08 de julho de 2026
Geral

Chuva de granizo

Tânia Fonseca
| Tempo de leitura: 5 min

Granizo afeta café em um milhão de hectares

Granizo afeta café em um milhão de ha

Texto: Tânia Fonseca

Além do café, outras plantações foram total ou parcialmente destruídas. Sericicultura fica comprometida

Fernão - Os prejuízos provocados pela chuva de pedras no domingo à tarde, principalmente nos municípios de Fernão, Gália, Garça e o distrito de Tibiriçá ainda não foram totalmente contabilizados pelos produtores rurais e lideranças ligadas à agricultura. Sabe-se, porém, que em várias lavouras, a perda foi total e o prejuízo muito grande. Hoje, o presidente do Sindicato Rural de Bauru e vice-presidente do Federação da Agricultura do Estado de São Paulo, Maurício Lima Verde Guimarães, vai a São Paulo tentar intermediar a situação dos produtores junto à direção do Banespa. "Porque o Banespa é grande finaciador dessas regiões. Ele tem 95% dos contratos e nós temos vencimentos do Banespa, dia 30 de outubro e dia 31 de dezembro". São aproximadamente, segundo Lima Verde, uns 650 contratos de produtores junto ao Banco e que variam entre R$ 10 e R$ 40 mil cada um.

As plantações mais afetadas foram a de café, abacaxi e a fruticultura em geral, como o maracujá, manga, pêssego, banana, macadâmia, amexa e outras. "Todas essas plantas foram extremamente sacrificadas por causa das pedras".

Um aspecto ainda mais preocupante do que o prejuízo detectado de imediato, segundo Lima Verde, são as consequências que só deverão ser percebidas nos próximos dias e até meses. "É muito comum a pessoa,

às vezes, sentir que na primeira hora não aconteceu nada, mas depois, as folhas e galhos ficam necrosados. É a ferida da pedra", diz.

O café, segundo estimativas do Sindicato Rural de Bauru, foi afetado em um milhão de hectares, numa região que compreende 15 municípios. Na cafeicultura, esses números significam segundo Lima Verde, algo em torno de 60% afetados com colheita zero, considerando a região de abrangência do Sindicato.

O grazino pegou os cafezais em plena época de florada, o que compromete a colheita que teria início em maio do ano que vem. As plantações que não foram completamente arrazadas com as pedras, também sofrerão uma vez que terão a produção comprometida, de acordo com Lima Verde.

Nas plantações de abacaxi, que estão em fase de frutificação, os danos também foram grandes.

"Um prejuízo variando entre 50 e 100% que atingiu 90% das plantações da região", contabiliza Lima Verde.

A laranja que está em fase de colheita e também florindo é outra cultura que sensivelmente afetada. "As pedras prejudicam demais a árvore", diz Lima Verde lembrando que no caso de plantações de banana, mamão e abacate atingidos pelas pedras, a destruição é praticamento total.

Pior dos últimos tempos

Na agricultura desde 1970, Lima Verde disse ontem que essa foi a pior chuva de pedra que já viu. Essa posição também é compartilhada por pessoas mais velhas que viram a chuva. No município de Fernão, um dos mais afetados onde o grazino caiu com maior intensidade, a opinião era unânime. Pedras com peso aproximado de quase 500 gramas. A destruição não foi somente na agricultura e afetou também animais e pássaros que se encontravam em locais desprotegidos no momento da precipitação. Além de telhados, o vento e as pedras destruíram também antenas e equipamentos mais frágeis que ficam ao relento.

Propostas

A audiência hoje com a direção do Banespa em São Paulo, segundo Lima Verde, tem objetivos claros, já que segundo explica, em casos de fenômenos como esse, existe dentro do Banco Central prerrogativas para que os bancos criem novas condições para que o produtor não, de uma hora para outra, sem ter o que fazer. "Vou levar o quadro para lá. Estaremos pedindo para que o Banespa faça um levantamento, segundo avaliador dele, o mais urgente possível e que isso não impeça novos financiamentos para o ano que vem". Sabe-se que hoje o produtor rural já enfrenta várias dificuldades no campo e se não contar com apoio, principalmente nesta época de desespero, vai se sentir desestimulado a continuar suas atividades. "Então, essa é uma das funções do banco e do crédito rural. Porque se o camarada não é safado, não desviou, ele trabalhou e tinha produção e veio uma coisa que é de Deus, então como é que ele vai fazer? Por isso que existe o governo para se tornar sensível a isso".

Fernão pode decretar estado de calamidade

O prefeito de Fernão, Adélcio Martins (PSDB) pode decretar a qualquer momento estado de calamidade pública, que é o reconhecimento legal pelo poder público da situação anormal provocada por desastres, causando sérios danos à comunidade afetada, que pode realizar compras de emergência sem licitação).

No recem-emancipado município, com 1,5 mil habitantes, 65% dos quais na zona rural, praticamente toda safra agrícola do próximo ano foi comprometida. Segundo o prefeito, algumas pessoas ficaram levemente feridas e três famílias foram alojadas em casas de parentes e amigos. Muitos imóveis foram destelhados. Durante todo o dia de ontem, os prejuízos eram contabilizados.

Sem aula

As pedras que caíram quebraram também os vidros das janelas da única escola da cidade, por isso as aulas foram suspensas ontem, já que o prédio foi parcialmente danificado e além de oferecer perigo aos alunos, também necessitava de uma faxina para recolher vidros quebrados e folhas que caíram.

Sericicultura

Outro setor sensivelmente prejudicado no município foi a cultura do bicho-da-seda. Além de destruir as plantações de amoreira, único alimento da lagarta, as pedras também danificaram os barracões onde os bichos são mantidos durante o ciclo.

Por isso, o setor que já atravessa uma das piores crises tem mais esse problema pela frente e deverá ficar prejudicado nos próximos meses já que foi diretamente atingido.