Entrando no mundo das moscas
Entrando no mundo das moscas
Texto: Roberta Mathias
Todos podem mergulhar na atmosfera mágica em que está envolvida a pesca de fly. Porém, só mesmo a partir do domínio da técnica é que vai nascer a paixão. O curso com Rubinho Almeida Prado acende uma chama nova no pescador que inicia na modalidade, incentivando sua busca pela perfeição no movimento
Iniciar em uma nova modalidade de pesca exige, pelo menos, um pouquinho de vontade. No caso do fly, é preciso também deixar de lado preconceitos e vícios de arremesso, uma pitada de determinação, disciplina (pelo menos até o domínio da técnica) e, principalmente, um bom professor. É importante ter uma boa iniciação no estilo, pois é comum o pescador comprar o equipamento, usar de forma equivocada e desistir da pesca em pouco tempo.
Porém, quem tem a oportunidade de conhecer os princípios do fly, dificilmente não adere à modalidade. É claro que o pescador não vai abandonar suas carretilhas e molinetes e afirmar que o fly é a maneira mais perfeita de se pescar. Nada disso. É apenas um estilo, ainda pouco difundido no Brasil, que proporciona muito prazer ao pescador devido à beleza e precisão de seus arremessos, excelente performance na captura de peixes esportivos e a possibilidade de boas fisgadas em rios, lagos e mares. É só descobrir a isca certa.
Com o objetivo de iniciar na modalidade, um grupo de pescadores participou, no final de setembro, de um curso básico de fly, organizado pela Jaw Fishing Time, que foi ministrado por Rubinho Almeida Prado e sua equipe da Pescaventura, em Jaú. A região estava bem representada com pescadores das cidades de Barra Bonita, Bauru, Bocaina, Brotas, Dois Córregos, Jaú, Lençóis Paulista e São Carlos.
A maioria dos interessados nunca havia utilizado um equipamento de fly, o que facilita muito o aprendizado, pois evita-se os vícios de arremesso e aprende-se a poupar toda a energia possível. Rubinho mostrou-se um excelente professor. Utilizando-se de diferentes exemplos, ele e sua equipe passaram os ensinamentos básicos ao grupo que procurou absorver tudo o que o mestre tinha a oferecer, durante todo o dia. Até em bate-papos nos momentos de descanso, que são sempre necessários, pois o aluno faz vários movimentos que forçam a musculatura pouco acostumada.
Segundo Rubinho, o aproveitamento do curso em Jaú foi muito bom. "Sofremos um pouco com o vento, pois na fase inicial o pescador precisa sentir o peso da linha e com o vento isso tornou-se um pouco difícil, mas nada que impedisse o aprendizado." Rubinho explica que após o domínio das técnicas básicas, no estágio avançado, o vento pode ser um aliado do pescador na pesca de mosca. Mas para o iniciante ainda é um obstáculo.
A aula foi ministrada em uma chácara, às margens do rio Tietê, de Natanael Diz, proprietário da Jaw Fishing Time e organizador do evento, outro apaixonado por pescarias. Esta foi a segunda vez que Diz organiza o curso e no próximo ano deve estar preparando o avançado de fly e outras atividades com Rubinho. O lugar foi ideal. Com um amplo gramado, onde os alunos receberam todas as técnicas básicas do fly casting (arremesso de fly), a chácara também possibilitou que a turma aprendesse outro tipo de arremesso à beira da água. Na verdade, após um curso básico de fly, o pescador precisa treinar na grama 30 horas, sendo no máximo uma hora por dia, antes de ir para a pescaria (cada hora na grama equivale a 10 horas na água). É importante que tenha-se primeiro o domínio completo das técnicas.
Apesar do fly não dar "cabeleira" na carretilha, outros obstáculos estão no caminho do "flyzeiro". O gasto desnecessário de energia durante o arremesso é um "calo" nas mãos do pescador inexperiente, que poderá não ter êxito em seus movimentos. Mas se ele aprende bem o conceito da pescaria de mosca, aproveitará toda a energia de seu arremesso. E Rubinho enfatizou bastante a questão do desperdício da energia. "O arremesso de fly não exige força", dizia.
Para chegar a ministrar aulas de fly e outras técnicas que ele oferece, Rubinho foi aluno em diversos cursos no exterior, em 98. "Foi quando eu decidi que era o momento de montar a escola, um sonho antigo." A Pescaventura foi fundada em janeiro de 99 e desde então já formou mais de 300 pescadores na pesca de mosca. "Entre os pescadores, 20 são mulheres", acrescenta Rubinho. As mulheres estão aderindo
à pesca esportiva.
Ao definir a metodologia de seu curso, Rubinho fez várias adaptações para a pesca no Brasil. "É diferente pesca no Brasil onde há uma diversidade imensa de peixes e lugares do que pescar trutas na Argentina, por exemplo." O Brasil ainda não possui um estilo próprio de se pescar com moscas, mas ao passar os anos isso será inevitável.
Uma curiosidade observada no curso é a preocupação de Rubinho em utilizar palavras em português para definir as técnicas e equipamentos de pesca. Normalmente tudo o que se fala de pesca desde a isca até o arremesso é em inglês. "Valorizo as palavras em português, só não uso quando não há uma palavra específica para aquilo."
A equipe da Pescaventura deu toda assistência aos pescadores. Daniel Demichelis e Laércio acompanharam todos os momentos do curso. Luiz Cláudio Pacheco, outro importante membro da equipe, não esteve em Jaú nesta oportunidade, mas sempre está com o grupo em cursos pelo País.
