08 de julho de 2026
Geral

Missão espacial

Roberta Mathias
| Tempo de leitura: 7 min

Astronauta vai fazer curso na Rússia

Astronauta vai fazer curso na Rússia

Texto: Roberta Mathias

O major-aviador Marcos César Pontes, 36 anos, esteve no Brasil há duas semanas e fez uma maratona de entrevistas, reuniões, visitas e palestras. Pontes esteve rapidamente em Bauru e depois seguiu para São Paulo, São José dos Campos, Brasília e Vitória. Ele está se preparando para participar de um curso na Rússia e continuar suas atividades na Nasa, Houston, durante o ano 2000, quando será concluído o programa de treinamento, em novembro.

Marcos Pontes é bauruense e foi o brasileiro selecionado para participar do curso para astronauta, na Nasa, em 1998. Sua formação em engenharia aeronáutica, no ITA, foi muito importante na sua avaliação. Naquela época, Pontes fazia seu mestrado em Monterey/CA, na área de sensores infra-vermelho e radares.

"Em 97, após um ano de curso, iniciei um trabalho com a Marinha Americana para aumentar o raio de alcance de sensores infra-vermelho utilizados em navios para detectar mísseis e aeronaves inimigas", explica. Como resultado, Pontes foi convidado a permanecer por mais um ano e meio estudando após o término do tempo de mestrado para obter o PhD degree.

"Iniciaram-se conversações com a Força Aérea para oficializar o PhD. Vale ressaltar que o curso de PhD normalmente dura de três a quatro anos. Para conseguir concluir o mestrado e o PhD em quatro anos, eu teria que acelerar consideravelmente os créditos para ambos. Assim eu fiz." Em 98, a Agência Espacial Brasileira (AEB) anunciou a seleção para candidato a astronauta e Pontes foi o escolhido.

JC - Para quando está previsto o treinamento na Rússia?

Pontes - Não existe data marcada ainda. Deve ocorrer no primeiro semestre. Será, com certeza, um pequeno curso com duração talvez de uma semana no máximo.

JC - O que você vai aprender lá?

Pontes - O Souyuz será o veículo de resgate da estação até o X-38 (veículo de resgate que está sendo desenvolvido aqui no Johnson Space Center) ficar pronto. Além disso, a estação possui muitos módulos russos. Tenho que treinar nesses sistemas também.

JC - Você já esteve na Rússia para escolher um avião para o Brasil. Isso facilita um pouco?

Pontes - Sim. Isto reduz possibilidades de problemas de adaptação.

JC - O curso será em inglês, mas você está fazendo um curso de russo. Já está dominando o idioma?

Pontes - Ainda não. Esse é um processo longo.

JC - Quais as possíveis missões da turma?

Pontes - Todo tipo de missão com utilização de astronautas são possíveis. Na atual fase do programa, são realizadas missões de apoio a ISS, telescópio Hubble e Chandra.

JC - Um candidato a astronauta pode ser eliminado?

Pontes - Sim. Existem mínimos a serem atingidos em qualquer treinamento.

JC - Existem atividades/cursos extra-curriculares?

Pontes - As atividades de treinamento, embora muito diversificadas, são todas programadas.

JC - A tripulação é composta de quantas pessoas?

Pontes - Shuttle: de 4 a 7

ISS: de 3 a 7

JC - Como sao divididas as tarefas?

Pontes - Critério do Comandante da missão.

JC - Há sempre "veteranos" e "novatos"... em que proporção?

Pontes - Sim. A proporção é variável, normalmente são incluídos um ou dois novatos.

JC - Há treinamentos específicos?

Pontes - Sim. Cada missão envolve um tempo de seis a 12 meses de treinamento específico.

JC - Depois de sua primeira missão, você fica

à disposição da Nasa para outros projetos espaciais?

Pontes - Sim. Continuam treinamento de manutenção operacional aguardando a próxima missão.

JC - Recentemente, divulgou-se que o mais provável é que você integrasse uma missão de interesse científico para o Brasil. Há a possibilidade de participação em duas missões?

Pontes - Sim. A idéia seria que eu realizasse uma missão na Shuttle primeiro. Esta poderia ser de pesquisas ou de montagem da ISS. A segunda missão então seria na ISS.

JC - São feitos testes específicos para cada missão?

Pontes - Não. Existem treinamentos específicos.

JC - Qual a importância para o Brasil na participação no programa espacial?

Pontes - O Brasil é o único país em desenvolvimento que participa da ISS. A confiabilidade gerada desse fato junto à indústria internacional será de extrema importância para o desenvolvimento de nossa indústria

(mais empregos = melhor qualidade de vida). Além disso, no campo científico, teremos oportunidade de utilizar um laboratório (ISS) em condições muito especiais para nossas pesquisas.

