08 de julho de 2026
Geral

Assalto a ônibus

Adriana Rota
| Tempo de leitura: 10 min

Bauru tem um ônibus assalto por dia

Bauru teve quase um assalto a ônibus por dia neste mês

Texto: Adriana Rota

Os assaltos a ônibus preocupam cada vez mais os motoristas, cobradores, passageiros, o sindicato da categoria, as empresas e a Polícia Militar. O motivo: houve quase um assalto por dia só no mês de novembro. Na noite de segunda-feira foram registradas quatro ocorrências e, nas primeiras horas de ontem, mais uma, provavelmente cometidas pela mesma pessoa. Por volta das 15 horas, mais um roubo, demonstrando que os coletivos vazios, geralmente no período da noite, já não são mais o único alvo dos assaltantes.

Um levantamento fornecido pela Polícia Militar demonstra um crescimento preocupável ao longo do ano. Em janeiro, houve cinco assaltos, que atingiram o pico de 13 em abril. Os números sofreram uma diminuição momentânea depois de maio, quando várias pessoas foram identificadas e detidas. Acredita-se que elas tenham sido responsáveis por grande parte das ocorrências registradas até então. De julho para agosto um salto de três para 11 casos anunciava o recorde do ano até o momento: 21 no mês de novembro, totalizando 101 no ano. Em 1998, o total até este mês estava na casa dos 50 assaltos.

A Delegacia de Investigações Gerais/Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos (DIG/Garra) e o 1.º Distrito Policial, responsável pela área mais problemática da cidade - região Noroeste, que engloba Parque Jaraguá, Núcleo Fortunato Rocha Lima, Bauru XVI e imediações

-, desenvolvem ações rigorosas com o objetivo de identificarem os responsáveis pelos assaltos. Alguns já foram detidos após investigações da Polícia Civil ou pegos em flagrante pela ação da PM, outros foram liberados por benefício da lei.

A maior parte deles utiliza armas de fogo, mas dispõe, também, de armas brancas, geralmente facas, paus, barras de ferro, dentre outras, mais fáceis de serem obtidas. As suspeitas da PM e as constatações da Polícia Civil dão conta de que os pequenos valores obtidos - geralmente menores que R$ 30,00 - são gastos no vício das drogas, especialmente o crack. De acordo com o titular da DIG/Garra, J.J. Cardia, a faixa etária dos assaltantes, na maior parte das vezes desocupados, é dos 16 aos 21 anos. "Eles fazem isso pela facilidade e uma necessidade momentânea", assinalou.

Segundo o capitão Benedito Roberto Meira, subcomandante interino do 4.º Batalhão da Polícia Militar

- Interior (BPM-I) e o titular do 1.º DP, Marcelo Haddad, o maior problema para a identificação dos assaltantes

é a demora dos motoristas ou cobradores na ligação para o 190. "Eles preferem avisar a empresa antes e, quando procuram a polícia, fica apenas o registro. Às vezes, deixam todos os passageiros antes de fazerem a ligação", explicou Meira. O ideal seria que procurassem informar o maior número de características possíveis do assaltante, o quanto antes, seja de um orelhão ou do telefone de uma casa das imediações. "Embora as quantias pareçam irrisórias, é um roubo, uma violência", completou. Para Haddad, embora o número de assaltos seja alto, a situação não está fora do controle. "Existe um trabalho conjunto entre as polícias civil e militar", disse.

Blitz

Fruto de diversas reuniões entre representantes das empresas de ônibus, sindicato da categoria, Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb) e as polícias civil e militar, há pouco mais de um mês vêm sendo realizadas paradas aleatórias de coletivos por parte de policiais em ronda normal de trabalho, durante as quais os passageiros são inteirados sobre o assunto, recebem orientações para jamais reagirem em caso de roubos e alguns são revistados. Este trabalho é realizado entre as 18 e 24 horas, sendo que a maior incidência de roubos é registrada entre 21 horas e a meia-noite. Cada viatura fica encarregada de abordar pelo menos três carros por noite. Até o momento ninguém teria reclamado por sentir-se lesado, segundo a polícia e alguns cobradores entrevistados. "Um ou outro não gosta muito do atraso, mas compreende a importância disso", disse um dos cobradores.