Rubinho e a pesca no Brasil
Rubinho Almeida Prado é formado em Economia pelo Mackenzie e após trabalhar 13 anos no Citybank, começou a se interessar pela pesca esportiva. Em 1991, iniciou um programa sobre pesca na TV e após dois anos, começou também um trabalho em revista especializada. Ele é o precursor da pesca esportiva no Brasil e grande responsável pelo crescimento do setor.
Como economista, sempre viu a pesca como um caminho economicamente viável para o Brasil. "Nos Estados Unidos, onde os ambientes são restritos e o número de espécies
é reduzido, movimenta-se cerca de 38 bilhões somente na venda direta de produtos ligados à pesca. Indiretamente, o impacto na economia americana é algo em torno de 108 bilhões de dólares ao ano. O Brasil, com uma variedade muito maior de espécies, diferentes tipos de ambientes para a pesca (rios, lagos, praias e oceano), além de Pantanal, Amazônia... o setor movimenta perto de um milhão de dólares."
Nestes últimos dez anos, houve um crescimento importantíssimo no setor pesqueiro no País. "Antes não havia nenhuma feira de pesca significativa no Brasil, nem revista especializada, hoje são quatro grandes feiras somente na capital de São Paulo e são oito revistas especializadas, além de jornais e outras publicações específicas; o número de pesque e pague era pequeno, hoje são mais de três mil no País; além do crescimento na indústria nacional, que já produz muitos equipamentos de qualidade." Outro setor que teve uma mudança importante foi o turismo, que cresceu bastante na área de pesca. "O porto de Corumbá, por exemplo, tinha entre seis e dez barcos, enquanto que hoje há mais de 50 barcos no local", comenta Rubinho.
Para ele, o Brasil deu um grande passo nesta área com a criação, por meio da parceria entre a Embratur e o Ibama, do Programa Nacional de Desenvolvimento da Pesca Amadora
(PNDPA), em 96. "Além de ordenar a pesca esportiva no País, o PNDPA gera empregos, orienta e está desenvolvendo o setor, mostrando sua importância para as pessoas envolvidas com a pesca." Rubinho é consultor do Programa e já ministrou oficinas-mirins para 1400 crianças, de 8 a 15 anos, em Brasília e Cáceres, com o objetivo de passar noções de biologia, geografia, equipamentos de pesca, iscas artificiais, importância da pesca esportiva e outros assuntos relacionados à área. Também pelo PNDPA, ele ministrou um curso para guias de pesca, enfatizando a importância da pesca esportiva, as técnicas de soltura, ecologia, entre outros assuntos. Em dois anos, mais de 600 guias receberam o treinamento.
É importante saber que algumas coisas já estão sendo feitas para preservar as riquezas naturais brasileiras e valorizar a pesca esportiva no Brasil, um país que teria grandes condições de fazer do turismo sua principal fonte de renda, gerando empregos e valorizando o seu meio ambiente.
Os alunos
Ivan (Brotas), José Virgílio (Lençóis Paulista), Fausto, Luiz, Nelson e Maurício (Jaú), Gilberto (Bocaina), Ricardo (Barra Bonita), Marcos (São Carlos), Toninho (Dois Córregos), Aranha, Roberta, Diocélio e Rafael (Bauru)
A repórter do Jornal da Cidade participou do curso a convite da Jaw Fishing Time, empresa de pesca e náutica de Jaú. O telefone é (0__14) 622-9933.
Serviço
O Rubinho Almeida Prado faz vários roteiros para pescarias no Brasil (Amazônia, Serra Gaúcha, etc.) em busca de tucunarés e outros peixes. Informações podem ser obtidas na Pescaventura pelo telefone (0__11) 9993-7358 ou e-mail: rubinhopesca@uol.com.br
****************** História de pescador
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A sucuri
Nas pescarias, você fica entretido com as coisas que acontecem.
Em uma destas pescarias fomos pescar eu e meus amigos:- Chico Louco, Barão, Goiabinha, Abel, Tião e Chiquinho.
Quando nós chegamos ao rio, vimos que o Chico Louco ficou olhando para o rio e os companheiros descarregavam as tralhas. Não notamos mais a presença do Chico Louco.
Duas horas depois chegou o Chico Louro, gritando, p... da vida;
"porque ninguém veio me acudir".
O Abel perguntou: "por que a fofa tá tão nervosa?"
Então eu vou contar uma história pra vocês:
- Dá uma olhada na sucuri que eu matei com o meu facão!
O Tião, tarimbado em pescarias, 28 anos só de beira de rio, perguntou para a fofa (Chico Louco) como ele conseguiu matar a cobra maior que ele.
- Tinha um velho gritando por socorro. Ele gritou várias vezes, e eu fiquei só observando. Aí o velho apontou com o dedão para baixo da água. Foi aí que eu vi o tamanho da cobra (sucuri) enrolada em seus pés.
- Voltei para o barranco e cortei um bambu com meu facão
"da hora"; fiz uma ponta no bambu e levei para o velho que continuava dentro do rio com a cobra nos pés, dei o bambu para o velho matar a tal cobra; o velho cutucou a cobra e ela largou os pés do velho e veio em minha direção. Tornei a pegar o meu facão "da hora" e cortei a cabeça da dita cuja. Agora nós vamos limpar para fazer um churrasco da "mardita".
Para a nossa surpresa, saiu da sucuri um sapo pulando, feliz da vida, e ninguém quis saber mais do churrasco; só o Chico Louco comeu a dita cuja.
Qualquer dúvida é só perguntar no bar do Abel, lá no Ipiranga: Vila, de domingo a domingo.
Evaí é pescador e contador de histórias