Arisitides descobriu uma solução contra violência
Aristides descobriu uma solução contra violência
B. Requena é editor de Internacional do JC
Estou descansando, sentadinho em meu banco, quando vejo que lá vem outra vez o Aristides com "aquele" jornal ensopado de sangue nas mãos. "Veja, que absurdo - diz. Assaltantes cortaram só uma das mãos do assaltado, numa das praças, em São Paulo. E levaram a mão embora para que o sujeito não pudesse reimplantá-la." Já sei, já sei. Aristides. Você ainda não sabe, mas o absurdo é maior. Não é bem assim, foi o próprio sujeito quem conspirou contra a mão e acabou por cortá-la, simulando assalto. Para receber um seguro... Nostradamus tinha razão: o mundo está para acabar.
Logo quero explicações do porquê "só uma das mãos" ao que ele me chama a atenção:
"Você não está lembrado da minha tese, aquela de que falei na vez passada, quando nos encontramos? Que enquanto a violência estiver nesse equilíbrio, nesse cozimento de galo, nesse nível insuportável mas que todos acabamos por suportar, não haverá solução?" Sim, agora estou lembrado...
"Pois é, agora ou vai ou racha. Se levam seqüestrada a filha de um deputado eu fico aqui lamentando: bem que poderia ser a filha de um senador, de um ministro! Desgraça pouca
é bobagem!"
Mas que absurdo, Aristides! "Parece absurdo, mas não
é. Para que possamos solucionar isto, no Brasil, as desgraças têm que ocorrer com figurões. Bagrinho não tem poder, não sensibiliza ninguém!" Na última página do jornal que tem à mão ainda consigo ler a manchete. "Assaltante que matou o estudante queria dinheiro para o churrasco da festa de 18 anos". Cometeu o crime horas antes de passar à maioridade. Portanto...
Essa situação é toda provocada pelo problema social, o desemprego - tento argüir. "É? - diz irritado meu interlocutor. E o pessoal do crime organizado, os grandes figurões? Estes também não têm o que comer? Está lembrado do Hildebrando Pascoal e os 40 que votaram a seu favor? O crime está em todos os níveis e camadas sociais do Brasil. Está nos Três Poderes. Pena de morte à chinesa, já."
Mas Aristides, você acha, mesmo? "Acho, não,
é uma necessidade para ontem. Quem ama a vida, no Brasil, tem que pedir a pena de morte! As pessoas inocentes estão sendo executadas impiedosamente. Pobres e ricos vítimas; pobres e ricos os autores, os criminosos. Então, pena de morte, já!". Há violência e mortes com a pena capital ou sem ela - tento explicar.
"Não, agora não é mais questão filosófica ou religiosa. O problema é a matemática. Das duas situações, a que provocar menor mortandade será a ideal. Quem ama a vida quer a pena de morte. Precisamos testar" - insiste. Emendando: "Você acha que os norte-americanos são mais burros ou mais inteligentes do que nós? E eles retiraram a pena de morte, se arrependeram e voltaram a implantá-la, em 1976."
Levanto-me e digo: Você ainda não me convenceu, mas tem argumentos para eu pensar direito. Antes que eu saia, ele levanta a blusa e mostra camiseta puída em que aparece foto do ex-deputado Amaral Neto. "Precisamos de homens de coragem como este", brada, enquanto já vou dobrando a esquina.
(*) B. Requena é editor de Internacional do JC