08 de julho de 2026
Geral

Cordas vocais

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 5 min

Qualidade vocal requer bons hábitos

Qualidade vocal requer bons hábitos

Texto: Sabrina Magalhães

Controlar o volume da voz, manter uma boa hidratação e não abusar de alimentos pesados garantem a saúde do aparelho fonador

Segundo os especialistas, o principal inimigo da qualidade vocal

é o mau uso que as pessoas fazem da própria voz. Hábitos errados, como falar alto demais e por tempo muito prolongado podem causar desgaste das estruturas envolvidas no processo da fala, resultando em desconforto e irregularidade do som, um problema muito comum entre professores, cantores, políticos, advogados e outros oradores que usam a voz sem o devido preparo. Esse desgaste pode resultar nos chamados "calos" ou nódulos vocais.

"É como o sapato: ninguém usa um sapato menor do que o pé, porque isso causa desconforto, alterações, calos. A mesma coisa a laringe que recebe muita tensão", comenta a otorrinolaringologista Silvia Megale. Durante a fala, as duas pregas vocais se tocam em toda a sua extensão, dando origem aos sons (leia no boxe).

Quando há muita tensão nesta musculatura, o organismo faz desenvolver um espessamento destas pregas (como calos nos pés, que surgem pelo atrito da pele com o couro do sapato). Conforme estes nódulos aumentam, quando as pregas se aproximam só as elevações se tocam, formando fendas acima e abaixo deles. Isso resulta em ruído na voz ou rouquidão.

Respiração e digestão

Os hábitos alimentares e respiratórios também têm influência direta no aparelho fonador, já que este está localizado entre os sistemas de respiração e digestão. Neste sentido, o uso de cigarro e drogas inaláveis, bem como a permanência em ambientes com qualquer outro produto tóxico, é extremamente prejudicial à qualidade da voz. Quando inalados, esses elementos irritam e lesam as mucosas de todo o aparelho respiratório, passando pela laringe e suas pregas vocais.

Da mesma forma acontece com a ingestão excessiva de bebidas alcoólicas e alimentos muito condimentados: além de suas propriedades irritantes, estes produtos costumam causar o chamado refluxo gastro-esofágico (azia), que é a volta do ácido estomacal através do esôfago. A freqüência deste refluxo "queima" as mucosas na região do esôfago, faringe e entrada da laringe, dando origem também a úlceras. O uso destas substâncias por tempo prolongado tem grandes chances de originar tumores malignos.

Mas os especialistas garantem: qualquer pessoa pode usar a voz durante um dia inteiro sem qualquer problema, desde que ela saiba como usar essa voz, ou seja, sem sobrecarregar as estruturas envolvidas. Para isso, é preciso adotar hábitos saudáveis de vida e aprender algumas técnicas de aquecimento, colocação, projeção e desaquecimento vocal.

Hidratação

"A primeira e fundamental dica é a hidratação:

é preciso ingerir pelo menos dois litros de água por dia, de forma que as mucosas do aparelho fonador estejam sempre bem lubrificadas e não se desgastem pelo atrito das pregas ressecadas", orienta Alcione Brasoletto, professora dos cursos de Fonoaudiologia da Universidade do Sagrado Coração

(USC) e da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB/USP).

Ela lembra que a água ingerida não vai passar diretamente pela laringe, pois esta é fechada pela epiglote durante a deglutição. No entanto, a ingestão de líquidos vai garantir a hidratação de várias estruturas do aparelho fonador e uma hidratação sistêmica, ou seja, de todas as células do corpo humano, inclusive das mucosas das pregas vocais. "Agora, uma maneira simples e eficaz de garantir hidratação da laringe durante uma fala prolongada é inalar um lenço úmido a intervalos regulares, de forma que gotículas de água sejam levadas com o ar para a laringe."

Aprimoramento

Depois de garantir lubrificação para as mucosas, outra dica é aprender alguns exercícios de aprimoramento vocal. O primeiro deles é o aquecimento: quem usa a voz constantemente, por tempo prolongado e em volume elevado precisa fazer alguns exercícios específicos visando à preparação dos músculos para o esforço que vem a seguir.

Depois, segundo Brasoletto, é preciso aprender a "colocar" bem esta voz, isto é, distribuir o som equilibradamente ao longo de todas as estruturas do aparelho fonador, fazendo com que ela saia bem diluída. Algumas pessoas têm grande dificuldade em fazer essa colocação; é quando se diz que a voz está 'presa na garganta' ou 'saindo pelo nariz'.

"Aí entra o conceito de ressonância. A boca, a faringe e a cavidade nasal funcionam como caixas de ressonância

- elas amplificam o som produzido pela vibração das pregas vocais." E a partir destas estruturas, a voz é projetada, sendo que quanto melhor é a articulação entre língua, dentes e lábios, mais clara é a projeção.

Por fim, cessado o discurso, o indivíduo precisa fazer exercícios de desaquecimento, como quando durante uma atividade física: "Senão a professora que falava alto e rápido na sala de aula vai continuar falando assim em casa, com a família. E não precisa. Ela deve fazer um desaquecimento para voltar a usar a voz natural, relaxando a musculatura, descansando as estruturas e economizando energia".

Porém, a fonoaudióloga ressalta que todos estes exercícios precisam ser feitos sob orientação de um profissional, porque ao colocar a tensão num ponto errado, ao invés de aprimorar, o indivíduo pode prejudicar sua voz. "Meu conselho é que todo profissional que usa a voz de forma constante deve procurar orientação pelo menos uma vez, para aprender a fazer os exercícios." E ela lembra que advogados, radialistas e outros oradores dependem do bom uso da projeção e até da entonação para convencer seus interlocutores.

A produção da voz

O som da voz é produzido quando o ar passa pela laringe e vibra as "cordas" vocais - duas pregas que existem na parede deste tubo, localizado à frente do esôfago. A vibração sonora passa pela epiglote (2) sobre em direção à faringe e ecoa no céu da boca, que funciona como uma verdadeira caixa acústica. Conforme a posição da língua, dos dentes e lábios são formados os fonemas (sons correspondentes

às diferentes letras). A quantidade de ar expirado (pela boca ou nariz) e a maior ou menor abertura da boca vão determinar a clareza e o volume da fala.

Quando se come ou bebe algo, o palato mole (1) se eleva, interrompendo a comunicação entre a boca e o nariz, ao mesmo tempo em que a epiglote (2) se abaixa, fechando a entrada da laringe, permitindo que o alimento vá diretamente para o esôfago, sem entrar nos "canais proibidos". É por causa dessas duas estruturas que não se consegue respirar durante a deglutição.