08 de julho de 2026
Geral

História do café

Fábio Grellet
| Tempo de leitura: 7 min

Terra nostra, café a perder de vista...

Terra nostra, café a perder de vista...

Texto: Fábio Grellet

Livro narra a história da fazenda Lageado, de Botucatu, que vivenciou a fase áurea da história do café no Brasil

Francesco, Gumercindo e Altino são apenas personagens fictícios da atual novela das oito, mas a história deles (e de tantos outros personagens daquela trama) já foi vivenciada, na vida real, por muita gente. As fazendas de café representavam a principal atividade econômica do Brasil, entre o final do século XIX e as primeiras décadas deste século. Formadas ainda enquanto vigia a escravidão, as fazendas eram propriedades dos "Gumercindos" e "Altinos" da época e, após 1889, quando a escravidão foi abolida, passaram a abrigar muitos "Matheus", "Bartolos" e "Leonoras" - italianos que migraram para o Brasil, dispostos a ganhar dinheiro trabalhando nas fazendas de café. O Estado de São Paulo, na época, tornou-se uma das principais áreas de cultivo desse produto. E bem próximo de nós, uma das mais importantes fazendas de café do interior paulista ainda conserva muita coisa do tempo em que o produto era considerado "ouro negro": a Fazenda Lageado, em Botucatu, abriga atualmente as Faculdades de Ciências Agronômicas, Medicina Veterinária e Zootecnia da Unesp (Universidade Estadual Paulista), mas suas belas paisagens já foram palco de muitas histórias que refletem a evolução do Brasil.

Para evitar que essas histórias se percam ao longo do tempo, a jornalista Érika Svicero Martins decidiu reuni-las em um livro. "Fazenda Lageado - Rastros de uma História do Café" foi lançado dias atrás, na Biblioteca do Câmpus da Unesp, em Bauru.

Fazenda guarda história do café

Lageado foi uma das maiores fazendas produtoras de café no interior do Estado, no início do século Natural de Botucatu, Érika Martins desde criança queria se aprofundar nas histórias da Fazenda Lageado, local que lhe proporcionava, além de infindáveis horas de lazer, muita curiosidade. Ainda em 1996, enquanto cursava Jornalismo na Unesp, em Bauru, Érika decidiu que era hora de unir o útil ao agradável: como teria mesmo que formular um projeto experimental, para, no ano seguinte, encerrar o curso, decidiu pesquisar a história da Fazenda Lageado e contar o que descobriu através de um livro-reportagem. Foram muitos meses de pesquisa, entre conversas com ex-moradores e funcionários da fazenda, consultas em cartórios e nos arquivos mantidos pela própria Unesp, em Botucatu. Ao final, a recompensa: a obra de Érika rendeu-lhe nota máxima, em avaliação pela banca de examinadores dos projetos experimentais, em 1997, e agora foi publicada, pela Editora Fernando Bilah - o que coloca o livro à disposição daqueles que se interessam pela história - seja do café, de Botucatu, da própria fazenda ou mesmo do Brasil.

Mais que oferecer conhecimento a respeito de fatos reais, o livro também representa uma agradável opção de leitura: o texto, ágil, é capaz de prender o leitor durante horas. Érika usou um recurso interessante: a história da fazenda é contada através de narrativas - conversas entre Alexandre, um estudante de Ciências Agronômicas que, como a própria autora, quer se aprofundar na história da Lageado, e três personagens igualmente fictícios: "seo" Zé, "seo" Miguel

- dois ex-funcionários da fazenda - e Cristiane, a namorada do estudante.

São narradas, ao todo, três conversas, sempre entre Alexandre e cada um dos outros personagens. O encontro casual com "seo" Zé, logo que o estudante inicia o curso de Agronomia, é pretexto para que seja contada a primeira parte da história da Fazenda (desde sua formação, por volta de 1870, até 1934). Em seguida, uma outra conversa, ambientada três anos mais tarde, desta vez com "seo" Miguel, remete à história da Lageado entre 1934 e 1972, período em que a fazenda funcionou como estação experimental para o cultivo de café, especialmente. Dias antes de se formar, Alexandre encontra sua namorada Cristiane, e a conversa entre eles é a forma de relembrar a fase atual, iniciada em 1972, quando a fazenda foi cedida pelo Instituto Brasileiro do Café (IBC) para abrigar a Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas de Botucatu, que atualmente compõem a Unesp.

