Índices de gravidez precoce aumentam
Índices de gravidez precoce aumentam
Texto: Sabrina Magalhães
No Brasil, 20% a 25% dos partos são feitos em adolescentes. 8% das mães têm menos de 14 anos
Dentre todas as conseqüências de uma sexualidade mal trabalhada, a mais preocupante é a gravidez precoce e os números assustam. De acordo com a ginecologista Carla Ribeiro Lambertini, em 1986, cerca de 20% dos partos realizados no Brasil eram feitos em garotas menores de 18 anos. Destes, 3,7% eram meninas abaixo dos 14 anos. Dez anos mais tarde, em 1996, a porcentagem de partos em menores de 18 anos se mantinha entre 20% e 25%, só que as mães menores de 14 anos já representavam 8% desse total. Ou seja, o índice de gravidez antes dos 14 anos duplicou em apenas uma década.
"Além de indesejada, é uma gravidez numa criança, que não tem um corpo totalmente preparado para isso, nem cabeça, nem sistema hormonal. Ela está sujeita a todo o tipo de repercussão: prematuridade do parto, malformação do feto, descolamento de placenta, doença hipertensiva na gestação, sobrecarga cardiovascular - porque vai aumentar em 30% o volume de sangue dela. Sem contar a falta de elasticidade da pele e de condição da bacia para um parto normal. E ela ainda vai ter uma incrível descompensação psicológica: afinal, o que ela está fazendo com um bebê na barriga? Para se ter uma idéia, eu tive uma paciente que, aos 12 anos, na hora do parto, perguntou 'tia, quando meu nenê nascer, eu vou sentir vontade de vomitar?' Cadê a preparação dessa menina para saber que o bebê não vai nascer pela boca? Ela não tem preparo para nada."
Depois do nascimento, vêm outros problemas. A menina não tem maturidade para cuidar de um filho e são os pais dela que acabam arcando com essa criação, muitas vezes sem condições financeiras para sustentar mais uma criança. Então, cria-se um ambiente de total desestrutura familiar, onde reina a culpa.
Lacuna
Na opinião da pediatra Maria Luíza Cury, especialista em clínica de adolescentes, para a garota, a pior repercussão
é em seu amadurecimento, já que com um filho, ela
é forçada a queimar várias etapas de sua vida, assumindo responsabilidades para as quais ela não tem suporte. "A adolescência é para você se conhecer, para fazer amigos, conhecê-los (em suas compatibilidades e diferenças), para despertar a afetividade, namorar de forma afetiva. E de repente, ela se vê mãe."
A médica lembra que o adolescente tem características muito peculiares: ele se acha o melhor (narcisismo), o todo-poderoso, o inatingível (onipotência), ele acredita que está certo sempre, só que ninguém o compreende. Nesta fase, ele é carente e está em busca de verdades, de respostas, de conceitos, de modelos que o ajudem a formar sua própria personalidade. E ele busca isso entre seus amigos, na "tribo" à qual pertence, único lugar do mundo onde ele se sente verdadeiramente respeitado.
Só que seus companheiros vivem as mesmas dúvidas e todos acabam nadando conforme a correnteza, sendo pressionados uns pelos outros, graças aos conceitos que perpetuam geração após geração: o garoto tem que transar para provar que é homem; a garota, para provar que não
é mais criança, que não é uma virgenzinha. Nesta fase, a primeira menstruação, o primeiro sutiã, o primeiro beijo, a primeira experiência sexual dão status para aquele adolescente no seu grupo de amigos.
"Aos jovens, eu digo que eles precisam aprender a dizer não. Não para a sociedade, não para seu amigo, não para seu parceiro. Ele tem que pensar, peneirar e avaliar o que
é bom ou ruim para ele. Então, o que ele vê na televisão, o que ele lê, o que ouve de amigos, pais e professores, ele tem que raciocinar, pegar todas as informações que lhe chegam, peneirar e escolher seu melhor caminho. Não permitir que lhe façam a cabeça. Pensar para não tomar suas decisões no oba-oba. Ele tem que ser suficientemente pessoa, suficientemente autêntico, para dizer não e manter esse não."
