Casais reúnem-se no Fórum para discutir adoção
Casais reúnem-se no Fórum para discutir adoção
Texto: Adriana Rota
Quase a totalidade dos 60 casais cadastrados no Fórum para adoção participaram de uma reunião na noite da última segunda-feira, convocada e organizada pela Vara da Infância e da Juventude e pelo setor técnico do Fórum. Na ocasião, assistiram às colocações do juiz Ubirajara Maintinguer, da psicóloga Rosângela M. Vaz e o depoimento de dois casais que passaram pela experiência da adoção. A idéia foi eliminar dúvidas e atrair o interesse dos presentes para as crianças mais velhas e adolescentes, preteridos em relação aos bebês.
O promotor da Vara da Infância e da Juventude, Lucas Pimentel, profissionais dos setores técnicos do Fórum, representantes do Conselho Tutelar, dos abrigos de menores da cidade e da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) também estiveram presentes nesse primeiro encontro do gênero, classificado como extremamente positivo por Maintinguer. Os casais foram esclarecidos sobre os aspectos jurídicos e psicológicos da adoção, podendo esclarecer dúvidas e manter contato direto com dois casais - um deles gratificado com a experiência de uma adoção tardia (crianças a partir dos dois anos de idade).
Ao final do encontro ficou estabelecido que os interessados em adoções serão convocados, seguindo-se um critério cronológico, para visitarem os abrigos e conhecerem as crianças. Outra decisão foi a organização de um grupo, composto pelos candidatos a pais cadastrados no Fórum, para trocas de experiências. Seus membros devem manter contato constante, através de reuniões periódicas, com o apoio técnico da Vara da Infância e da Juventude.
O encontro exigiu um estudo aprofundado sobre a situação do menor apto à adoção na cidade. Para isso, 19 profissionais do Fórum trabalharam por 60 dias junto a oito instituições que cuidam de crianças e adolescentes, inclusive aqueles em recuperação de dependência química, portadores de deficiências mentais, físicas e do vírus HIV.
Através da aplicação de um questionário, de um levantamento junto aos prontuários e de entrevistas com as crianças e os adolescentes, constatou-se que 56 têm acima dos 12 anos e apenas nove dos 102 aptos para adoção estão na faixa dos zero e dois anos de idade, os mais procurados pelos candidatos a pais. Desses, quatro são portadores de HIV, o que exige condições financeiras, psicológicas e emocionais especiais.
De acordo com Rosângela Motta Vaz, psicóloga judiciária e membro da equipe, os menores de 12 anos mostram-se mais interessados em serem adotados, enquanto os demais praticamente descartam a possibilidade, considerando-se "velhos" demais. "Eles preferem pensar numa colocação profissional, porque temem uma dificuldade de relacionamento. Já os pequenos, quando não querem, geralmente é por terem passado por situações difíceis, medo de rejeição ou alguma experiência de tentativa de adoção frustrada", explicou.
Bauru tem cerca de 200 menores nas instituições investigadas, mas nem todos estão disponíveis para adoção por pendências judiciais. O vínculo com as famílias é praticamente nulo, especialmente no caso de portadores de deficiências, moradores de outras cidades e adolescentes. "Muitos não recebem nem ligações telefônicas", relatou Vaz. A maioria deles, incluindo os 102 disponíveis para adoção, são negros e muitos são os casos de irmãos, que têm de ser preparados para a separação. Existem casos de até cinco crianças de uma mesma família, segundo a psicóloga.
Os casos de orfandade aparecem em menor número, comparando-se com aqueles que estão abrigados por dificuldades financeiras ou protegidos de situações de risco, como a violência doméstica. A destituição do pátrio poder é a situação extrema determinada quando não se verifica solução para o caso.
Como adotar?
O candidato a pai precisa cadastrar-se no Setor de Serviço Social e Psicologia do Fórum, munido de atestado de saúde física e mental, certidão de casamento (quando casado), RG ou certidão de nascimento (quando solteiro), certidão de antecedentes cível e criminal, foto 3x4, comprovante de renda e de residência.
Mas o principal, segundo Vaz: "É preciso ter um grande amor e ser desprovido de preconceitos, principalmente com relação
à própria adoção". Ela explicou que as crianças adotadas tardiamente podem apresentar comportamentos incompatíveis com sua idade, como voltar a usar fraldas, chupeta, mamadeira, chorar muito ou exigir colo. "É uma maneira que elas encontram para recuperar o que não tiveram ou tiveram de maneira irregular. É normal que elas testem os limites da família para descobrirem seus espaços e saberem se são bem aceitas".
O "estágio de convivência", como é chamado, dura um tempo variável, geralmente na casa dos seis meses. Passado esse período, caso não haja adaptação, a criança retorna para a entidade. Vale um alerta: por mais que a situação comova, especialmente nessa época de final de ano, é importante evitar emoções de momento, que movem a pessoa a procurar uma instituição e, muitas vezes, dar falsas esperanças a uma criança. O ideal é procurar o Fórum caso haja interesse concreto em incorporar mais um membro à família, com a disposição de criá-lo como um filho legítimo.