Curiosidade pode significar economia
Curiosidade pode significar economia
Texto: Luciano Augusto
Os mais curiosos já descobriram as vantagens (principalmente econômicas) de fazer, por si próprios, pequenos consertos em casa ou de eletrodomésticos, ao invés de contratarem os serviços de um profissional. Ao contrário do que se imagina, com os "equipamentos" comuns em quase todas as residências, é possível resolver os pequenos problemas do dia-a-dia.
Com a recessão econômica e o arrocho salarial dos tempos atuais, fazer economia é uma necessidade. Quando o problema é simples, com uma boa dose de paciência, curiosidade e um pouco de tempo, é possível dispensar os serviços de um profissional. O conselho de amigos também pode ajudar bastante.
Foi assim que o bancário e diretor sindical, Marcos Tadeu Lenharo, 40 anos, começou, ele próprio, a fazer pequenos serviços em casa.
Ele conta que a necessidade surgiu por causa de um problema elétrico em sua casa. "Eu procurei alguns profissionais e o preço que estavam sendo praticados na época, achei um tanto quanto absurdos; não desmerecendo essa categoria, mas (o preço) estava fora da minha realidade", argumenta.
Foi então que ele resolveu buscar a ajuda de um amigo engenheiro elétrico, que deu as primeiras explicações sobre o assunto. "Acabei gostando, fiz o conserto e funcionou".
A partir daí, começou a se interessar por outros problemas que foram surgindo. E numa outra vez, quando precisava pintar sua casa, ele mesmo comprou as tintas, lixas e pincéis, e executou o serviço. Hoje, Lenharo afirma que faz de tudo em seu apartamento e consegue resolver desde os problemas elétricos até a parte hidráulica. Segundo suas palavras, já foi capaz, até mesmo, de instalar o box do banheiro de sua casa.
Para realizar os pequenos consertos, Lenharo dispensa parte do seu tempo de descanso, usando, além da criatividade, as ferramentas comuns do dia-a-dia, como alicate, fios, chaves de fenda e inglesa.
O diretor sindical acusa, por outro lado, que atualmente, a máxima do "faça você mesmo" é um reflexo da situação político-econômica brasileira. Ele aponta que "o País atravessa um momento de crise" e depois que Fernando Henrique Cardoso assumiu o País,
"é notório que a situação piorou".
O projeto neo-liberal aliado ao processo de globalização e as privatizações, conforme sua análise,
"geraram níveis de desemprego jamais experimentados pela sociedade brasileira e "hoje existe uma grande concorrência no setor de prestação do serviço. Lenharo argumenta que, com isso, "muita gente desqualificada (para realizar o serviço), que perdeu seus empregos (originais) tiveram que adotar alguma outra forma de ganhar dinheiro".
O resultado disso é que aumentou a concorrência, diminuiu a oferta de trabalho para os prestadores de serviço e os preços aumentaram. "Esse sujeito, então, vai trabalhar de vez em quando e se ele não aproveitar para tirar uma grana nesse 'de vez em quando', ele não vai tirar nunca", completa o bancário.
Lenharo diz que "não colocou no papel", mas que, com certeza, já economizou bastante, principalmente, com mão-de-obra. "Seria ótimo se eu tivesse condições de pagar um pintor, por exemplo, porque eu também estaria contribuindo para melhorar a distribuição de renda e gerando novos empregos", completa.
Falta de oficina especializada
O tintureiro Eurico Goto, 51 anos, é outro que vive às voltas com os consertos. Segundo ele, no seu ramo de atividade ainda faltam oficinas especializadas na cidade capaz de resolver os problemas mais sérios dos equipamentos que usa.
"Quando é um problema simples, eu mesmo conserto. Agora, quando o problema é mais sério, tenho que mandar para São Paulo", afirma. O equipamento precisa ser enviado via Sedex e, afora o tempo que se perde entre o envio e recebimento do material, tem o custo do frete.
Goto lembra que aprendeu a consertar coisas, observando o pai,
"que também era tintureiro e bastante curioso". Com isso, além de conseguir resolver pequenos defeitos nos aparelhos que utiliza em sua tinturaria, ele conserta "um ou outro eletrodoméstico". É uma forma de economia, ressalta, "porque se for chamar alguém para consertar não dá".
Inventor
Não bastasse a habilidade em consertar aparelhos e outros utensílios em casa, o operador de fábrica, Airton Martins, 35 anos, também se mete a cientista. Como a "mensalidade das academias está muito cara", ele resolveu montar em sua casa alguns equipamentos de ginástica e musculação. O inventor fabricou um aparelho para a perna, um para abdominal, outro para os braços, além de outros apetrechos.
Martins afirma que, desde criança, sempre foi muito curioso e o "filho está indo para o mesmo caminho".
Seu primeiro trabalho foi consertar um aparelho de UHF da TV. E continuou fuçando. Ele abriu, "fuçou" e colocou-o novamente em funcionamento. "Só chamo alguém em casa, se não conseguir arrumar mesmo", avisa o operador. Um de seus últimos serviços foi arrumar um liquidificador. "Noutro dia, peguei dois liquidificadores quebrados e fiz um novo, que continua funcionando já faz uns cinco meses", comemora.
A curiosidade também foi o que o impulsionou a fazer o curso de mecânica industrial do Senai. A teoria da escola ajudou-o a partir para as invenções.
Hoje em dia, diz, conserta "de tudo", até mesmo a parte mecânica das máquinas do seu trabalho, numa usina de asfalto. "Tem coisas que a gente nunca viu na vida e mexe até conseguir arrumar; quando a gente quer nada
é difícil nem impossível".