18 de maio de 2026
Geral

Agressividade

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 9 min

Distúrbios, violência, tragédia

Distúrbios, violência, tragédia

Texto: Gustavo Cândido

O atentado que vitimou três pessoas no cinema do Shopping Morumbi, em São Paulo, no último dia 3, deixou o país inteiro chocado. Não só pelo ter crime ocorrido dentro de um ambiente freqüentado por pessoas de maior poder aquisitivo, por um jovem de classe média alta

(os jovens que atearam fogo no índio Galdino, em Brasília, também eram de "boas" famílias), mas pela razão do ato em si, que não estava relacionado ao crime organizado ou visava algum lucro material. Os tiros disparados pela submetralhadora do estudante Mateus da Costa Meira foram frutos de sua realidade particular, gerada por distúrbios mentais, drogas, falta de interesse da família, além da violência presente de uma modo constante na vida de todas as pessoas nesse final de século, que fez com que ele almejasse até a fama pela atitude. Muito já se falou sobre o assunto mas para os pais, com filhos na mesma faixa etária de Mateus, um jovem até a semana passada, considerado normal por todos, uma preocupação específica permanece: como saber que o filho (ou filha), está apresentando algum tipo de problema e pode causar uma tragédia como a da sala de cinema do Shopping Morumbi?

Segundo o médico psiquiatra Marcelo Salomão Aros, Mateus da Costa Meira tem todas as características de alguém que sofre de um transtorno delirante, também conhecido como paranóia. Muitas possibilidades têm sido colocadas sobre os distúrbios do estudante, entre elas a da esquizofrenia e o mero efeito do uso de drogas.

O psiquiatra justifica a sua opinião pela definição médica da esquizofrenia, uma doença que provoca alucinações auditivas e visuais, dificuldades de relacionamentos, entre outros sintomas (veja as características e diferenças no boxe), mas que é desintegrativa, ou seja, provoca a perda da capacidade de pensamento, de cognição. Aros acredita que, se Mateus sofresse dessa doença, não poderia estar cursando o sexto ano de Medicina na faculdade. "É mais provável que ele sofra de paranóia, que apresenta alguns sintomas parecidos com os da esquizofrenia, mas que não

é desintegrativa", explica.

O psiquiatra não descarta, porém, a possibilidade de Mateus ter outro tipo de patologia, chamada transtorno de personalidade do tipo Borderline (limítrofe), onde a pessoa transita do mundo real para um mundo particular, de psicose, onde pode realiza estes atos violentos. Outra possibilidade colocada por Aros é que o estudante possa estar mentindo sobre seus sintomas para escapar ileso da justiça. "Se ele estiver mentindo sobre o fato de se sentir perseguido e ouvir vozes, existe a chance dele ser um sociopata, ou seja, ter um transtorno de personalidade anti-social, o que justificaria o desrespeito com o próximo e as leis e a falta de compaixão com o próximo", explica.

Qualquer que seja o distúrbio apresentado pelo estudante, ele está ligado à formação da sua personalidade e a algum trauma causado nos seus primeiros anos de vida, como uma falta de atenção e cuidado dos pais ou alguma violência sofrida, seja ela física ou psicológica. "Para saber a razão do seu crime é preciso analisar o seu passado desde o nascimento e não apenas o que ele fez nos últimos dias ou semanas. O uso de drogas já indica que ele vinha sofrendo psíquicamente há algum tempo", diz o psiquiatra.

Como identificar

De acordo com o médico psiquiatra e psicanalista João Maurício Bolzan, os pais não têm condições de saber, na infância, se o filho vai fazer algo parecido com o que Mateus Meira fez no shopping em São Paulo, mas eles podem tentar perceber distúrbios logo cedo e na adolescência. Segundo Bolzan estes distúrbios se apresentam de forma diferenciada de acordo com a idade e podem ir se agravando com o tempo. "Por exemplo, um menino de sete anos que fica trancado no quarto, não come, não gosta de passear, não gosta de festa. Aparentemente é um quadro banal, que ninguém considera, mas nesse caso já é preciso que a criança faça uma psicoterapia, porque o comportamento dela não

é normal", diz.

Com certeza a psicoterapia poderia ajudar a prevenir alguma coisa pior no futuro, explica o psiquiatra. O problema, afirma Bolzan,

é que os pais, por estarem afetivamente ligados aos filhos, têm dificuldade em perceber os distúrbios e acham que não é nada grave até acontecer uma tragédia.

"É preciso que eles sejam auto-críticos e percebam que o filho também está sujeito a ter algum problema psicológico, para que se faça uma prevenção. Depois de instalado o quadro é mais difícil controlar", avisa.

Bolzan alerta que os pais devem ficar de olho no comportamento dos filhos, principalmente na adolescência, onde tudo é confundido com rebeldia da idade. "A procura excessiva por

álcool, drogas, gasto desmesurado de dinheiro, o comer exagerado, o isolamento e posturas agressivas em geral, são sintomas de algo pode não estar bem", diz Bolzan. O psiquiatra afirma, logicamente, que nem todos os jovens que apresentam estas características sofrem de algum distúrbio, mas se há algum tipo de dúvida dos pais, o ideal

é procurar um especialista. "Nós não temos a tradição de fazer check-ups, quanto mais check-ups psicológicos em crianças e jovens, mas

é melhor prevenir do que remediar".

