07 de julho de 2026
Geral

Compulsão

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

Compro, logo existo

Compro, logo existo

Texto: Gustavo Cândido

Não é nada difícil encontrar pessoas que pensem assim e só conseguem ficar tranqüilas depois que compram alguma coisa, mesmo que supérflua ou pequena. São pessoas que apresentam um comportamento compulsivo, que sentem uma necessidade quase incontrolável de comprar e compram mesmo! Umas até se afogam em dívidas por esse tipo de comportamento que pode virar um vício. O período do Natal, quando o comércio bombardeia a todos com promoções

"imperdíveis", é um prato cheio para eles.

A balconista Andréia de Souza (nome fictício), assume:

"compro, pelo menos uma roupa nova a cada 10 dias, mais ou menos, quando não tenho dinheiro, faço um crediário ou dou um cheque pré-datado", conta. Para manter o costume consumista Andréia ainda vende cosméticos por conta própria. "Não sei porque eu tenho essa vontade mas sei que me sinto melhor quando compro e pronto", conta.

O estudante Helton Vieira também pensa da mesma maneira,

"fico entediado quando olho para os meus

CDs e não vejo nada que queira ouvir, quando acontece isso preciso comprar um CD novo o mais rápido possível" e justifica, "não bebo, não fumo, não uso drogas nem faço nada de errado, só compro CDs". Helton, que é dono de uma coleção de 350 CDs de variados estilos confessa que existem alguns títulos que ele nem ouviu direito ainda, "comprei para ter todos os discos do artista ou da banda, por exemplo, mas ainda não ouvi, um dia vou querer ouvir e ele vai estar lá. Isso me satisfaz".

Os depoimentos dessas duas pessoas mostram como o desejo de compra compulsivo pode tomar conta de uma pessoa e se tornar praticamente um vício. "O indivíduo cujo interesse é comprar, consumir, mesmo com objetivos supérfluos, apenas pelo desejo de satisfação acaba entrando num círculo vicioso, por mais que se compre, sempre terá a sensação de que ainda falta algo. A sensação de satisfação

é momentânea e logo a necessidade de comprar se faz presente de novo", afirma a psicóloga Elaine Olmo.

Segundo ela, a compulsão é definida como sendo um comando que vem de dentro, onde a pessoa sente-se forçada a fazer certas coisas. A pessoa com personalidade compulsiva tende a ser exagerada e indecisa. Na maioria das vezes, se preocupa com detalhes e têm dificuldade em ver as coisas de um modo geral, funcionando de maneira automática. Também pode exigir que outras pessoas se submetam a sua maneira de agir. A compulsão pode atingir a pessoa em qualquer área, ela pode começar a comer exageradamente, a beber, jogar, etc. Neste caso a compulsão é por compras.

O psicoterapeuta José Luis Cremonesi lembra que a ciência já comprovou que a questão da compulsão é causada por uma reação que ocorre no cérebro da pessoa. Quando compra, sua atividade cerebral fica em uma intensidade tal que estimula cada vez mais a compra, é uma ansiedade tremenda. Quando não está numa situação de consumo, seu cérebro fica mais harmonizado. "Isso

é o que os psiquiatras falam sobre o transtorno obsessivo compulsivo, que não tem muita cura porque é uma coisa biológica", diz o psicoterapeuta. De acordo com ele existem caso em que o filho tem uma compulsão por uma coisa, mas o pai já tinha por outra, o avô, por outra ainda diferente, e assim por diante. Os componentes da compulsão variam mas ela permanece por causa do componente genético.

Cremonesi afirma que o componente da compulsão depende muito de fatores emocionais, de qual significado que tem para cada pessoa o seu tipo de vício, seja ele de comprar ou de consumir bebidas ou drogas. "É importante lembrar que todos os vícios têm a sua gratificação, seu prazer, senão não viciavam. Quando compra uma coisa e começa a usar, a pessoa tem um prazer e é esse prazer que tem o poder viciante depois".

Período perigoso?

O Natal perdeu o seu caráter religioso e se tornou apenas uma data comercial, na opinião de José Luis Cremonesi, própria para vender presentes. Embora seja um período em que a mídia e o comércio trabalhem mais em cima das vendas, o psicoterapeuta não acredita que o período influencie quem tem compulsão a comprar mais. "A pessoa que tem compulsão pode ser influenciada pela mídia e pela época do ano mais isso não vai fazer com que ela compre mais. Ela vai comprar em qualquer época do ano porque a doença já está nela", afirma.

Cremonesi diz que o Natal pode servir de pretexto para que a pessoa compre sem culpa mas não vai ser a razão da compra,

"se não for o Natal ela vai comprar por outra razão que vai inventar".

Questões emocionais também podem ser causas de comportamentos compulsivos, como um trauma ou uma situação que ficou gravada na memória inconsciente da pessoa, que ela põe para fora comprando. Um exemplo é o caso de Maria Almeida (nome fictício), que têm uma coleção de, pelo menos (nem ela sabe ao certo), 50 pares de sapatos. "Sempre que saio para a rua, compro um par", conta a senhora de 71 anos. Segundo ela, a razão dessa obcessão é a infância pobre, "não tinha sapato para usar, hoje que posso comprar, continuo querendo mais e mais", conta.

"A compulsão também pode estar ligada com a auto-estima rebaixada, fazendo com que a pessoa compre compulsivamente para suprir uma carência ou uma necessidade de apreciação e reconhecimento", diz Elaine Olmo. Quando o problema é de fundo emocional, cada caso é um caso.

12 passos

O trabalho com um psicoterapeuta poderia fazer a pessoa que consome muito por razões emocionais buscasse a razão do seu trauma e convivesse melhor com o desejo de comprar. "Todo vício, toda doença, todo problema, é um sintoma de procura de ajuda. É um alerta de que algo está fora de harmonia. Quando uma pessoa tem uma compulsão ela precisa de uma ajuda para se livrar dela", diz José Luis Cremonesi. Ele lembra que muitas vezes para satisfazer o vício da compra a pessoa acaba entrando em problemas financeiros e precisando de mais ajuda ainda. "Por isso existem os Devedores Anônimos, que funcionam como os Alcoólatras Anônimos. O tipo de filosofia deles é o melhor para ajudar nesse caso de compulsão e vício".

Segundo Cremonesi, nestas instituições de ajuda, existem 12 passos básicos que devem ser seguidos:

1- Admitir a sua dependência

2 - Acreditar num poder superior independente, que pode ajudar

(Deus)

3 - Entregar a este poder superior a sua dificuldade

4 - Fazer um inventário moral de tudo o que já fez por causa do vício

5 - Admitir perante a entidade superior e para as outras pessoas a natureza das exata das suas falhas

6 - Se prontificar e deixar que a entidade superior tire os seus defeitos ou te perdoe

7 - Pedir a entidade para se livrar dos vícios e defeitos

8 - Fazer uma relação de todas as pessoas que prejudicou e se dispor a recompensá-las de alguma forma

9 - Fazer as reparações de todos os danos causados

10 - Continuar a fazer este inventário pessoal e admitir sempre quando tiver errado ou tido uma recaída

11 - Melhorar o contato, através de oração ou meditação com esta força superior e rogar sempre por proteção

12 - Transmitir a mensagem que aprendeu para outras pessoas

O psicoterapeuta diz que esses passos não têm ligação alguma com religião mas que funcionam bem em casos de compulsão, onde a causa é mais física do que emocional, porque a pessoa entra em comunhão com o seu lado mais sadio, se harmonizando internamente.