08 de julho de 2026
Geral

Prevenção a aids

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 11 min

Informação e prevenção são "remédios" contra aids e DST

Informação e prevenção são "remédios" contra aids e DST

Texto: Patrícia Zamboni

Prevenir. Esse é o conselho de todos os profissionais que trabalham na área de saúde para se evitar a contaminação pelo HIV - o vírus da aids (síndrome da imunodeficiência adquirida) - e as DST (doenças sexualmente transmissíveis), que são causadas por vírus, bactérias e parasitas, transmitidas pelo contato sexual através da vagina, pênis, boca e ânus. O número de pessoas com aids cresce rapidamente no mundo todo. O que muita gente está se esquecendo

é que não existe grupo de risco, e sim comportamento de risco. Mas "esquecendo-se" disso, de forma proposital ou não, o fato é que seguir pela vida pensando que

"isso nunca vai acontecer comigo" já pode ser considerado um comportamento de risco. Como ainda não existe uma vacina nem se tem idéia de quando será descoberto um tratamento efetivo contra a aids, a dica de especialistas é buscar informações e, acima de tudo, usá-las. Apesar das inúmeras campanhas governamentais e programas de prevenção sobre o assunto, um grande número de pessoas ainda ignora fatores que envolvem a questão sexual, bem como desconhece os riscos de contaminação da aids. O pior é que muitos nem se preocupam em aprender e seguem com a equivocada pretensão e sensação de que, "milagrosamente", são imunes a essas doenças, principalmente contra a aids. Isso acontece entre pessoas de todas as idades, sejam adolescentes, jovens ou adultos, independentemente de nível social.

Segundo a psicóloga clínica e terapeuta sexual Maria Lúcia Biem Neuber, as pessoas têm muita informação sobre o assunto mas não utilizam esse conhecimento. "Informação

é diferente de formação. Ter informação não garante que a pessoa vá mudar seus hábitos de comportamento. Uma informação é efetiva quando muda o comportamento, quando ela passa a ser uma formação. E isso vem do berço, é completado na escola e no decorrer da vida dessa pessoa", observa Maria Lúcia.

Para ela, embora não seja somente na relação sexual que se contrai aids, no Brasil ainda há uma falha muito grande na questão da sexualidade. "Existem cursos que estão formando educadores especializados nessa área, mas ainda não foi colocado no currículo das escolas a educação sexual", diz a psicóloga. Um grande problema apontado pela terapeuta e psicóloga

é que os pais também não estão preparados para dar muitas informações aos filhos. Segundo ela, o ideal é que desde criança se tenha informações para que no futuro seja possível colher resultados com pessoas "sexualmente formadas". "As pessoas, principalmente os adolescentes, precisam ter conhecimento para saber como usar a sexualidade e para que serve a sexualidade", orienta Maria Lúcia.

Dentro do panorama atual, torna-se importante destacar uma frase dita pela psicóloga que pode resumir todas as orientações a respeito de comportamento sexual: "A sexualidade é uma coisa muito boa e saudável, desde que se saiba usá-la com responsabilidade". Essa responsabilidade diz respeito não somente às doenças, como também ao aspecto emocional da outra pessoa envolvida na relação.

"Não faça com a outra pessoa, com o seu parceiro, o que você não quer que façam com você", afirma Maria Lúcia. Por isso ela acredita ser tão importante que a educação sexual comece desde cedo.

Buscar informações

Para o adolescente que se vê cercado de dúvidas sobre esse assunto e não se sente à vontade para buscar as respostas com os pais, a dica de Maria Lúcia Biem é, em primeiro lugar, procurar pessoas com as quais tenha facilidade em se relacionar e que possam informar de maneira adequada, como por exemplo um professor ou um parente. Também é importante que a conversa não se resuma somente a uma pessoa, para poder enriquecer cada vez mais os seus conhecimentos sobre o assunto.

Outra dica é começar pelos livros. "Existem vários livros que informam de uma maneira muito gostosa, em forma de perguntas e respostas, por exemplo. Hoje em dia existem muitos livros no mercado próprios para adolescentes, com informações bastante claras e que atendem a vários níveis de compreensão", orienta Maria Lúcia. Outra opção é conversar com um médico.

Mas seja qual for a decisão do adolescente, a "ordem"

é não ter vergonha de perguntar. "Quando se faz uma pergunta é sinal de que se quer crescer. A partir do momento que a pessoa acha que sabe tudo, pára de perguntar e de crescer. Não é vergonhoso não saber.

