Índios dizem que não têm nada a comemorar nos 500 anos
Índios dizem que não têm nada a comemorar nos 500 anos
Texto: Andréia Alevato Ascari
Se analisarmos, os índios fazem uma parte da população brasileira que não têm nada a comemorar a data dos 500 anos de descobrimento. E essa é a opinião dos
índios das aldeias Guarani e Terena, na região de Bauru.
O índio Cláudio Marcolino Onório, o Avagurapiá
(nome indígena), cacique da reserva dos Guaranis, afirmou que a data só serve para lembrar que foram 500 anos de sofrimento para o povo indígena e que seria ironia comemorar algo.
"Os portugueses chegaram aqui, num lugar habitado só por índios, ensinaram a cultura deles, e se esqueceram que a gente já tinha a nossa. Os índios não têm nada a comemorar nesses 500 anos. A data só serve para lembrar que são 500 anos de sofrimento. Seria uma ironia o povo indígena comemorar algo, porque os índios são a minoria. Quando os portugueses chegaram, haviam 10 milhões de índios, agora não passa de alguns mils", afirmou o cacique dos guaranis.
Edenilson Sebastião, chefe do posto indígena "Kopenoti", na reserva dos Terenas, tem a mesma opinião e acrescenta que se há algo para comemorar, será a resistência de um povo.
"Para os índios, os 500 anos do Brasil representa 500 anos de luta, trabalho, de sofrimento e de não se deixar esquecer, porque a gente percebe que a mídia divulga pouco a existência do índio, principalmente os da nossa região. Nós queremos ser lembrados nesses 500 anos como um povo lutador e que ainda existe, mesmo em pequenas reservas como a nossa. Se existe algo para os índios comemorarem
é a resistência do seu povo ao longo desses 500 anos, mesmo com a chegada da tecnologia. Também vamos comemorar o resgate da nossa cultura, das nossas danças e do nosso idioma", completou Sebastião.
A professora de sociologia e história da Universidade Sagrado Coração (USC), Vera Lúcia Telles Nunes, acredita que os índios dizem não ter nada para comemorar, porque tiveram toda sua cultura, vida e civilização destruída sistematicamente.
"Se nós analisarmos, do ponto de vista indígena,
é difícil encontrar motivos de comemoração aos 500 anos, porque eles foram massacrados, escravizados e até mortos. Podemos imaginar o que deve ter representado para essas tribos indígenas, a destruição sistemática de sua cultura, vida e civilização. E isso aconteceu com todos os índios, não só os brasileiros, mas também com os americanos", disse Vera Lúcia.
Tanto o cacique dos guaranis, Cláudio, quanto o chefe do posto indígena da reserva dos Terenas, Sebastião, afirmam que a cultura indígena não pode ser esquecida, mas o aprendizado do "homem branco" é fundamental para a sobrevivência das tribos.
"O índio de hoje tem que se aplicar mais no estudo. Aulas de língua portuguesa, junto com o tupi guarani, e outras coisas que o branco aprende na escola, aprender a lidar com computador, tudo isso são coisas a mais para o índio aprender. Mas, não podemos perder nossa cultura, por isso
é importante aprender o tupi guarani junto com a Língua Portuguesa", ressaltou o cacique Cláudio. "O aprendizado da escola do branco e de computação
é fundamental para o índio, porque ele precisa acompanhar a evolução do mundo. Nós precisamos treinar os jovens na área de educação e saúde para trabalhar para os índios. O computador vai ajudar, porque vamos poder guardar material da aldeia e o que nós fazemos aqui", completou Sebastião.
A professora de sociologia e história lembrou que o índio sempre resistiu a influência do homem branco, e que mesmo vivendo nessa cultura hoje, a sociedade não pode ver o
índio como uma "figura excêntrica". Sobre a comemoração dos 500 anos do descobrimento, a professora ressaltou que há um lado político de "oba-oba".