Informação sem formação
Para a sexóloga Maria Lúcia Biem Neuber, aos pais não cabe mais informar, porque informação os adolescentes recebem o tempo todo, através da imprensa, na escola, na Internet. "O que falta é a formação, que tem que vir desde que a criança nasce, ou antes disso."
Ela explica que, inicialmente os pais têm que aprender a lidar com a própria sexualidade, que já não foi bem trabalhada no passado. Muitos pais são frustrados sexualmente, muitos homens e mulheres não conseguem ter prazer nas relações sexuais, não são bem resolvidos neste sentido. Então, são incapazes de conversar com os filhos a respeito disso. E Maria Luíza Cury completa: "Se a sexualidade é bem resolvida para o jovem, se ele achasse que está fazendo o que é certo, ele não ia temer o pai, porque ele ia convencer o pai de que está certo. E se o pai estivesse certo de suas convicções, também não tinha que temer uma conversa aberta com o jovem".
Neuber defende que só o desabrochar da sexualidade acontece na adolescência, mas que a base vem de muito antes. "Lógico que você deve acompanhar o amadurecimento da criança para saber o que pode ser dito em cada fase. Na infância basta dizer que isso é assim porque é assim e ela se satisfaz. Aí você vai aprofundando conforme ela comece a querer saber, para não correr o risco de despejar o que a cabecinha dela ainda não está pronta para receber."
Ela destaca que muitos pais temem falar de sexo com os filhos com medo de que, com isso, eles liberem geral, com medo de que eles antecipem a experiência sexual. No entanto, o que move o jovem é a curiosidade, ele quer saber como é, o que se sente. Se ninguém tem coragem de descrever isso para ele, ele vai experimentar. Portanto, coibir e proibir só instigam o jovem a agir.
Aproveitar a situação
"Os pais também não devem dar sermões aos filhos. Devem aproveitar ganchos. Então, se aparece algo na televisão, é uma boa oportunidade para os pais se aproximarem dos filhos. Mas questionando. 'O que você faria se isso acontecesse com você? O que você sabe sobre isso? O que você acha disso?' Mas questionando, não entregando tudo pronto. E sem atacar. Por exemplo, acontece alguma coisa com um colega dele, uma gravidez. Não adianta os pais dizerem 'Está vendo? Eu avisei'. Mas é uma excelente oportunidade para mostrar que pode acontecer com ele.
'Você vê, meu filho, ele/ela é tão bem informado quanto você. Porque será que ele deixou acontecer isso?'"
A educadora salienta que diante das perguntas do filhos, a tendência
é os pais se defenderem: "Por que você quer saber? Você não tem idade para isso". "Então, se a menina diz que não sabe beijar e pergunta 'como é que eu faço?', uma boa resposta seria 'Olha filha, fica tranqüila, beijar é uma coisa tão natural, que você não precisa se preocupar em saber ou não. A hora que você estiver com uma pessoa de quem você goste, você vai sentir uma atração e o beijo vai acontecer naturalmente. É instintivo. Claro que na primeira vez você pode dar um beijinho, ficar sem graça, mas é como andar de patins. No começo você cai, depois vai aprendendo. É assim também com o beijo, com a sexualidade.' Mas os pais têm que falar sim, não fugir da pergunta, nem ter medo de responder com franqueza."
É bom lembrar, que quando o jovem se sentir pronto para a primeira experiência sexual, ele vai transar, nem que seja escondido, porque ele é audacioso. Então, é melhor que ele esteja bem orientado, para não surpreender depois com uma gravidez ou com doenças sexualmente transmissíveis, lembrando que a aids é a mais grave delas.