História

Durante sua pesquisa, Érika não conseguiu descobrir com exatidão o ano em que a fazenda Lageado começou a ser construída. A data mais provável, porém, remonta aos idos de 1870, quando o café começou a tomar conta da agricultura no interior de São Paulo. O primeiro proprietário foi o alferes (extinto posto da hierarquia militar) José da Silva Franco. Com a morte dele, a fazenda passou às mãos de um grupo de três pessoas: uma parente dele, Maria Theodora Franco, e mais Tito Corrêa de Mello e João Batista da Cunha Caldeira. Em 1881, os três venderam a fazenda, por 106 contos de réis, a João da Rocha Conceição. Casado com Nazareth, João tinha dois filhos: Edgard Conceição e Jane Conceição Pacheco e Chaves. Em 1896, João comprou outra fazenda, bastante próxima à Lageado, que foi denominada Edgardia, em homenagem ao filho do proprietário. João e sua esposa morreram em 1922, quando o casal de filhos assumiu o controle das fazendas. Na época, a Edgardia tinha 480 alqueires e a Lageado, 450.

A década de 20, aliás, representou o auge da Lageado. Com um milhão de pés de café, a fazenda tinha uma produção invejável e toda a estrutura necessária para escoar o café: havia até uma estrada de ferro, a Sorocabana, que cortava um trecho das terras para abastecer os vagões com café e transportá-lo até o porto de Santos, onde era embarcado para o estrangeiro. Outra prova da estrutura de que a fazenda dispunha era uma Usina Hidrelétrica, instalada num rio que corta a propriedade. A usina fornecia energia para a fazenda, num período em que a eletricidade ainda não havia chegado sequer à vizinha cidade de Botucatu.

Com a quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque, em 1929, o preço do café despencou e causou a falência de muitos fazendeiros. A quantia de pés de café existente na Lageado diminuiu para 300 mil.

Em 1934, por causa de dívidas e dificuldades para administrar as fazendas, por 800 contos de réis, Edgard e Jane venderam a Lageado e a Edgardia ao Departamento Nacional de Café

(DNC), órgão criado pelo então presidente Getúlio Vargas para amenizar os efeitos da crise do café sobre os produtores. As fazendas, então, passaram a ser estações experimentais, onde técnicos plantavam café e, posteriormente, outras culturas, usando técnicas inovadoras, para testar o resultado delas. Foram cultivos, ao todo, 25 espécies diferentes de café: Caturra vermelho, Caturra amarelo, Bourbon vermelho, Bourbon amarelo, Bourbon C, Bourbon Crespo, Sumatra, Nacional, Mauricia, Costa Rica, México, Stenófila, Leroy, Murta amarelo, Murta vermelho, Maragogipe amarelo, Maragogipe vermelho, Maragogipe São José do Rio Pardo, Erecta, Congensis, Lanceta, Laurina, Pendulo, Java e o café amarelo de Botucatu. No final da década de 50, as culturas se diversificaram, não se restringindo mais apenas ao café. Arroz, milho, mandioca e chá da Índia foram alguns produtos cultivados na Lageado, onde também foram plantadas mais de 40 espécies de árvores

- como Flamboyant, Cedrinho, Eucalipto, Ipês, Manacás e até Pau-Brasil.

Em 1962, foi criada a Organização Internacional do Café (OIC), que controlava a extensão territorial em que cada país produtor de café poderia cultivar o produto. Nenhum podia ter mais áreas produtoras que os outros. Por isso, o Brasil foi obrigado a reduzir a área destinada à plantação de café. O Instituto Brasileiro do Café (IBC, nome atribuído ao DNC a partir de 1952), que administrava, entre outras, as fazendas Lageado e Edgardia, teve então que se desfazer delas. Esse processo demorou anos mas, em 1972, o IBC finalmente cedeu as fazendas para que o Estado de São Paulo instalasse, em suas áreas, a Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas de Botucatu.

Começava, então, a terceira fase da história da fazenda Lageado, que se estende até os dias atuais...Bem, mas a história completa e outras curiosidades da fazenda, você vai conhecer mesmo lendo o livro - que relata, inclusive, alguns casais que se conheceram na Lageado e acabaram se casando, envolvidos em histórias de amor menos turbulentas que as de Matheu e Juliana...