É vergonhoso não se informar", afirma a psicóloga Maria Lúcia Biem.

Muitas vezes os adolescentes não se informam mais porque o relacionamento com os pais não é "aberto", e aí vem a falta de liberdade e a vergonha de abordar o assunto quando surge alguma dúvida. O problema é que se a informação não for encontrada dentro de casa, o adolescente terá que buscá-la em outro lugar e de outra forma, e nem sempre essa outra alternativa é segura. Por isso, Maria Lúcia faz um alerta aos pais, dizendo que não se deve ter medo de abordar assuntos sobre sexualidade.

"Conversar de maneira franca e aberta não vai transformar o filho em um promíscuo. Pelo contrário. Quanto mais informações os pais passarem aos filhos, melhor. Não se deve mudar o canal quando aparecer na televisão algum programa que aborde sexualidade e comportamento sexual, e sim aproveitar o gancho para falar sobre o assunto. Principalmente quando estiverem sendo entrevistados profissionais especializados nessa área", orienta a psicóloga. Assim como os adolescentes, os pais também devem buscar informações e orientação sobre como falar sobre isso com seus filhos. No caso do pai ou da mãe ser surpreendido (a) por uma pergunta que não sabe responder, a atitude correta, segundo Maria Lúcia, é dizer a verdade. Ou seja, admitir que naquele momento não será possível dar uma resposta àquela questão com segurança, e que irá buscar a informação correta. "A honestidade nessa hora é um tesouro, e essa atitude acaba até facilitando o relacionamento porque o filho vai ver que nem sempre os pais sabem tudo", diz a psicóloga e terapeuta sexual.

Essa troca de informações é de extrema importância, porque segundo Maria Lúcia, há um grande número de adolescentes que ainda têm muitas dúvidas em relação

à transmissão de doenças e qual a maneira mais segura de se praticar o ato sexual. Para a psicóloga, o adolescente está preparado para iniciar sua vida sexual quando está ciente da sua responsabilidade e das consequências que podem advir de uma relação sem os cuidados devidos. O sexo não pode ser encarado como uma coisa que se deve temer, e sim como algo que dá prazer. Porém, um

"prazer responsável".

Multiplicar e sensibilizar

A Secretaria de Saúde da Prefeitura de Bauru desenvolve na cidade o Programa Municipal de Doenças Sexualmente Transmissíveis e Aids, que para ser mantido conta com uma verba do Ministério da Saúde. De acordo com a psicóloga Roseli d'Avila Vasconcelos, adolescentes e crianças sempre estiveram entre os alvos do programa, que inclui o treinamento de professores para que eles abordem o tema em sala de aula. Além disso, existe o Curso de Multiplicadores, que consiste em treinar voluntários que visitam bairros da cidade fornecendo informações

à população sobre prevenção contra aids e DST. Cartilhas elaboradas pela Secretaria de Saúde são distribuídas aos moradores dos bairros visitados. Existem, inclusive, materiais com linguagem específica direcionada a crianças e adolescentes. "Nós treinamos essas pessoas para que elas multipliquem a informação. Temos um compromisso com os multiplicadores, e a cada dois meses fazemos reuniões para saber o que eles estão precisando", observa Roseli Vasconcelos. Esse programa começou a ser desenvolvido no final de 1996 e tem obtido ótimos resultados.

Uma das mais importantes causas apontadas pela psicóloga para o fato de ainda serem altos os índices de pessoas infectadas pela aids e por DST é a falta de sensibilização.

"As pessoas são informadas mas não são sensibilizadas, e sempre pensam que isso só acontece com os outros", observa. Com o objetivo de minimizar cada vez mais essa situação, no curso os multiplicadores são treinados para realizar atividades teatrais com a população. Através da dramatização, as pessoas podem perceber melhor, ainda que hipoteticamente, a situação de uma pessoa infectada pelo vírus da aids; situação de saúde e social.

Segundo Roseli Vasconcelos, a população mais carente ainda tem muitas dúvidas sobre esse assunto. "Muitos adolescentes que são atendidos pelo nosso programa não recebem informações em casa. Geralmente eles não têm a possibilidade de convsersar e tirar dúvidas com os pais. São comuns as dúvidas sobre anatomia, fisiologia, gravidez e aborto. A adolescência é uma fase de descoberta, e por isso, nessa idade é preciso muita informação. Se a família desenvolve um trabalho de base desde a infância, por exemplo, a possibilidade de surgirem menos dúvidas e do adolescente passar por essa fase com mais tranquilidade é muito maior. Se os pais também não têm as informações necessárias para passar aos filhos e não se sentem em condições de ensinar, devem procurar ajuda o mais rápido possível", observa a psicóloga. Ou seja, o papel da família

é fundamental para a formação dos filhos em todos os sentidos. Quanto mais saber a criança e o adolescente receber, maior é a probabilidade de nunca contrair uma doença como a aids e de se ter um alto nível de consciência em termos de prevenção.