PM trabalha no limite

O subcomandante interino do 4.º BPM-I, capitão Meira, salienta que a PM não está parada, ao contrário, faz o máximo dentro de suas possibilidades. "Este ano já apreendemos 174 armas de fogo e 600 pessoas, o que equivale a uma penitenciária. Destas, 221 foram recapturadas e, o restante, presas em flagrante delito. Quanto aos bancos, em 1998 houve oito assaltos. Este ano, apenas um posto bancário".

Uma política de coação específica de crimes em ônibus para o final do ano está descartada pelo menos no momento, segundo o capitão. Ele afirmou que o número insuficiente de policiais e viaturas, que precisaria ser pelo menos dobrado, inviabiliza uma ação intensiva, embora a incidência de assaltos em ônibus esteja em terceiro lugar no total - de 773 até a tarde de ontem -, superado apenas pelo roubo a estabelecimentos comercias e a transeuntes.

Segundo Meira, o próprio governador Mário Covas já anunciou a impossibilidade de melhorar esta situação, tentando encontrar soluções diferenciadas para o caso, como o trabalho conjunto entre as polícias civil e militar e a mudança de rotina no encaminhamento da ocorrência.

"Hoje o policial atende à ocorrência e vai com a viatura até a delegacia para registrá-la. Lá, encontra o delegado sobrecarregado e tem de esperar às vezes por horas seguidas, o que prejudica o trabalho preventivo. A idéia, que está sendo empregada experimentalmente em São José do Rio Preto, é só dar solução imediata ao que realmente for necessário. Isso já representou um ganho de 240 horas no patrulhamento preventivo em um mês", explicou.

Ele não soube precisar o motivo exato da oscilação na quantidade de assaltos a ônibus durante o ano, mas destacou que, além do fator social, a mídia também contribui para i aumento da criminalidade, uma vez que as notícias despertam a atenção e dão "idéias", especialmente se os criminosos forem bem-sucedidos em seus "empreendimentos".

Empresas defendem trabalho conjunto

José Edson Alves, gerente operacional da Empresa Circular Cidade de Bauru (ECCB) e Hélio Meneghin, diretor da empresa Cidade Sem Limites (TUA) acreditam que é necessário um trabalho conjunto entre os diversos segmentos envolvidos no assunto para que se consiga amenizar ou, se possível, zerar a quantidade de assaltos a coletivos. Ambos destacam, ainda, que as blitze da polícia surtiram um grande efeito ao serem implantadas, mas já estão com os efeitos minimizados.

"Dentro das condições da PM, acho que ela poderia intensificar o trabalho, de preferência as 24 horas do dia", opinou Meneghin. Ele informou que a empresa tem um prejuízo mensal médio de R$ 3.500,00, além do baixo rendimento dos funcionários submetidos à constante tensão. Disse, ainda, que os motoristas e cobradores são orientados a avisar a empresa antes de lavrar o boletim de ocorrência, o que é feito em companhia de um funcionário do departamento jurídico.

Alves defende a realização de reuniões com periodicidade mensal entre as partes envolvidas no assunto, a fim de tentar rastrear os responsáveis pelos assaltos. Ele cita três roubos ocorridos num período inferior a uma hora no último dia 18 os quais, pelas características, foram cometidos pela mesma pessoa em bairros distintos. O prejuízo mensal com assaltos está entre R$ 2 mil e R$ 3 mil. Ainda assim, considera "complicado" investir em equipamentos de segurança, como câmeras no interior dos ônibus, devido ao alto custo deste procedimento - mesma opinião de Meneghin. Por enquanto, a ECCB prefere colaborar com a polícia orientando os funcionários a comunicarem a ocorrência brevemente e transmitirem o maior número possível de informações sobre o assaltante.

Motoristas, cobradores e passageiros vivem tensão

Cinco assaltos em quatro anos de profissão. Estes números já pressionaram o cobrador da linha Jaraguá/Beija Flor da ECCB, Amilton Firmino dos Santos a tentar uma vaga na sua antiga ocupação, a digitação, em muitas ocasiões. "O primeiro foi em 1995, os segundo e o terceiro num prazo de dez dias e os últimos no intervalo de dois meses. Três dos roubos foram no ponto final e dois no percurso", contou. O segredo para manter a calma, segundo ele, é fazer o que o assaltante pede. "O que você não pode é provocar confronto. Ele chega e eu já pergunto se tem um saquinho para guardar o dinheiro", relatou.

