08 de julho de 2026
Geral

Desvio de passes

Rita de C. Cornélio
| Tempo de leitura: 5 min

Polícia investiga desvio e venda de passes adquiridos pela Funcraf

Polícia investiga desvio e venda de passes adquiridos pela Funcraf

Texto: Rita de Cássia Cornélio

A Polícia Civil está investigando a venda, no mercado paralelo, de passes de ônibus adquiridos pela Fundação de Deformidades Crânios Faciais (Funcraf), que é ligada ao Hospital de Reabilitação Craniofacial da Universidade de São Paulo (USP), (Centrinho). A venda de passes do Centrinho foi denunciada pelo vereador José Carlos Batata (PT) e, se confirmada, poderá resultar na demissão dos responsáveis uma vez que os passes comprados pela Funcraf deveriam beneficiar funcionários e pacientes do hospital. A polícia já tem pistas dos envolvidos e a direção do Centrinho informou

à imprensa que também está investigando o caso.

A denúncia do vereador foi registrada no 3.º Distrito Policial anteontem à noite. Batata comprou 1.807 passes e, através da série dos tíquetes, confirmou que eles foram adquiridos da Emdurb pela Funcraf. Ontem, o delegado adjunto do 3.º DP, Dinair José da Silva, ouviu, em depoimento, o proprietário de um fliperama localizado na quadra 9 da avenida Rodrigues Alves, onde os passes estavam sendo comercializados. Ele explicou que a venda de passes era feita pelas funcionárias, autorizadas por ele.

O delegado também ouviu uma funcionária do fliperama, Vanilza Rodrigues dos Santos Salles, que confirmou a compra e venda dos passes. "Ela contou que comprava os passes de uma tal de Roberto. Ela não soube explicar se essa pessoa era funcionária do Centrinho ou da Funcraf", ressaltou o delegado.

De acordo com Dinair Silva, a funcionária teria comprado cerca de 2.500 passes a R$ 0,60 cada um para serem revendidos por R$ 0,70 cada um. "Não sabemos quem é esse tal de Roberto que vendia os passes para a funcionária do fliperama", salientou o delegado. Roberto, segundo disse a funcionária em seu depoimento, não havia aparecido no estabelecimento anteriormente.

"Ela alega que foi a primeira vez que comprou passes dele. Como ela não tinha dinheiro para pagar a compra, ele teria deixado os passes pela manhã para receber no período da tarde, assim que ela conseguisse revende-los. Por volta das 12h30, ele teria retornado ao local e pego o cheque, de um terceiro, com o qual a mulher do vereador comprou os passes", contou Dinair Silva.

O delegado garante que esta checando todas as informações.

"Vamos ouvir todas as pessoas, tanto do Centrinho quanto da Funcraf, que por um motivo ou outro mexiam com os passes, na distribuição ou encaminhamento", disse. A polícia quer saber quem fez a compra junto a Emdurb; em que condições; quem pagou e de quem a funcionária do fliperama adquiriu os passes.

O delegado diz que, se ficar provado que os passes foram furtados, as funcionárias do fliperama praticaram o crime de receptação, comprando-os. "Isso em tese. O caso ainda está sendo investigado". Os envolvidos, caso sejam funcionários públicos, serão indiciados em crime de peculato.

Imagem maculada

O superintendente do Centrinho, José Alberto de Souza Freitas, o Tio Gastão, garante que a situação será esclarecida o mais rápido possível. "Tão logo tomei conhecimento, liguei para a Ouvidoria e montei uma comissão para traçar os planos necessários para que isso seja elucidado o mais rápido possível. Não pode demorar, um mês, dois meses", disse.

Ele classificou como grave a situação. "Evidente que essa questão pegou a gente de surpresa e causou um impacto, uma vez que é extremamente grave", afirmou. Tio Gastão promete concentrar esforços para que a imagem do Centrinho não seja maculada com a denúncia.

"Queremos respostas rápidas porque essa pessoa ou essas pessoas estão usando métodos totalmente contrários aos adotados pela instituição", destacou.

Ele explicou que vai consultar o departamento jurídico, mas diz que quer a restituição dos recursos desviados.

"Além da demissão, o funcionário que estiver praticando o crime terá que ressarcir os recursos desviado", afirmou.

Ouvidoria quer Transparência

A Ouvidoria da Universidade de São Paulo (USP) promete transparência nas investigações. A ouvidora Maria Irene Bachega garante que nenhum paciente ou funcionário reclamou a falta de passes. "Nós não recebemos nenhuma reclamação. Vamos investigar junto com a superintendência e temos o maior interesse em resolver o caso o mais rápido possível. Os passes comprados pela Funcraf junto à Emdurb serem comercializados em um fliperama já configura uma irregularidade, que vamos apurar", disse.

Mais sete mil passes

Pelos números apresentados pelo vereador José Carlos Batata, baseado em documento fornecido pela Emdurb, neste mês a Funcraf comprou sete mil passes a mais do que em outubro. O aumento será explicado por uma investigação paralela feita por uma comissão formada pela Ouvidoria da Universidade de São Paulo (USP), pelo setor de recursos humanos e pelo gerente administrativo da fundação.

De acordo com o vereador, o número de passes corresponde ao número de pacientes e funcionários beneficiados com eles. "Além dos funcionários do Centrinho, recebem passes, os pacientes em reabilitação", disse. Batata diz que no mês anterior tentou comprovar a venda irregular de passes, mas não conseguiu. "No mês passado compramos uma cartela, mas a quantidade era pequena para comprovar a irregularidade", contou.

O denunciante, de acordo com o vereador, citou dois nomes de pessoas que estariam desviando os passes. "Nós não conseguimos identificar completamente. Sabemos apenas que um chama-se Roger e, o outro, Martins", disse.

Suspeita

Ontem à noite, no noticiário de uma emissora de televisão, o funcionário de uma agência bancária da cidade reconheceu, através de imagens, um funcionário do Núcleo Integrado de Habilitação e Reabilitação

(NIR), do Centrinho, como a pessoa que teria tentando descontar o cheque usado como pagamento dos passes comprados pelo vereador Batata.

O cheque, no valor de R$ 1.247,40, não teria sido descontado, segundo o gerente da agência, porque havia uma contra ordem do cliente, impedindo o pagamento do mesmo.

O vereador Batata disse ontem que na próxima semana levará a denúncia ao Ministério Público e a apresentará

à Câmara Municipal, para que ambos acompanhem o desenrolar dos fatos.

Compra de passes

* Agosto - 21.500 passes, totalizando R$ 17.200,00

* Setembro - 20.120 passes, totalizando R$ 16.096,00

* Outubro - 20.332 passes, totalizando R$ 16.265,60

* Novembro - 27 mil passes, totalizando R$ 21.600,00