09 de julho de 2026
Geral

Condição sócio-econômica

Márcia Buzalaf
| Tempo de leitura: 9 min

Famílias de Bauru sobrevivem com pouco

Famílias de Bauru sobrevivem com pouco

Texto: Márcia Buzalaf

O que você consegue comprar com R$ 30,00? Pouco, não? Com esta quantia e uma cesta básica vivem seis pessoas de um bairro de Bauru, um casal e os quatro filhos pequenos. A dura vida de quem sente as oscilações da economia no prato de comida é a pior face da realidade. Conheça o caso de quatro famílias da cidade que vivem com pouco

- muito pouco - e que têm que se virar de alguma forma. Alguns contam com a ajuda dos vizinhos e com trabalhos caseiros. Quem veio de outras cidades, se arrependeu. Para as famílias que lutam pela sobrevivência diária, o alerta é claro: a economia nunca esteve pior.

Os bairros de Bauru nos dias de semana retratam o problema econômico de uma grande maioria da população brasileira. Além das muitas crianças que andam soltas pelas ruas e as casas cada vez mais degradadas, é comum ver homens de meia idade nas ruas, no meio da tarde durante os dias de semana. É esta a cara do desemprego.

Estas famílias tiveram que aprender a viver com pouco, ou pelo menos conseguir sobreviver. Todas elas falam sobre os momentos em que já passaram fome, a falta do emprego, os caminhos que encontram para ganhar um trocado qualquer, os erros que cometeram com a estrutura emocional abalada, as ajudas que recebem e a necessidade de alimentar pelo menos os filhos, que dão o tom de inocência para o mundo cruel em que vivem.

Os que vivem com pouco, em precárias condições de alimentação, também sentem com mais força e mais cedo os problemas de saúde. Entre as famílias consultadas pela reportagem, a maioria tinha filhos com problemas de respiração, circulação ou dermatológicos.

Estas famílias aprendem a dar valor ao mínimo, como o relacionamento e a amizade dos vizinhos. "Sempre que preciso de alguma coisa, o meu vizinho me ajuda", esclarece um dos entrevistados.

Este talvez seja o maior diferencial entre o tipo de vida de um assalariado de classe baixa ou média e de alguém que tem que viver com muito pouco. O último caso conta com um assistencialismo institucionalizado, mas que acaba funcionando mais do que qualquer programa oficial do Estado.

Quatro exemplos de três bairros de Bauru - o Jardim Nicéia, o Núcleo Fortunato Rocha Lima e a Ferradura Mirim - mostram como algumas famílias sobrevivem com menos de um salário mínimo (ou pouco mais do que isso). Duas destas famílias vieram de outras cidades para tentar a vida em Bauru. Os recém-chegados estão esperançosos e só vieram para cá porque tinham uma casa para morar sem ter que pagar aluguel. Já a família que está em Bauru há algum tempo sofre com a decepção e com a falta de oportunidade da mesma cidade que o atraiu.

R$ 30,00 e uma cesta básica

V. M. H. M, de 30 anos, só espera a família chegar do Mato Grosso para ir embora da casa em que mora no Jardim Nicéia. Com quatro filhos - o mais velho com oito anos e o mais novo com apenas um ano de idade - esta jovem mãe sobrevive com R$ 30,00 do aluguel de um terreno, no próprio bairro, e uma cesta básica doada pelo programa "Adote uma família". A "renda" é suficiente apenas para cobrir os gastos com a conta de água e com o gás. "Já cortaram até minha luz", conta, triste.

O marido, desempregado há um ano, se entregou às bebidas e não arruma mais emprego. Depois que sua mãe morreu, segundo V., ele foi demitido e não arrumou mais emprego nem trabalho algum. Alguns vizinhos até o chamam para fazer alguns bicos, mas ele já não aceita mais.

Com um salário mínimo e uma cesta básica que o marido ganhava enquanto trabalhava, a família não tinha problemas financeiros e vivia normalmente no bairro há dez anos. Agora, com o desemprego do marido, a sobrevivência da mãe com os quatro filhos depende, também, da ajuda dos vizinhos. Segundo afirma V., todos colaboram com ela doando alimentos e ajudando a cuidar das crianças.

V. não arruma emprego porque ainda está amamentando o filho mais novo, que tem problemas respiratórios. As crianças mais velhas freqüentam a escola no jardim Europa, bairro que também conta com o posto de saúde usado pela família.

Em sua casa de madeira, os seis - mulher, marido e as quatro crianças

- dormem apertados, dividindo duas camas (uma de casal e outra de solteiro), a televisão e o desgosto. "Não tenho mais sossego, minha vida virou um inferno", lamenta.

Preconceito prejudica Ferradura Mirim

Desempregado há três meses também, o porteiro G.S.O, de 32 anos, não consegue arrumar emprego. Ele enfrenta um dos piores preconceitos que tem, e que faz com que ele não consiga sair desta situação econômica: é dispensado logo que fala que mora no Ferradura Mirim. "Eles acham que a gente é tudo bandido", conta.

O jeito é viver com o que ele e a esposa ganham com a venda de salgadinhos e pães durante os finais de semana. "Nossa semana começa na quinta e já termina no sábado", explica a esposa I.J.D.O., de 33 anos.

Por final de semana, eles vendem aproximadamente R$ 50,00, o que pode levar a uma renda mensal de R$ 200,00, dependendo do mês e do pagamento dos clientes. Sua lista engloba aproximadamente dez compradores fixos. J. pede R$ 16,00 por cento do salgado, em média.

