Consciência verde
Consciência verde
Texto: Gustavo Cândido
Aos 21 anos, Rodrigo Agostinho Mendonça é um jovem atípico. Atuando como secretário executivo do Instituto Ambiental Vidágua, organização que criou há 5 anos e hoje é uma das maiores instituições que cuidam do meio ambiente do Estado, quando a maioria dos jovens da sua idade não está muito preocupada com isso, ele tem lutado constantemente para que a população e o poder público dê mais atenção a natureza e aos problemas que a sua destruição causam. Apaixonado desde cedo pelo verde, Rodrigo, que também cursa a faculdade de Direito, está se preparando para, no próximo ano, comandar junto com o Vidágua, um projeto para o treinamento de professores da rede pública de Bauru e região, sobre meio ambiente, que deve envolver 50 escolas. "É um investimento na conscientização tão necessária para que os problemas ambientais melhorem", diz. Ele falou sobre seu trabalho e sobre o meio ambiente em Bauru.
Jornal da Cidade - Quando você começou a se interessar por ecologia e meio ambiente?
Rodrigo Antonio de Agostinho Mendonça - Desde muito cedo. Sempre fui apaixonado por natureza, li tudo o que aparecia na frente, me interessava, mas o máximo que eu podia fazer era proteger a árvore do vizinho, tapar o buraco da esquina. Quando fui me tornando adolescente comecei a trocar correspondência com outras pessoas e grupos ecológicos, participei da Rio 92 e entrei de cabeça. Também fui voluntário em outras organizações como o Greenpeace e a S.O.S. Mata Atlântica. Fiz isso até ter uma formação boa para formar uma instituição aqui, que é o Instituto Ambiental Vidágua, que está crescendo muito e se tornando uma das maiores instituições do Estado. Escolhi trabalhar com meio ambiente como quem decide trabalhar com outras áreas, só que meio ambiente para mim é uma paixão, vou trabalhar com isso pelo resto da vida.
JC - Mas você começou a gostar de natureza com essa intensidade por influência de alguém ou alguma coisa em especial?
Rodrigo - Não que eu me lembre. Ninguém me influenciou, isso é uma coisa com a qual eu quero lidar, um assunto extremamente sério que a população não dá a mínima. Hoje nós temos 300 mil habitantes, 300 toneladas de lixo por dia, um bilhão de litros de esgoto por dia, vários problemas ambientais de erosão, de limpeza, solo e ninguém quer saber. Esses problemas vão ficar mais sérios daqui para frente.
JC - Todos esses problemas ambientais foram causados pelo progresso desmedido junto com a falta de preocupação com a natureza?
Rodrigo - Até os anos 60 e 70 a maior parte do planeta nem sabia onde morava direito, foi preciso sair da Terra para ver que moramos em um planeta pequeno, que tem tudo o que precisamos e que precisa ser cuidado. A partir dai é que se começou a pensar em preservação. Não acho que o progresso seja o responsável mas a falta de consciência. É sempre a questão capitalista que fala mais alto e por causa disso o meio ambiente fica em segundo plano. O que preciso ser visto é que isso hoje é uma questão de sobrevivência. A gente precisa, a partir de agora, pensar em uma nova forma de desenvolvimento que seja mais sustentável para atender as nossas necessidades sem comprometer as necessidades das gerações futuras. Isso é um processo lento que vai avançar assim que se insistir na questão da educação ambiental para conscientizar a população sobre essas questões.
JC - Qual a principal barreira na hora de informar a população sobre meio ambiente?
Rodrigo - As pessoas têm uma visão destorcida do que é meio ambiente, elas acham que meio ambiente é a floresta amazônica, a mata atlântica, não sabem que é tudo o que nos cerca, principalmente aqui, que é uma cidade onde os problemas ambientais estão dentro da área urbana. Muita gente acha que tem coisas mais importantes para se preocupar mas se formos analisar, grande parte do problemas de saúde são decorrentes da ação degradadora no meio ambiente. As pessoas não perceberam isso ainda.
JC - Existe algum tipo de preconceito contra quem fala de meio ambiente, alguém já te chamou de "ecochato" ou algo assim?
Rodrigo - No começo tinha mas hoje as pessoas respeitam mais o trabalho. Quando eu comecei as pessoas me olhavam e pensavam:
"o que esse moleque está querendo fazer?". Quando eu fiz uma campanha pelo Rio Bauru em 94, as pessoas davam risada, diziam que eu era maluco. Mesmo assim, 5 anos depois conseguimos que a prefeitura lançasse 3 projetos de licitação, que infelizmente, por razões políticas, foram retirados de discussão. O importante é que temos conseguido colocar o meio ambiente na pauta de discussão. Um projetinho que era o de recuperar o Rio Batalha se tornou uma instituição própria e só nesse ano já foram 50 hectares reflorestados. A gente tem conseguido fazer um trabalho sério e isso deu um lastro para os trabalhos futuros, as pessoas acreditam mais, embora ainda não invistam e participem, como deveriam. Muita gente não quer dispor do seu tempo livre para ajudar como voluntário numa instituição, é difícil.