Com a palavra, o adolescente

O estudante Davi Souza Mastrangeli, 15 anos, é um belo exemplo de adolescente consciente graças à educação recebida dos pais. Segundo Davi, seu pai sempre conversou com ele sobre sexo e suas consequências, sobre sexualidade, e sempre tirou suas dúvidas de uma maneira bem especial.

"Meu pai conversa comigo e com meus irmãos sobre isso desde que a gente era pequeno. Ele entende a gente e tem um jeito super legal de explicar as coisas. Às vezes ele pega livros pra explicar e fala pra gente ler. Sempre tive liberdade de falar sobre sexo e doenças como a aids com os meus pais. Minha mãe até leva camisinha pra gente", conta Davi. Segundo ele, seus amigos também se mostram conscientes da importância de se prevenir usando camisinha, mas a preocupação principal ainda é a gravidez. "A galera usa mais por causa da menina, pra não ficar grávida. Mas eu também uso pra não pegar doença", afirma o esclarecido Davi.

Sílvia Sonderman Prado, 14 anos, diz que tem vergonha de falar sobre o assunto com os pais. Por isso, quando tem dúvidas procura por leituras e pela conversa com as amigas. Na sua turma, a preocupação maior também é com a gravidez, mas ela diz que seus amigos têm consciência de que podem pegar doenças como a aids se não usarem a camisinha. "Eu tenho vontade de conversar com alguém mais velho pra tirar minhas dúvidas, mas tenho vergonha", diz Sílvia. Porém, garante que sabe como se cuidar.

Francine Medeiros da Silva, 15 anos, diz que não tem liberdade de falar sobre sexo e aids com os pais. "Converso com meus amigos. Na minha turma todo mundo sabe como pega aids e que tem que usar camisinha pra isso não acontecer", garante. Sua amiga de 16 anos, Camila Rossini, diz que tira a maioria das suas dúvidas com as irmãs mais velhas, de 23 e 27 anos. Camila acha que as meninas têm mais consciência do que os meninos. "Acho que os meninos falam que sabem se cuidar mas nem sempre fazem a coisa certa", opina Camila.

Felipe Monteiro Abílio, 18 anos, diz que tem total liberdade de conversar com os pais sobre assuntos que envolvem comportamento sexual. "Há bastante tempo eu tenho consciência da necessidade de usar camisinha pra me proteger das doenças. Quando rola alguma coisa e eu não estou previnido, desencano e vou embora", afirma Felipe.

Teste de HIV

De acordo com a médica infectologista Denise Arakaki, quando uma pessoa é contaminada pelo vírus da aids, geralmente o resultado positivo pode ser diagnosticado através do exame laboratorial dentro de dois a três meses após a contaminação. Dados estatísticos fornecidos pela Secretaria de Saúde da Prefeitura Municipal de Bauru dão conta que, de 1980 a 1999 foram registrados até agora (dados preliminares), em crianças menores de 13 anos, 17 casos de aids entre o público masculino e oito casos entre o público feminino (ver tabela). Segundo a dra. Denise, nos casos registrados em crianças de até 12 anos de idade infectadas pelo HIV, a principal forma de transmissão tem sido de mãe para filho, durante a gravidez ou no momento do parto. Por isso, toda mulher portadora do HIV que engravidar, deve ter acompanhamento médico desde o início. Com medicação adequada, aumentam bastante as chances do bebê nascer saudável.

Em Bauru, o teste de HIV pode ser feito gratuitamente no Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) em DST e aids, que fica na rua Quintino Bocaiúva, 5-45. O atendimento é feito das 13 às 17 horas e a pessoa não precisa se identificar, podendo usar um codinome (apelido). Mais informações podem ser obtidas pelo telefone 235-1393. Qualquer pessoa, independentemente da idade, que tiver um comportamento de risco e quiser saber se está contaminado por alguma doença sexualmente transmissível deve fazer um teste laboratorial. O ideal, segundo especialistas,

é manter um acompanhamento médico porque nem sempre o primeiro resultado é verdadeiro, ou definitivo.