Ira! mostra seu "Isso é Amor"
Ira! mostra seu "Isso é Amor"
Texto: Ricardo Polettini
Depois de se embrenharem na praia eletrônica, em "Você não Sabe quem Eu Sou", agora o Ira! resolveu entrar de vez na "briga" que virou praxe no cenário do rock nacional atual. "Isso é Amor", mais recente lançamento da banda paulistana, assim como "As Dez Mais", dos Titãs, é um trabalho revisionista, que traz regravações de bandas e compositores que foram sucesso nas duas últimas décadas.
Apesar dos dois trabalhos virem de idéias parecidas, ao contrário dos Titãs, o Ira! optou pelo menos óbvio, resgatando, entre outros, sucessos de gente como Dalto, Gang 90, Lô Borges, Lobão, Ronnie Von e, Ritchie. Se os fãs mais radicais torceram o nariz para o excelente trabalho anterior, pela influência eletrônica de Edgard Scandurra, talvez agora não engulam um "A Vida Tem dessas Coisas", do Ritchie (leia crítica sobre o disco em boxe nesta página).
"Vai ser a volta da rivalidade entre Ira! e Titãs", chegou a declarar o vocalista Nasi ao jornal Folha de S. Paulo.
É esse novo trabalho que o Ira! deve apresentar no show de hoje, no Sesc Bauru, a partir das 20 horas. A abertura fica por conta do guitarrista e compositor paulistano Duca Belintani, ex músico das bandas Kid Vinil & Magazine e Bem Nascidos
& Mal Criados.
Além das músicas do novo CD, o Ira! deve também relembrar sucessos de seus discos anteriores: "Mudança de Comportamento", "Vivendo e não Aprendendo",
"Psicoacústica", "Clandestino", "Meninos da Rua Paulo", "Música Calma para pessoas Nervosas",
"7" e "Você não Sabe quem Eu Sou".
MPB e blues
O músico Duca Belintani é quem faz o show de abertura de hoje, com músicas de seu primeiro CD solo, "MPBlues". Belintani interpreta seu trabalho como uma fusão bem sucedida da música popular brasileira com o blues.
Em suas composições, usa as influências do estudo que fez sobre harmonias de músicas de Gilberto Gil, Chico Buarque, Caetano Veloso, Djavan e Tom Jobim entre outros. No blues, as influências vieram de Eric Clapton, Robert Cray e Roben Ford.
Internet
O show do Ira! será transmitido ao vivo, via Internet, pelo site Giro (www.giro.com.br). O Giro Online terá imagens
(sem áudio) atualizadas a cada 30 segundos, dependendo da rede e do número de internautas que estiverem conectados na página no momento da transmissão.
Serviço
Ira! e Duca Belintani se apresentam hoje, 20 horas, no Sesc Bauru. Ingressos: R$ 2,00 (comerciários matriculados), R$ 5,00
(estudantes) e R$ 10,00. Avenida Aureliano Cardia, 6-71. Informações: 235-1750.
Novo disco do Ira! é manifesto
Texto: Pedro Alexandre Sanches / Agência Folha
É coisa rara a coexistência, no mesmo espaço, de integridade, senso ético, talento, competência, fúria. O Ira! sempre primou pelo privilégio; agora, sob permissão, resolveu atirar isso no rosto de quem puder
(ou quiser) ouvir. "Isso É Amor" é, quase todo, um manifesto (além de um lancinante disco de amor). Até há fissuras, mas elas são acomodáveis.
"Sentado à Beira do Caminho" (afinal a menos feliz das versões) traz ao projeto ético o mais acomodado de todos os artistas brasileiros, Roberto Carlos, mas, mais que dele, é do parceiro Erasmo Carlos, em sua própria carreira solo um primor de fidelidade à música e a si próprio.
Chico Buarque, também, é da nata do mainstream. Mas "Jorge Maravilha" - em releitura sensacional, do mais rasgado rock-samba (e não samba-rock) - se safa por aquela aura de resistência, do artista que por volta de 1974 tinha de se esconder sob pseudônimo para escapar à truculência do regime, e o fazia ironizando o presidente general e sua filha ("você não gosta de mim, mas sua filha gosta"). Legião Urbana - revista em
"Teorema", simpática e só -, enfim, pecou, e não pouco, pelo messianismo. Mas, OK, Renato Russo teve lá sua missão no campo sexual e blablablá...
De resto? É tudo nobre de doer.
Com habilidade inaudita de driblar chavões, o Ira! fez um disco que não terá o selo mórbido dos
"malditos" -mais que de "malditos", é um apanhado de músicas de gente importante, talentosa, que não se segurou no esquema podre porque não se adaptou.
Ritchie é, aí, a grande figura. Refazer "A Vida Tem Dessas Coisas" - e a releitura é pior que o original!, que fofo - é um comovente grito de coragem. Era mais que hora de a seriedade de Ritchie ser reconhecida, afinal aconteceu.
Mais ou menos isso pode ser dito, em terreno estritamente musical, de quase todo mundo - Tim Maia, Erasmo Carlos, Lobão, Júlio Barroso, Lô Borges, Wander Wildner, o próprio Ira!, Edgard Scandurra solo.
Num nível que poderia parecer caricatural, o mesmo acontece com Dalto e Ronnie Von. Em "Flashback", do primeiro, ouve-se de Nasi: "Eu mereço ganhar o Prêmio Nobel da Paz". Gênio.
Lá no final, na avassaladora "Minha Gente Amiga", Santana solto no gramado, portam a voz de Ronnie Von: "Sou um homem, um homem comum/ Atrás do dinheiro, atrás do amor". Não é isso que todo mundo quer? Gênio.
Talvez falte falar do Ira!, do Ira!.
Dos conflitos divertidos entre seus membros e da tensão/polarização criativa entre duas das figuras-chave do rock nacional - Nasi e Edgard Scandurra - é que toda a química se faz.
Nasi volta altivo, autêntico líder de banda, embora sua voz - é praxe, em sua geração - esteja mais maltratada, precisando ser polida de novo.
A guitarra de Edgard, por sua vez, estraçalha, criva de delícia especialmente "Um Girassol da Cor do Seu Cabelo"
(bem dividida com Samuel Rosa), de Lô e Márcio Borges,
"O Que Me Importa", de Cury, que Tim Maia lançou em seu terceiro disco, de 72, e a catártica alienígena
"Alegria de Viver" (a única que ele canta, com simplicidade).
Algo mais? Ah, sim. "Telefone", da Gang 90, sombria, declamada, com Fernanda Takai choramingando "oh, meu amor, isso é amor", é tudo, é daquelas coisas inacreditáveis que uma boa banda consegue atingir uma vez a cada 76 anos. Falando simples e diretamente? Isso é amor, só. Quem precisa de mais?