08 de julho de 2026
Geral

Abertura de cursos

Adriana Rota
| Tempo de leitura: 4 min

Mercado e qualidade preocupam dentistas e estudantes

Mercado e qualidade preocupam dentistas e estudantes da área

Texto: Adriana Rota

Profissionais e estudantes de odontologia de Bauru aprovam a medida tomada pela Associação Paulista de Cirurgiões Dentistas (APCD) no sentido de controlar a quantidade de escolas da área que, anualmente, colocam no mercado cerca de 7 mil dentistas só no Estado de São Paulo. O processo movido contra o Ministério da Educação e do Desporto (MEC) corre desde fevereiro deste ano, sem avanço. Por isso a associação pretende pressionar a Justiça utilizando-se dos veículos de comunicação para expor a problemática.

Em Bauru, dentistas e estudantes mostraram-se preocupados não só com a saturação do mercado nos grandes centros, especialmente da região sudeste, mas com a qualidade do ensino oferecido por estas escolas que, na opinião deles, visam o lucro mais do que a preocupação com a educação e a saúde pública. "É preciso haver uma fiscalização da qualidade de ensino. Existe muita facilidade para abrir um curso, não só de odonto, mas de qualquer outra coisa", opinou a cirurgiã-dentista Luciana Avallone.

Sua colega de profissão, Carmen Lygia Antunes Boro, concorda.

"Acho muito interessante essa atuação da associação. A medicina, por exemplo, consegue se preservar porque tem um conselho atuante. Sou formada há 20 anos e percebo a queda na formação dos novos dentistas. Por que você acha que existe tanto curso de especialização?", questionou. Para ela, é o resultado de deficiências durante a graduação.

Um grupo de estudantes do primeiro ano de odonto da USP também aprova a medida da APCD. "A qualidade tem caído e a gente percebe isso vendo a nota dos provões. Muitos estudantes investem alto e acabam se iludindo. Outra coisa preocupante é a facilidade para entrar numa faculdade particular, geralmente daqueles que têm mais condições financeiras. Eles conseguem montar consultórios superequipados rapidamente, mas nem sempre têm a formação necessária", destacaram Jhanni M. Ribeiro de Jesus e Ana Carolina Magalhães. Os estudantes acham que existe campo para todos, mas apontam a necessidade de incentivo para que os profissionais se encaminhem para regiões pobres em atendimento odontológico.

"Abertura indiscriminada"

O presidente da APCD, José Silvestre, qualifica a aprovação de novos cursos de odontologia por parte do MEC como uma "abertura indiscriminada" porque é centralizada em alguns locais específicos do país, enquanto outros - principalmente na região norte - carecem de atendimento odontológico. Ele explicou que a ação judicial solicitava uma medida cautelar que paralisasse a abertura de escolas a partir de fevereiro deste ano, o que foi negado. "Desse tempo para cá, duas passaram a funcionar na Capital e três ou quatro no Interior", indignou-se.

A ação em trâmite no Superior Tribunal de Justiça (STJ) tem como base um decreto presidencial que determina a obrigatoriedade do parecer do Conselho Nacional de Saúde para a criação de escolas de odonto, levando-se em consideração fatores como o potencial, a situação geoeducacional e a necessidade do curso em determinado local. Essa determinação não estaria sendo cumprida à risca.

Para Silvestre, falta empenho do Governo em atuar na área de saúde bucal que, utilizada preventivamente, representaria economia aos cofres públicos, bem-estar para a população em geral e grande absorção de mão-de-obra dos profissionais de odontologia. Hoje, concursos públicos na área são raros segundo ele e a remuneração

é baixa.

Auto-regulação

O ex-delegado seccional do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (Crosp), gestão 97-98, e professor titular de Saúde Coletiva do Departamento de Odontopediatria, Ortodontia e Saúde Coletiva da USP-Bauru, José Roberto de Magalhães Bastos, atribui à política neoliberal do Governo Federal as atitudes observadas nos últimos anos. "Enquanto o mercado comportar, continuarão sendo abertas faculdades. A atitude da APCD é louvável, mas não cabe a ela nem ao Crosp decidir sobre isso. Não temos injunção legal, talvez política", afirmou. De acordo com o titular da APCD, é justamente a lógica de mercado a justificativa apresentada pelo ministro Paulo Renato de Souza para a aprovação das escolas.

Glamour

Silvestre e Bastos também concordam que o glamour da profissão ainda é responsável pela grande procura nos vestibulares.

"Há uma crença de que a odontologia dá muito dinheiro. Isso já ocorreu, mas, hoje, é uma inverdade", disse Bastos. Essa busca por um padrão de vida razoável, na opinião de Silvestre, estimulou as famílias a encaminharem os filhos para a profissão.

"Os empresários, com um objetivo unicamente comercial, perceberam que haveria demanda", afirmou. O presidente da APCD acredita, no entanto, que as pessoas estão se apercebendo disso, daí a sobra de vagas em muitas escolas.

Números da odontologia

113 faculdades no Brasil, sendo 40 no Estado e três em Bauru. Santos, Ribeirão Preto, Mogi das Cruzes, São José dos Campos, Campinas e Bauru têm, juntas, 15

7 mil dentistas formam-se anualmente só em São Paulo. Em Bauru, são mais de 200

140 mil dentistas atuam no País hoje, sendo 56 mil no Estado

- média de um para 500 habitantes, quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) determina um para 1.500. Bauru tem 899 registros de atuação