Espírito aventureiro
Espírito aventureiro
Texto: Gustavo Cândido
Fim de semana prolongado. Enquanto a maioria das pessoas vai aproveitar a folga extra, ele vai estar em algum lugar, no mínimo, incomum, escalando, mergulhando ou simplesmente explorando - a pé ou de bicicleta - o local. O produtor gráfico Carlos Cubas é assim, um aventureiro por natureza. Nascido em São Carlos, no Interior de São Paulo, sua vida de andanças pelo Brasil começou cedo, por causa do pai, funcionário de uma multinacional, que mudava muito com a família. "Acho que tenho mais de trinta mudanças nas costas", conta. Com o tempo passou a viajar sozinho, para conhecer lugares que sempre sonhou, como Machu Pichu, no Peru. Sua última viagem, na semana passada, foi para o Parque Nacional de Ibitipoca, em Minas Gerais, "um dos lugares mais lindos que já conheci", diz. Carlos Cubas falou sobre suas viagens e aventuras pelo mundo ao JC.
Jornal da Cidade - Como foi sua última viagem?
Carlos Cubas - Foi para Ibitipoca, e Minas, é um parque nacional com formações de quartzito, o parque inteiro tem grutas de quartzo. A segunda maior gruta de quartzo do mundo fica lá. A água também é cristalina. É muito bonito, um dos lugares mais legais, mais bonitos que já conheci.
JC - Desde quando você este costume de viajar nos fins de semana ou feriados para lugares "incomuns", assim?
Cubas - Desde que eu fui para a Ilha do Mel, no Paraná. Tinha uns 17 ou 18 anos. Sempre quis ir para lá e conhecer a Serra da Graciosa também, ouvia histórias. Uma vez, na minhas primeiras férias, decidi que ia. Como não tinha ninguém para ir comigo, fui sozinho mesmo. Chegando lá acampei e acabei ficando lá quase um mês inteiro, fiz alguns amigos.
JC - Depois disso você começou a viajar mais?
Cubas - É, um pouco. Como não tinha muito dinheiro fazia sempre o mesmo esquema da Ilha do Mel, de não gastar muito, acampar... Também viajei muito de bicicleta, aqui por perto. Sempre gostei de viajar.
JC - Você sempre andou de bicicleta?
Cubas - Sempre, ia para a escola, para o trabalho, fazia tudo com a bicicleta, peguei o costume?
JC - Sempre viaja de bicicleta ou não?
Cubas - De vez em quando. Para viajar de bicicleta é preciso tempo, como nunca tenho muito, só vou de vez em quando. Já desci a Serra da Graciosa umas três vezes de bicicleta, fui para a Espanha... Mas ando mais com ela por aqui por perto.
JC - Que lugares interessantes você conhece no Brasil?
Cubas - Conheço Itatiaia, Ibitipoca (agora), a Chapada Diamantina, as serras do Rio Grande do Sul, algumas ilhas do Paraná, isso fora Parati e o litoral paulista, onde vou sempre. É pouco ainda, tenho muitos lugares para visitar.
JC - Mas você tem tempo, não é? Pretende continuar a viajar?
Cubas - Claro, sempre.
JC - De onde vem essa vontade de conhecer lugares novos, arrumar a mochila e ir? Muita gente não teria coragem.
Cubas - Não sei, não acho que fui influenciado por alguém. Eu estava a fim de ir, achei um esquema viável de dinheiro e fui. Eu sou muito econômico, só gasto o necessário, não viajo para comprar coisas, mas para conhecer lugares e, principalmente a cultura local e as pessoas. Gosto de ficar no meio do povo, de acampar. Depois que descobri como viajar e gastar pouco, sai pelo mundo. Eu gosto de conhecer cada vez mais. Fiquei em Lima, no Peru, por três dias e não agüentava mais fica parado, tinha que conhecer outros lugares. Tinha que ficar lá por causa do vôo.
JC - O contato com o povo é o que mais atrai você?
Cubas - Junto com a paisagem do lugar, é claro. Por exemplo, agora em Ibitipoca. Ficamos numa pousada, eu e uns amigos. Se tivesse ficado no local de camping, que tem no parque, teria feito muito mais amigos, conhecido mais gente, porque as pessoas ficam ali do seu lado, têm que se comunicar. Em Itatiaia, no camping, as pessoas se aproximavam. Quem freqüenta estes locais são pessoas legais, gente boa.
Na Bolívia foi assim também, fui sozinho e fui encontrando gente pelo caminho que me ajudou, deu orientação. Quando você vê, está com um monte de gente na mesma situação ao seu lado. Encontrei um pessoal de Belo Horizonte e ficamos todos na mesma "roubada", quando está todo mundo no mesmo barco, é mais fácil, todo mundo se ajuda. Conhecer várias pessoas também deixam a viagem mais barata, elas indicam os lugares mais baratos para se comer, dormir...