Os gastos da família estão limitados à conta de luz, de água, de energia, alimentação e telefone, que usa para agendar as encomendas. Para o casal, seria muito melhor se eles tivessem um "carro qualquer" para poder fazer as entregas.

O outro objetivo do casal é ampliar a cozinha para poder atender melhor a clientela e, assim, os dois poderem viver da venda de salgados e pães que fazem. "Quando sobra qualquer dinheiro, a gente compra material para continua a construir", explica a esposa.

G. largou da primeira esposa e criou sozinho os quatro filhos do casamento. Um dos filhos, entretanto, já não mora mais com o pai. "Ele foi tirado da gente, e agora a gente ficou fraco de espírito", lamenta.

G. conta que uma família próxima armou uma arapuca para tirar o filho dele, que agora mora com outra família e já nem mais reconhece os irmãos. Mesmo de posse da guarda do filho, o pai conta a tragédia: depois de deixarem ele nervoso por não saber do paradeiro do filho, ele acabou bebendo um pouco a mais, tomou coragem e foi buscar o filho na casa dos conhecidos. Chegando lá, a polícia foi acionada, algemando o pai e o jogando em um mato, na Quinta da Bela Olinda. "Eu perdi tudo nesse dia", diz.

Agora, por maior que seja a necessidade financeira da família, mais do que o emprego G. pede pelo filho. "Se conseguisse o menino, teria força de espírito para tudo", explica.

Esperança na horta caseira

A horta caseira pode ser a saída encontrada por M.J.C., de 34 anos, para a crise do desemprego que sua família vive. O marido está desempregado e, por isso, eles vieram de Duartina para Bauru, com três filhos, tentar a vida. O motivo: uma amiga emprestou a casa no Núcleo Fortunato Rocha Lima para a família tomar conta e morar. "É melhor morar de graça, pelo menos a gente não tem a despesa do aluguel. A gente veio pela casa", explica.

Apesar do desemprego, a família é esperançosa. O filho mais velho, de 17 anos, já começou a procurar emprego e o próximo passo é colocar as crianças

- entre elas, um sobrinho de dez anos de idade criado por eles desde pequeno - na escola.

O marido, segundo M., topa qualquer trabalho - de serviços gerais a motorista ou pedreiro. O problema é que eles ainda não conhecem ninguém na cidade, o que dificulta a procura de emprego ou de qualquer serviço extra que possa aparecer.

A única renda que a família conta atualmente é os R$ 195,00 recebidos como seguro-desemprego do marido. "É melhor ele nem arrumar um emprego registrado para não perder o seguro", defende a esposa.

Com um problema na coluna de tanto carpir roça desde os nove anos, M. não consegue mais trabalhar. Com a ajuda dos filhos e do marido, ela está ansiosa para começar sua horta caseira. Seu objetivo é plantar para comer e para vender aos vizinhos. "A gente chegou esta semana e tem que viver com o que trouxe de Duartina", explica.

Saudosa, M. lembra da vida que levava no Norte do País, onde nasceu. Segundo ela, lá pelo menos as pessoas tinham terra para plantar e conseguiam, assim, comer, sobreviver. "Plantando feijão, mandioca e milho, a gente fazia quase tudo", conta.

"Aqui em baixo", ela afirma, a pessoa tem que ter dinheiro para fazer qualquer coisa. Na contramão da chamada evolução, M. quer voltar às origens e plantar para sobreviver - é a volta para a agricultura de subsistência.

Do Paraná para Bauru

Quando o sogro o chamou para vir para Bauru há um ano, R. S. de 23 anos, trabalhava em uma empresa em Maringá, Paraná. "Me disseram que em Bauru tinha muito emprego, por isso a gente veio", explica.

Frustrado e desempregado há três meses, R. sobrevive como pode, fazendo salgadinhos para vender no bairro em que mora, o Núcleo Fortunato Rocha Lima. Procurou emprego em várias empresas, para várias funções, mas não conseguiu nada.

O esforço tem um bom motivo: manter alimentada a esposa de apenas 18 anos, a filha de três anos e o sogro aposentado, de 49 anos. O sonho deles é construir mais dois cômodos na casa para acomodar melhor a família que vive apertada. Além dos salgadinhos fritos que vende por R$ 0,50, o jovem também revende pão por R$ 1,20, sendo que compra por R$ 1,00 do fabricante. R. estima que vende R$ 6,00 em alguns dias bons. "Mas tem dia que a gente não vende é nada", lamenta.

O salário do sogro ajuda a comprar o leite para a criança e os produtos para fazer os salgadinhos. R. já tentou montar um barzinho na frente de casa, mas os consumidores inadimplentes fizeram com que ele desistisse do negócio. Segundo o jovem, muitos compravam e deixavam para o fim do mês para pagar.

"Até com os salgadinhos tem gente que não paga", afirma.

R. afirma que tem como princípio não dar calote nos outros, mas, pela dificuldade que vem enfrentando, comprou pela primeira vez um botijão de gás fiado na semana passado.

Ajuda, a família também não recebe. O jovem prefere entrar na cozinha e fazer seus salgadinhos para tentar manter as vendas e a simples sobrevivência. "A gente tem que viver com o que tem. Se não der certo por aqui por mais um tempo, eu vou embora", finaliza.