"Em toda comemoração existe um lado político de "oba-oba". Em toda atuação social, principalmente quando é tão evocada pela mídia, como está sendo os 500 anos de descobrimento, existe uma conotação política e o interesse de usufruir das benéfias de uma comemoração significativa na História do País. Do ponto de vista da crise social e econômica que estamos enfrentando, é difícil comemorar, mas do ponto de vista da povo que se fez, temos o que comemorar. Mas não essa festa que o governo está fazendo, mas sim comemorar pelo povo que não deixa de lutar, que é muito humano, que tem defeitos, preconceitos, mas que se sensibilizam. Temos que comemorar a civilização que se fez, apesar de tudo de ruim que aconteceu nesses 500 anos e não comemorar o que o governo quer ou o que a grande mídia quer", concluiu Vera Lúcia.
Computador na aldeia
A reserva dos Guaranis tem 160 índios. Desse total, apenas 30% da população fala o tupi guarani. E, na maioria das vezes, são as pessoas mais idosas. As crianças, segundo o índio Cláudio, não querem aprender a língua indígena. Na reserva dos terenas, que é formada por 300 índios, apenas 20% da população fala o idioma indígena, e a situação não
é diferente da reserva vizinha. Os índios mais velhos são os que ainda cultuam o idioma.
Para resgatar o idioma, mas ensinar a Língua Portuguesa e outros recursos para integrar o índio à sociedade, a USC implantou vários projetos nas aldeias Terena e Guarani.
A coordenadora dos projetos implantados nas reservas indígenas da região, Gesiane Monteiro Branco Folkis, secretária-geral da USC disse que o primeiro programa implantado foi o Núcleo de Educação Indígena do Estado de São Paulo (NEI), que é responsável pela educação indígena bilingue, ou seja, as crianças da aldeia que têm aulas de Língua Portuguesa, Matemática e outras disciplinas, também terão garantida a educação na língua indígena, para que não se perca completamente a cultura do povo.
Paralelo ao NEI, a Universidade do Sagrado Coração implantou o Telecurso 2000 nas aldeias. Hoje, entre as aldeias Guarani e Terena, são 16 alunos do 1.º grau e 4, de 2.º grau. Para os índios que terminarem o 2.º grau e quiserem fazer um curso universitário, a USC garantirá o término dos estudos, de acordo com Gesiane.
"Integrar o índio na nossa cultura não é contraditório. O que é contraditório é confinar o índio na reserva. Só que a reserva não
é o local de trabalho dele, porque ele não caça e não pesca mais. Ele é agricultor e, muitos, trabalham como mão-de-obra da lavoura, são bóia-frias e não têm oportunidades na cidade. É possível conciliar isso. O índio que vive em sua aldeia, com sua cultura e língua, e ter acesso a nossa sociedade. Os índios têm vontade, mas não têm condições. E agora vamos dar essas condições", disse a secretária-geral da USC
Desenvolvendo o NEI e o Telecurso 2000 nas aldeias, Gesiane descobriu que os índios queriam aprender computação. Por isso, ela conseguiu que um computador fosse doado para cada reserva. As aulas devem começar ainda este ano.
"Algumas aldeias no litoral paulista já têm computador. Isso é uma forma de dinamizar a comunicação entre eles. O computador pode ser muito útil na aldeia. Essa interação entre nós e os índios
é positiva, porque vamos dar espaço em nossa sociedade para os índios. Se a situação ficar do jeito que está, nós continuamos a preservar a cultura do índio e cortamos qualquer possibilidade de participar da nossa sociedade", completou.
Outro projeto já em andamento é a Biblioteca na Aldeia. Livros infantis já estão sendo distribuídos para as crianças. Segundo Gesiane, a Biblioteca terá livros, em sua maioria, infanto-juvenis, e funcionará como qualquer outra biblioteca.
"Estamos dando toda estrutura e infra-estrutura para que o índio participe de nossa sociedade e mantenha viva sua cultura. Sociedades que já perceberam que essa interação
é possível, como nos Estados Unidos e Canadá, onde os índios falam sua língua, têm sua cultura e frequentam universidades. Por isso a integração
é possível. O que não pode é deixá-lo na aldeia, longe, vê-lo como algo engraçado. Temos que integrá-lo na nossa sociedade, preservar sua cultura, para que o índio não desapareça", concluiu Gesiane.