JC - Quando você foi para a Bolívia, Peru e Espanha, nunca teve problemas de comunicação?
Cubas - Não. As pessoas também estão interessadas em saber de onde você é, o que faz, então existe uma troca natural de informações. Uma vez na Bolívia, comprei uma passagem e sentei em um banco para esperar o ônibus, ao meu lado tinha um cara tocando violão, tocava "Starway to heaven", muito mal. Toquei uma música do Mettalica, começamos a falar de música e o cara contou todo sobre ele e sobre o local, acabamos trocando informações legais. Ele tinha curiosidade eu também, então a gente se entendeu. O Brasil ainda é pouco conhecido lá fora. É um absurdo.
JC - Por exemplo?
Cubas - As pessoas não tem noção que aqui nós podemos entender espanhol porque o português
é tão parecido, por exemplo. Na Espanha achavam que aqui só tinha carnaval e morte de criancinhas, só viam o lado negativo de muitas coisas. Muitos pacotes turísticos na Espanha sobre a América do Sul não falavam do Brasil. Alguns até falavam do México, como se fosse no sul. O Brasil precisa trabalhar mais o seu turismo.
JC - Nunca aconteceu uma situação de perigo nessas viagens?
Cubas - Não, nunca. No Brasil acho difícil. Eu gosto de roteiros ecológicos, parques nacionais, quem vai nesses lugares é gente boa. Fora do Brasil menos ainda. Quando se está em trânsito é mais difícil acontecer alguma coisa. Vi muitas meninas viajando sozinhas pela Europa, não tem perigo. O "trem da morte", na Bolívia todo mundo diz que é perigoso, mas é lenda, no fim da viagem todo mundo fica amigo. São pessoas simples que viajam neste trem, não bandidos. É claro que em alguns lugares, como em Lima, existe uma presença maior de militares, tanques na rua, mas isso não atrapalha ou coloca em risco sua viagem.
JC - Por que Machu Pichu, alguma razão mística?
Cubas - Não, não sou místico, fui porque sempre achei que lá era legal. Foi o mesmo esquema da Ilha do Mel. E realmente é impressionante, a tecnologia que os incas tinham naquela época era absurda, demais. As construções já eram protegidas contra terremotos e coisas deste tipo. Subi a trilha dos incas a pé, foi uma grande experiência, cheguei a ir a Nazca, onde existem aquelas linhas no chão, é demais.
JC - E Santiago?
Cubas - Também fiz sem nenhuma intenção mística. Demorei 10 dias, de bicicleta, são 830km. Pensei que fosse mais fácil, mas foi bom. Quando se está no caminho muita gente incentiva e isso acaba fazendo você ir até o fim. As maiores atrações lá são as construções, a história do país, que é antigo, as lendas. Mas são atrações diferentes de Machu Pichu, por exemplo, que impressionam mais.
JC - Onde ficou nessas viagens?
Cubas - Acampei, fiquei e pousadas e albergues. Os brasileiros não têm costume de usar albergues, até aqui no Brasil mesmo. Existem muitos e são bons, ninguém usa, só quem vem de fora. Na Europa um monte de gente usa os albergues. São bons lugares para encontrar pessoas de todo mundo e aprender a língua. Conheço uma menina que aprendeu a falar hebraico em albergues aqui no Brasil mesmo. Na Espanha fiz amigos do México, do Quênia e até da Rússia, em um albergue.
JC - E os esportes radicais, estão sempre nas suas viagens?
Cubas - Não, nem sempre as coisas coincidem, mas quando dá... Gosto de escalar, fazer rapel e agora mergulhar que eu comecei e gostei. Quando o lugar favorece, eu pratico porque já conheço as técnicas. No Petar (Parque Estadual do Alto da Ribeira) eu conheci muitas técnicas e equipamentos para fazer várias coisas que o turista normal não faria. Na Chapada Diamantina também existem trilhas de trekking e esquemas de esportes radicais. Mas é claro que não é para qualquer um fazer, tem que conhecer as técnicas. Como eu gosto de roteiros de aventura ecológico, agito os dois.
JC - Qual o lugar mais legal que você conheceu?
Cubas - Ibitipoca tem muita coisa exótica, muita cachoeira, caverna. Machu Pichu também foi marcante para mim.
JC - Qual a próxima grande viagem marcada?
Cubas - Quero ir para o Chile, conhecer a Patagônia, o gelo mesmo e depois subir até o deserto de Atacama e voltar pela Bolívia. Estou recolhendo informações sobre o país e tenho um amigo em Santiago (que conheci na Espanha), ele está me ajudando. No futuro ainda pretendo conhecer o Nepal e o Tibet, também já estou recolhendo informações sobre estes lugares e pesquisando.
Serviço
Quem quiser entrar em contato com Carlos Cubas e obter alguma informação sobre suas viagens, ou combinar outros roteiros de aventuras pode entrar em contato através do seu e-mail: cubasbr@yahoo.com.