JC - Qual é a relação investimento e benefícios científicos que a participação brasileira terá ao longo dos anos?

Pontes - O investimento do Brasil em partes é orçado em torno de 120 milhões de dólares ao longo de 5 anos. Em termos de benefícios, além dos citados acima, depende de nós, digo, da utilização dessa oportunidade pela nossa indústria e comunidade científica. Existem infinitas possibilidades e o projeto está nascendo. Acho que uma comparação válida seria tentar quantificar a utilidade de uma criança recém-nascida... a importância dele (a) no futuro vai depender, entre outras coisas, de como o (a) criamos... é um processo longo, mas promissor.

JC - Quantas viagens são necessárias para a conclusão da Estação Espacial Internacional, prevista para 2004?

Pontes - São em torno de 40 vôos para a construção, porém existem sempre mudanças. Pode-se esperar missões

"de contingência" que dão uma certa incerteza na contagem. Portanto, eu diria que 50 é um bom número.

JC - Eu imagino uma Estação Espacial como um grande laboratório... Explique como ela deve funcionar. Quais são as possibilidades para você fazer sua primeira viagem?

Pontes - A estação funcionará realmente como um laboratório para diversas áreas científicas. A tripulação será responsável pela manutenção dos sistemas e pela execução dos experimentos. As probabilidades de que minha primeira viagem seja feita são realmente altas. Porém o primeiro vôo não será para permanecer na ISS e sim para montagem da mesma ou experimentos na Shuttle.

JC - Já há uma data prevista?

Pontes - Não.

JC - Quanto tempo você ficaria no espaço?

Pontes - Os vôos de shuttle são normalmente de sete a 15 dias. Na ISS uma missão típica deve durar em torno de três meses.

JC - Além do programa de treinamento, você desenvolve outras atividades?

Pontes - Temos outras designações técnicas

"no solo". Eu, por exemplo, trabalho com os testes de integração dos componentes e sistemas da ISS. Aí entra em 100% a adequabilidade da formação em engenharia aeronáutica, mestrado em engenharia de sistemas e prática em procedimentos de testes (ensaios em vôo).

JC - O que já foi desenvolvido, em termos tecnológicos, para melhorar as condições de sobrevivência no espaço?

Pontes - Muita... muita coisa. As condições hoje são incomparáveis com aquelas encontradas pelos primeiros pioneiros.

JC - Quais foram as piores provas que você teve que enfrentar até agora?

Pontes - Não sei... tudo parece interessante e "divertido" de fazer. Só depende do estado de espírito.

JC - E os melhores momentos?

Pontes - Poder trabalhar dentro do real hardware do módulo do laboratório americano a ser lançado no ano que vem (vôo 5.a).

JC - Como é a relação com outros candidatos. Quantos são, como vocês se relacionam e até quando vai o treinamento da turma Pinguim?

Pontes - Somos em 32 candidatos. Nos relacionamos muito bem e o treinamento básico prossegue até novembro de 2000.

JC - Como brasileiro, você trata algumas situações de forma diferente do que outros candidatos?

Pontes - Tecnicamente não, mas o bom humor brasileiro acredito ser sempre importante.

JC - O equilíbrio emocional é um requisito importante para um astronauta. Há uma avaliação constante?

Pontes - Não exatamente sobre seu psíquico, porém é um requisito essencial para executar as tarefas do dia a dia.

JC - E os treinamentos, matas, montanhas, mares, ar... O que

é necessário para uma pessoa se tornar astronauta?

Pontes - Gostar muito dessas coisas todas. É preciso espírito de aventura!

JC - Você já fez sobrevivência no mar, na selva... No próximo ano será sobrevivência na neve. Como será?

Pontes - Normal. Selva e mar não foram surpresas

(já tinha tido esses treinamentos na FAB). Neve vai ser novidade. Gosto de novidades!

JC - Muitos treinamentos, disciplina... Conte um pouco do seu dia-a-dia. E a família? Como você equilibra isso tudo?

Pontes - Eles têm me apoiado muito durante minha carreira. Acho que o segredo é fazer as coisas simples. Não adotar complexas teorias a respeito disso. Deixe o coração te dizer quando é hora de ficar junto e considerar isso mais importante que qualquer outra atividade.

JC - Ser astrounauta é um sonho antigo?

Pontes - Sim... muita vontade por um longo tempo.

JC - Como é realizar esse sonho?

Pontes - Como tomar um suco de laranja gelado após uma corrida de cinco milhas num sol de 42 graus.

Quem quiser entrar em contato com o major Marcos César Pontes via Internet, o endereço é:

mcpontes@ibm.net

ICQ 53524817