08 de julho de 2026
Geral

Tradição cultural

Andréia Alevato
| Tempo de leitura: 5 min

Brincadeiras antigas fazem parte de patrimônio histórico

Brincadeiras antigas fazem parte de patrimônio histórico

Texto: Andréia Alevato Ascari

"Brincadeira de criança, como é bom! Como é bom!". Os pagodeiros do Molejo cantaram o que todo mundo já sabia. Quem é que nunca brincou de bolinha de gude, peteca, biboquê, amarelinha ou peão. Essas são brincadeiras que existem desde a antiguidade, que predominaram por muitos anos, mas, que nas últimas décadas, são de temporadas, porque elas aparecem por um tempo e desaparecem por outro.

"O problema é que o tempo dessas brincadeiras agora dura pouco e um dia, elas podem desaparecer completamente e virar folclore", disse o professor Guilherme dos Reis Pereira, o Ti O-Gui.

O professor explicou as brincadeiras vão e voltam porque a criança tem necessidade de criar.

"Depois da revolução industrial, os brinquedos que eram confeccionados pelas próprias crianças passaram a ser fabricados em série e eletrônicos. E isso satura a criança, por isso ela tenta resgatar esses brinquedos antigos", explicou.

A psicóloga da Multiclínica, Taísa Borges de Souza, afirmou que as brincadeiras sempre voltam porque fazem parte do patrimônio histórico do "brincar".

"As brincadeiras voltam através de resgates feitos por pais, que tiveram boas experiências com isso, ou pela escola e até a televisão. Tudo que é bom deve ser aproveitado entre as gerações, como as brincadeiras antigas de pião, pular corda, burica", afirmou a psicóloga.

Taísa explicou que as brincadeiras antigas e coletivas estimulam a socialização da criança, enquanto os jogos eletrônicos não, já que a criança pode brincar sozinha, usando apenas o seu raciocínio. Por isso, a psicóloga aconselha que os pais deixem as crianças livres na hora de brincar.

"Antigamente, as crianças brincavam mais na rua, porque não existia tanta violência e tantos carros. E os brinquedos eram mais artesanais. O brincar era mais livre e por isso, as crianças tinham a oportunidade de interagir mais com as outras crianças. Na nossa sociedade de hoje, as crianças vivem trancadas em apartamentos, o que faz com que elas brinquem com brinquedos que não precisam de espaço, como o video-game e o computador. E é bom que a criança saiba mexer com um computador. Mas precisa haver controle. As crianças precisam ser livres na hora de brincar. Se ela mora em apartamento, os pais podem, no final de semana, levar em um parque ou praça para brincar de outra coisa que não seja eletrônica", explicou Taísa.

A questão econômica também conta. Tanto Taísa como Ti O-Gui concordam que as crianças de classes mais baixas, que não têm condições de comprar um brinquedo mais moderno ou eletrônico, também brinca e é feliz, porque procura outros recursos.

"A criança que participa mais de brincadeiras tradicionais, enxerga mais longe do que aquela que fica na frente de um video-game ou computador o dia todo. A criança que só tem contato com o computador, acha tudo difícil e a tendência

é desistir. O que eu vejo muito é quando dou cursos para crianças carentes, que brincam na rua, elas têm mais habilidades do que aquelas que não tem esse contato com brincadeiras manuais e artesanais. As brincadeiras antigas, manuais e artesanais aumenta a auto-confiança da criança. O computador não faz isso", afirmou Ti O-Gui

Marcel Luiz Rodrigues Varela, 12 anos, nunca tinha jogado pião em toda sua vida. Há uns dias atrás, depois de ver seus amigos jogando pião, resolveu comprar um e aprender a jogar.

"Eu jogo todos os dias. Gosto muito dessa nova brincadeira", contou Marcel.

O garoto pagou R$ 1,00 no pião com fieira. Outra brincadeira bem antiga que ele gosta muito é soltar pipa.

Para o professor, é importante que tanto a família como as escolas façam o resgate de brincadeiras e jogos. Segundo ele, esse resgate serve de auxílio pedagógico, porque faz a criança pensar, confeccionar e fazer seu próprio brinquedo funcionar, fazendo com que seu rendimento aumente, além de ajudar na auto-estima.

"O brinquedo é a forma mais refinada de educação, porque desenvolve a iniciativa, criatividade, imaginação e interesse na criança. Ele corresponde a uma das necessidades da vida social da criança. Ele é o primeiro instrumento da vida do ser humano. Tudo pode virar um brinquedo para a criança.

É só deixar a imaginação solta. E eu digo isso não por ser contra o computador. Ele existe para aumentar o conhecimento das pessoas. As crianças deveriam usar o computador para pesquisar e aprender mais e não perder tempo em salas de bate-papo ou com jogos de guerra, morte e sangue, que acabam incentivando a violência", concluiu Ti O-Gui.

Você sabia que ...

Cada brinquedo recebe vários nomes, dependendo da região do Brasil onde mora. Confira:

* Amarelinha = amarelhinha (no Nordeste).

* Burica = bolinha de gude, bola de burica, bulica, biroca, fubeca, chimbre e até peteca (no Pará).

* Peteca = pêula (no Sul do País).

* Bugalha = jogo de saquinhos, 5 Marias.

Curiosidades

* A peteca foi trazida ao Brasil pelos portugueses. Era feita de palha de milho e usada para comemorar as colheitas de milho.

* O chocalho, um dos primeiros brinquedos que encantaram as crianças, era usado por adultos em magias e cultos.

* As cantigas de roda eram adorações à árvores. As pessoas davam as mãos, abraçavam a árvore e cantavam.

* Arqueólogos já encontraram em tumbas miniaturas de barcos, cavalos e pessoas. Eram os brinquedos dos faraós enterrados para quando "voltassem para a vida".

Peteca de papel

O Ti O-Gui disse que o lápis e o papel não são feitos só para desenhar. Eles também podem ser transformados em brinquedos. Por isso, ensinou como fazer uma peteca de papel. Anote o material e, mãos à obra.

Material:

2 folhas de papel sulfite ou qualquer outro papel;

caneta colorida;

durex ou elástico ou barbante ou quanquer outra coisa que amarre.

Como fazer:

1 - Pinte os cantos dos dois lados de uma das folhas de papel.

2 - Amasse a outra folha, fazendo uma bolinha, e coloque no meio da folha pintada.

3 - Embrulhe como se fosse um bombom, prenda com o durex e está pronta a sua peteca de papel.