A violência na sociedade

Atos violentos sempre existiram, mas quando eles passam dos limites, como no caso de chacinas e na morte das três pessoas no shopping em São Paulo, é sinal que alguma coisa não está bem. Segundo a psicóloga, Profª. Drª. Marilene Krom, uma síntese fornecida pela American Psychological Association, explica em cinco pontos, o que está acontecendo na atualidade:

1 - Embora a violência seja uma ameaça potencial a todos os menores, alguns grupos são mais vulneráveis que outros. Existem menores de altíssimo risco eles podem ser identificados logo cedo. O risco decorre de condições sociais e econômicas que criam circunstâncias difíceis de vida, nas quais a violência prospera. Há igualmente grupos particularmente mais vulneráveis, em virtude de preferências sexuais, de crenças religiosas ou de condições físicas, que são encaradas com preconceito e hostilidade.

2 - A experiência de vida nos primeiros anos desempenham papel decisivo na aprendizagem de comportamento violento ou de comportamento não violentos e eficazes. As crianças tem mais possibilidades de se tornarem agressivas e se envolverem em violência mais tarde quando experimentaram em sim mesmas ou testemunham violência ou abuso dentro de sua casa e comunidade, quando não contam com apoio emocional dos adultos ou ainda quando recebem encorajamento ou pressões de companheiros para que sejam violentas.

3 - A exposição à mídia que glorifica a violência, o acesso fácil a armas em geral e particularmente armas de fogo aumentam a legalidade de envolvimento agressivos

- e a disponibilidade e o consumo de bebidas alcoólicas e outras drogas contribuem para a freqüência de comportamentos agressivos que poderão, em separado ou em conjunto, ajudar a perpetuar a violência.

4 - Intervenções eficazes na prevenção e no tratamento da violência podem ser implementadas de vários modos, entre os quais pelo treinamento de pais e apoio a estes, programas pré escolares ou centrados em escolas de nível elementar, médio e até superior, monitoria e apoio para grupos de companheiros e apresentações por meio da mídia com atividades de extensão positivas, pacíficas, pró sociais, como é preferível denominar esse tipo de atividade na linguagem psicológica. Atividades pró-sociais são esporte, recreação, lazer, fundamentais nesse sentido. As oportunidades para a criança aprender, adotar e usar os seus recursos interiores são tanto mais eficazes quanto mais cedo possam ser introduzidas em sua vida, apresentadas de modo coordenado ao longo de muitos domínios sociais, ajustadas a prioridades comunitárias e culturais e repetidas e expandidas de modo sistemático a longo prazo, durante os seus anos de crescimento.

5 - As pesquisas psicológicas demonstraram que, embora seja cada vez mais freqüente e letal, a violência não

é inevitável. Algumas crianças que crescem sob as circunstâncias mais adversas não se tornam violentas. Precisamos saber mais a respeito dos mecanismos que protegem essas crianças de adversidades ambientais. É o fenômeno batizado com um sugestivo nome de resiliência, as crianças que surpreendentemente parecem ser mais resistentes a essas adversidades do que as demais.

A psicóloga sugere alguns pontos para que se reduza a violência:

* Vontade política e ações integradas

* Maior incentivo a educação e à saúde.

* Enfase à Educação Integral da criança e adolescente.

* Projetos de Atenção e Apoio à família, ao jovem e à criança.

* Lutar contra a ideologia pessimista.

* Compromisso de todos na conduta de "inclusão" que implica em nos sentirmos parte e em co-responsabilidade com tudo, nos incluindo no contexto que nos cerca, assumindo o compromisso de construir um mundo melhor para todos nós.

Os principais distúrbios mentais

Transtorno de personalidade

O portador tem um distúrbio de caráter, é frio, impulsivo e tem plena consciência de seus atos (personalidade psicopática). Pode ser uma pessoa manipuladora, chantagista.

Esquizofrenia

Doença mental, desintegrativa, que provoca idéias delirantes, alucinações auditivas e visuais, dificuldades de relacionamento afetivo e desagregação do pensamento

(idéias embaralhadas, ruptura de pensamento). Os pacientes têm uma diminuição da sensação de prazer e vontade. Principalmente durante os surtos pode haver comportamento de auto-agressão ou agressão aos outros. Os riscos se acentuam em pacientes jovens, com envolvimento com drogas e naqueles que não aderem ao tratamento.

Paranóia

Pacientes sofrem delírios que podem ser de quatro tipos: persecutório (mania de perseguição), de ciúmes, de grandeza e delírios religiosos místicos. A doença pode causar também alucinações auditivas. Mas o indivíduo paranóico não tem desagregação de pensamento nem distúrbio afetivo como o esquizofrênico. Sua personalidade é mais preservada.

Obs: Segundo especialistas, o abuso de álcool ou drogas excitantes, como cocaína e crack, são importantes fatores desencadeantes de comportamentos violentos para quem sobre de qualquer um desses distúrbios.

Seu filho pode ter um distúrbio mental

Os pais devem ficar atentos se os filhos apresentarem os seguintes sintomas:

* Discurso defensivo, com argumentações de que se sente perseguido

* Indiferença pelos sentimentos alheios

* Apego exagerado à atividades religiosas ou fanatismo em geral

* Dificuldade em manter um relacionamento social, o jovem prefere se isolar e falar pouco

* Dificuldades de relacionamento sexual

* Desrespeito a normas sociais e leis

* Dificuldade de assumir culpas e propensão a culpar outras pessoas

O psiquiatra João Maurício Bolzan destaca, porém, que nem sempre os sintomas descritos acima vêm juntos, ou na mesma intensidade. Muitas vezes o jovem pode apresentar alguns sintomas outros não. "A personalidade se desenvolve por setores, o setor que estiver mais estruturado não vai demonstrar problemas", diz.