Itália irá discutir os caminhos da Biotecnologia
Itália irá discutir os caminhos da Biotecnologia
Você já deve ter ouvido falar desses tais de alimentos transgênicos, não é? Pois é , o assunto está em pauta, tem muita gente falando e quase todo mundo não está entendendo direito o que está acontecendo. Trasgênicos é mais ou menos assim, os cientistas alteram o DNA (Ácido Desoxirribonucleico), onde encontram-se as informações genéticas de uma planta, inseto ou animal para que, por exemplo, uma fruta possa ficar mais resistente ou mais saborosa.
Com o tomate aconteceu algo interessante. Descobriu-se que há nesta fruta - dublê de legume - uma substância capaz de reduzir alguns tipos de tumores em seres humanos. Os pesquisadores estudaram e descobriram qual era o tipo de proteína que estaria causando tal benefício e assim modificaram geneticamente novos tomates capazes de produzir uma quantidade maior da substância.
O desafio e a dúvida são: o tomate continuará com a mesma textura e gosto? Essa proteína "superfaturada" não irá prejudicar outros ingredientes que fazem parte da composição natural de um tomate? Será que num processo natural de polinização outras plantas não sofrerão alterações a partir dessa mudança? Será que a cura do câncer vai acontecer só porque aumentamos quantidade de proteína da fruta?
Duvidas é o que não faltam. No caso da soja é prevista a produção de grãos inférteis, para que não haja "pirataria" do novo produto, registrado pela empresa que a modificou. Assim a empresa garante o seus investimentos em pesquisa, o que é justo, mas, em contrapartida, os pequenos produtores que guardam os melhores grãos para o plantio da safra seguinte ficarão reféns das indústrias de grãos. Se os frutos não germinam e só serve para comer, o lavrador que quiser plantar e colher de novo tem que anualmente comprar as sementes férteis que só aquela empresa "fabrica".
Eu pergunto: E quem vai pagar os royalties - espécie de direitos autorais- da natureza, que gerou, sem nos cobrar nada, a matéria-prima que hoje estamos modificando? Eu como "sócio", membro e parte integrante da vida neste planeta quero a minha a parte, ou pelo menos saber direitinho o que andam fazendo por aí, especialmente quando essas transformações dizem respeito ao meu futuro e, pior, irão
virar marca registrada de alguém.
Preocupar-se com isso não é ir contra aos avanços da ciência. A biotecnologia nos ajuda e muito, mas é preciso saber como fazemos e de que forma aplicaremos tais transformações. Para discutir isso tudo e um pouco mais, a Itália abre suas portas para o debate. Para discutir as questões éticas da ciência, o monitoramento dos riscos para o homem e o ecossistema e a qualidade das informações que chegam até as pessoas do mundo, Organização das Nações Unidas para a Ciência, Cultura e Educação Unesco), e a Universidade de Gênova estão preparando a II Conferência Internacional sobre "Biotecnologia e Sociedade no Século XXI".
O evento começa dia 24 de maio de 2000, simultaneamente
à 1ª Mostra Internacional e Congresso de Biotecnologia
(TEBIO), considerado o primeiro grande evento italiano inteiramente dedicado ao tema. Durante a conferência, cientistas, professores, comunicadores e autoridades ligadas à educação e ciência de vários países, entre outros assuntos, estarão discutindo rumos éticos para uma relação mais sadia entre ciência e a sociedade. Um desafio que deverá estimular uma ampla e necessária reflexão sobre o impacto das novas descobertas perante as populações.
As implicações sociais da biotecnologia, a bioética, a biossegurança, as relações entre homem e a natureza, os desequilíbrios sociais, as novas tecnologias e as diferentes formas de comunicação, a produção e a socialização do conhecimento e, principalmente, suas condutas éticas deverão pautar o acontecimento.
A programação oficial da II Conferência Internacional sobre Biotecnologia e Sociedade no Século XXI está em fase conclusão. A ScienceNet voltará ao assunto nas próximas edições. Enquanto isso vamos ficar ligados nas coisas do mundo, porque somos parte dele e responsáveis por ele.
(* ) Luís Victorelli é jornalista científico do Centrinho/USP. Professor do Curso de Jornalismo da USC e diretor-executivo do Canal Universitário de Bauru (CNUB). Participou, à convite da Unesco, como conferencista da 2ª Conferência Mundial e Jornalistas de Ciências em Budapeste, Hungria.