a violência se espalhando cada vez mais. Uma atividade como a capoeira angola, na maioria das vezes, não é tão significante.
As pessoas buscam aprender uma atividade que tenha uma força maior de defesa pessoal. Enquanto que na capoeira angola nós buscamos a felicidade, a liberdade, a forma de poder estar bem com a vida, com as pessoas. Nós vemos a capoeira angola como forma de conscientização, de informação cultural, de educação.
A capoeira angola é uma das maiores resistências da cultura do negro africano no Brasil. A mais pura.
Pergunta - Qual é a diferença entre a capoeira angola e a regional?
Santiago - Tem um pouco de diferença porque a regional se joga em pé, golpe solto e a angola é jogo no chão, golpe controlado. A angola é um jogo mais educado.
Pergunta - Há quanto tempo o senhor faz capoeira?
Santiago - Tem 53 anos. A capoeira sempre viveu dentro do meu coração.
Pergunta - De onde vem a capoeira?
Santiago - A história diz que foram os escravos que apareceram com a capoeira e quando eles foram libertados, correram para Bahia, os mais velhos contavam, e correram para o Interior da Bahia porque era onde tinha muito engenho, usina, muita cana, então, eles foram trabalhar e continuaram fazendo capoeira.
Costa - Ela surgiu do inigolo, que era um tipo de manifestação praticada nos bantos de angola. A palavra inigolo traduzida do iorubá para o português significa dança de guerra, para você ver o quanto é semelhante. E chegando aqui no Brasil, por necessidade de liberdade, ela foi se transformando em defesa. E foi sofrendo influências, também, de outras manifestação e foi enriquecendo.
A angola surgiu como defesa pessoal, contra um sistema, os senhores de engenhos, os capatazes, mas hoje não há como você lutar desta forma. Hoje nós vemos como uma luta de conscientização. De dizer não
à violência. A capoeira angola é em prol da formação cultural.
JC - O senhor tem 72 anos, a capoeira te ajuda a viver melhor?
Santiago - No dinheiro não me ajuda, mas em outro ponto ajuda. Na idade que estou ainda vivo me distraindo. Tanto que eu vim lá do interior da Bahia para cá fazer capoeira no meio desta juventude. Para mim é muito legal, que todo lugar que eu chego é uma juventude boa, sadia, que me trata com grande respeito, carinho, consideração. Alegro-me no meio deles todos, eu me sinto feliz, me conforta muito. Isso até fortalece o meu corpo. É o que digo sempre para eles, quando eu estou no meio deles, eu esqueço até que sou velho.
JC - O negro foi oprimido desde que chegou ao Brasil, veio como escravo, e conseguiu construir uma cultura riquíssima, que hoje é muito valorizada e assimilada. Como você vê este contraste, socialmente descriminado e culturalmente valorizado?
Costa - Veja só, a capoeira surgiu com os negros e, por ela ser um produto do povo negro, não era valorizada, reconhecida, com seus valores. Mas o negro continuou insistindo e lutando pelos direitos e reconhecimento da capoeira angola como atividade de valor. E hoje a sociedade reconhece, mas também não reconhece como um produto do povo negro, ela reconhece a capoeira como um esporte, esporte brasileiro, luta nacional, estas coisas, mas jamais eles são capazes de dizer que a capoeira angola
é uma resistência do povo negro.
O negro está aí na luta contra a discriminação social, contra o racismo, contra as opressões. A gente consegue com a capoeira angola ir até estes meios e mostrar os nossos valores, de cultura, como pessoa, como gente, como negro. A discriminação existe até hoje e a gente vai continuar lutando.
Serviço
O grupo de capoeira Angoleiros do Sertão se apresenta, hoje, às 10h30 na praça Rui Barbosa. Quem quiser participar das rodas de angola, a sede do grupo em Bauru fica na praça Dom Pedro II, 1-49.
Outro lado
I Encontro Regional defende esportivização da atividade
Enquanto os Angoleiros do Sertão se posicionam contra a associação da capoeira com o esporte, a Liga Regional Bauruense de Capoeira, realiza, a partir de amanhã, um encontro que defende a esportivização da atividade.
"A capoeira não é dos capoeristas. É patrimônio cultural nacional, pertence aos brasileiros. A sua esportivização (no sentido de desporto) é um processo irreversível e sua institucionalização uma consequência natural desta", afirma o texto de apresentação do I Encontro Regional de Capoeira de Bauru.
O evento começa amanhã, às 9 horas, com a palestra "Capoeira - Esportivização e Sociedade", na Unesp. À tarde, a partir das 15 horas, no Clube do Sesi, acontecem apresentações dos seguintes grupos de capoeira: Academia de Capoeira Ilha do Bonfim, Grupo Cultural Esportivo Amukengue, Academia de Capoeira Meninos da Bahia, Academia de Capoeira Raízes da Memória, Grupo Afro-Brasileiro, Academia Volta ao Mundo, Grupo de Capoeira Baianinho, Academia de Capoeira Filhos de Gandi, Academia de Capoeira Acauã e Grupo de Capoeira Angoleiros do Sertão. (FA)
Serviço
I Encontro Regional de Capoeira de Bauru, amanhã, na Unesp, das 9 às 12 horas e, no Sesi, das 15 às 18 horas. Entrada: um quilo de alimento não-perecível. Realização: Liga Regional de Capoeira, Sapab (Sociedade de Apoio à Pessoa com Aids de Bauru), Sesi e Unesp. Informações: 230-6210/ 234-7171. O Clube do Sesi fica na rua Rubens Arruda, 8-50.