Seu companheiro de trabalho, o também cobrador Valdemir Donizete Cândido, tem 1 ano e 8 meses de profissão e nunca foi assaltado, mas disse já ter ouvido muita história e viver uma tensão constante, compartilhada pela família.

"A gente tem medo porque é alvo fácil e nunca sabe o que pode acontecer durante o dia", disse. Outra preocupação

é que cada empresa estipula um valor máximo que pode permanecer no caixa. Se durante o assalto um valor superior for levado, quem paga o prejuízo é o funcionário.

"Nossa obrigação é ir colocando o dinheiro no cofre", explicou. Quanto aos passes, cada vez que uma cartela for preenchida ela deve ser entregue na central.

Já o motorista José Franco disse ser "sortudo" por ter sofrido apenas um assalto em mais de 30 anos de atuação, quando dirigia na linha Gaivota/Araruna em plena luz do dia. "Estávamos no ponto final, um lugar deserto, quando chegou um homem com um saco nas costas, passou por trás do ônibus e apontou uma arma para a gente", disse. Para ele, o desemprego é o principal responsável pelo aumento da criminalidade.

Os passageiros Joel da Silva Santos, controlador, e João Bornato, pedreiro, afirmaram nunca terem passado por uma situação de perigo dentro de um circular, mas ouvem falar cada vez mais freqüentemente do assunto e temem que possa ocorrer a qualquer momento. "A gente sai de casa para trabalhar e nunca sabe se volta", concordaram.

Sindicato

O presidente do Sindicato dos Condutores de Veículos Rodoviários

(Sindcon), Elias Pinheiro da Silva, disse que a categoria está permanente em estado de alerta e não descarta a possibilidade de paralisações em prol da segurança, embora se preocupe com o transtorno que isso eventualmente possa trazer para os usuários do transporte público. "Por isso a gente tem evitado ações mais radicais", afirmou.

Para ele, a questão dos ônibus não passa de um problema de segurança pública, que deveria ser inteiramente resolvido pela polícia e não pelos empresários, "que já pagam impostos". Silva disse temer pela vida de motoristas, cobradores e passageiros, especialmente agora que os assaltantes, cada vez mais ousados, estão "atacando" também durante o dia.

"A PM reclama que não há contato imediato, mas a gente sabe que se a empresa ligar o atendimento é muito mais rápido", criticou.

Ele questionou, ainda, o papel da Emdurb que, segundo informou, recebe 3% por mês do total arrecadado pelo transporte coletivo como uma taxa de gerenciamento do sistema. Para Silva, a Emdurb deveria reforçar a quantidade de viaturas da polícia, fosse por doação ou recuperação, como têm feito muitos empresários da cidade.

Bauru tem cinco assaltos em 21 horas

Na noite de segunda-feira, às 18h30, foi registrado o primeiro de uma série de assaltos a ônibus em Bauru. Um ônibus da Baurutrans estava no ponto final do Jardim Pagani quando um indivíduo, armado de revólver, levou R$ 25,00 entre dinheiro e passes.

Às 21h50, na quadra 4 da rua Juvenal Bastos, no Núcleo Fortunato Rocha Lima, um circular da TUA foi abordado por um homem armado com uma faca descrita como grande, tipo peixeira.

Mais tarde, às 23h30, na quadra 6 da rua Gabriel Rabelo de Andrade, no Jaraguá, cerca de R$ 25,00 entre dinheiro e passes foi levado pelo assaltante.

Na madrugada de ontem, às 2h25, foi a vez de um ônibus da ECCB estacionado no ponto final do Núcleo 9 de Julho, quando R$ 28,00 entre passes e dinheiro foram roubados.

No ponto final do Bauru I, às 15h10, foram levados outros R$ 180,00 e 200 passes por um homem negro, armado de revólver e outro moreno de bermuda jeans e camisa clara.

O detalhe é que os assaltos no Jaraguá, no Fortunato Rocha Lima e no 9 de Julho podem ter sido cometidos pela mesma pessoa, de acordo com as características apresentadas: magro, alto, pardo, cerca de 20 anos de idade, calça de abrigo e camisa branca, portando uma faca grande.