JC - Quais são os principais problemas de Bauru hoje, os rios?
Rodrigo - São alguns pequenos problemas em cada bairro que juntos se tornam grandes problemas, como as erosões na área urbana, a limpeza, o esgoto, o lixo, já que só 1% da população faz coleta seletiva de lixo. Se a população não aprender a lidar com isso não vai ser possível mudar esse quadro. A maior parte dos problemas são de planejamento da cidade que são decorrentes da falta de uma política ambiental para o município e falta de um política educacional, onde a população fica atenta a participar da resolução dos problemas. As pessoas ficam preocupadas em atender demandas locais e não fazer projetos para a cidade inteira.
JC - O aumento desordenado da população bauruense interfere na questão?
Rodrigo - O mundo tem conseguido atender a demanda da sua população, mas para isso destrói muito e lança na atmosfera 7 bilhões de toneladas de gases poluentes o que está mudando o clima do mundo. Em Bauru, o problema é a expansão desordenada da cidade, temos um problema de especulação imobiliária muito grande. Ribeirão Preto tem o dobro da população de Bauru num espaço muito menor, ou seja, foi preenchendo seus espaços vazios urbanos, aqui existe essa política de loteamento, vão construindo aqui e ali, desordenadamente. Se for ver existem projetos de construção de mais 10 casas nos próximos 5 anos em Bauru, esses projetos continuam a ser aprovados simplesmente para atender a especulação imobiliária. Se isso fosse para acabar com as favelas da cidade seria válido, mas não é, são casas para quem pode pagar, não são para a população sem dinheiro. Isso causa problemas como a necessidade de construção de novos postos de saúde, escolas, asfaltamento, água e esgoto nesses novos bairros, quando a prefeitura não consegue nem atender a demanda dos que já existem. Esses bairros estão se aproximando cada vez mais da nascente do Rio Batalha, ou seja, jogando esgoto no rio que fornece água para a cidade, o problema começa a ficar mais sério.
JC - Como uma pessoa pode participar como voluntária em uma das instituições?
Rodrigo - Elas podem participar porque tanto o Fórum Pró-Batalha mas não precisam ser voluntárias para fazer alguma coisa, elas podem atuar nas suas associações de moradores, nos seus bairros, fazendo coleta seletiva, economizando
água e energia elétrica, não jogando lixo na cidade... As pessoas podem fazer muito no dia-a-dia e se tiverem um tempo livre, podem se voluntariar.
JC - Por que a questão da coleta seletiva não está progredindo?
Rodrigo - Primeiro porque a população na participa e depois porque a Prefeitura não amplia o serviço.
JC - Essa questão do lixo é complicada. Se você está com um palito de sorvete na mão na rua, muitas vezes não tem um cestinho de lixo para jogá-lo. Se você joga o palito no chão a culpa é de quem?
Rodrigo - Eu não jogaria o palito no chão, levaria até em casa, mas tem muita gente que não faria isso. É uma questão de co-responsabilidade, tanto do poder público quanto da população. Se um faz alguma coisa o outro tem que reagir, é uma questão que depende dos dois lados para dar certo. A coleta seletiva não está sendo explorada o quanto devia, estamos jogando fora muitos materiais que poderiam ser reciclados e muitas pessoas poderiam estar trabalhando com isso.
JC - Por que o poder público não investe em meio ambiente, não dá tanto "Ibope" quanto construir viadutos e casas populares?
Rodrigo - Eu acho que dá Ibope porque se você revitaliza um praça ou limpa a cidade a população vê, diferente dos problemas na área rural, que ninguém vê. Os problemas urbanos têm tudo para dar um grande Ibope para os políticos que os resolverem, mas talvez a classe política não tenha se conscientizado disso. Esses problemas são até fáceis de se resolver, só é preciso vontade.
JC - Você tem alguma pretensão de ingressar na carreira política no futuro?
Rodrigo - Não sei. Os ambientalistas devem entrar nessa área também mas eu pessoalmente não sei de devo fazer isso, embora muitas vezes tenha que discutir leis ambientais e projetos. Por enquanto o Vidágua é a minha prioridade e prefiro continuar trabalhando lá. Sou filiado a um partido mas não quero pensar nisso agora, quem sabe no futuro.