08 de julho de 2026
Geral

Arte na prisão

Fabiano Alcantara
| Tempo de leitura: 3 min

Arte: antídoto contra a violência

Arte: antídoto contra a violência

Texto: Fabiano Alcantara

Presos participam de programa de recuperação na Penitenciária I de Bauru fazendo arte; grupo de pintores afirma ter descobertos novos valores e desenvolvido potencialidades na cadeia

A vida na cadeia não é fácil, mas a arte pode criar novas perspectivas para os condenados, basta boa vontade e iniciativa. É o que prova o trabalho desenvolvido na Penitenciária I de Bauru, que oferece cursos de pintura e música para os presos.

Desenvolvido pelo professor Waldir Ferraz de Camargo há um ano e meio, o curso de pintura a óleo sobre tela da Funap - fundação que mantém uma escola no presídio - começa a revelar seus primeiros pintores.

A reportagem do JC Cultura esteve na penitenciária para conhecer os trabalhos dos artistas que pintam quadros contra o tédio e o vazio existencial dentro da cadeia.

"Nossa proposta é acabar com o estigma que cercam os setenciados, queremos mostrar que todos têm capacidade desde que tenham apoio", afirma o professor Camargo, que também dá aulas de geografia em uma escola de Bauru.

A reportagem foi recebida por ele e três artistas-pintores em um ateliê adaptado. Nada diferente de um ateliê comum, não fossem as grades grossas e ameaçadoras. Na cadeia, liberdade é um estado de espírito, nunca realidade.

O ambiente

Desde a porta de entrada, o cenário parece um livro de Kafka, os portões são altos e de ferro e o clima

é denso. Logo na entrada, a mala do fotojornalista, onde o equipamento é carregado, é vistoriada. Ninguém entra com telefone celular no presídio. Uma lista do lado de fora exibe os objetos e alimentos permitidos. Não vale nada que possa virar arma ou meio de facilitar uma fuga. Presos fazem túneis de quilômetros com simples colheres. Circunstâncias. Alguém cita do dito popular: "tédio

é a morada do demônio". O que mais há para fazer na cadeia é ficar sem fazer nada.

Entramos na prisão e o ambiente assusta quem não está acostumado. Parece um filme, mas não é um filme. As pessoas falam baixo, as vozes se confundem.

Os presos fazem fila para entrar no "raio", região onde ficam as celas. Os raios são áreas quadrangulares, com uma saída para um imenso corredor. Passamos dois portões de grade e chegamos no ateliê improvisado.

Por determinação da direção do presídio os presos-pintores não podem ter suas falas reproduzidas na entrevista. A reportagem conversa com Roberto Nogueira, Rogério Simões e Roberto Ferreira. Os três são unânimes: a arte melhora a qualidade de vida dos presos.

Além de mais dispostos e confiantes, os pintores encontram na arte uma nova profissão. Segundo o professor Camargo, Roberto Nogueira já pode ser considerado um bom artista plástico, poderia viver de arte e garantir seu afastamento definitivo dos crimes.

"Os reeducandos (presos) que participam do curso não têm o vício das drogas e reconhecem terem descoberto novos valores íntimos, proporcionados pela capacidade de criar e desenvolver a arte da pintura expressos em belos quadros", afirma o professor Camargo.

Em tempos de violência, catalisada, principalmente em quem historicamente sai prejudicado, a população (quase sempre) negra e de baixa renda, a experiência na penitenciária

é um exemplo a ser seguido. Mais que um hobby ou profissão, a arte é um antídoto contra a violência.