Distúrbios digestivos são os piores
Distúrbios digestivos são os piores
Texto: Sabrina Magalhães
Na maioria das vezes, só a reeducação alimentar já reduz a incidência de flatos e eructos
De acordo com o gastroenterologista Márcio Matheus Tolentino, a flatulência - eliminação de gases pelo intestino
- é uma das mais constrangedoras reações do organismo diante de um distúrbio digestivo, já que geralmente vem acompanhada de barulho e mau cheiro inconfundíveis.
"É um problema muito sério. O paciente sente o abdômen estufado, reclama do barulhão na barriga, o homem fala que tem até que mudar o buraco da cinta, a mulher diz que parece estar grávida. É um dos problemas mais comuns em consultórios de gastroenterologistas e faz parte da chamada Síndrome do Intestino Irritável
(SII)."
O médico acaba de voltar de um congresso, realizado em Roma, onde o principal tema foi a SII, que até há pouco tempo era considerada um problema psicológico. Dizia-se que a constipação intestinal era conseqüência de alguma preocupação, de "nervoso". Mas diversas pesquisas vêm demonstrando que esta síndrome, na verdade, depende da sensibilidade de cada pessoa. Ou seja, da mesma forma como alguns indivíduos podem se expor ao sol e outros não, os intestinos têm mais ou menos tolerância a determinadas dietas alimentares.
Tolentino explica que o que "irrita" esse intestino sensível, geralmente, é a falta ou o excesso de fibras na alimentação. As fibras, encontradas principalmente nos vegetais, têm papel fundamental no processo digestivo, pois ajudam a varrer resíduos e o excesso de gordura ingerida e processada pelo estômago. Mas quando há mais fibras do que o necessário, o bolo fecal torna-se duro e áspero, arranhando as paredes intestinais, ao mesmo tempo em que causa acúmulo de gases.
Esse gás nada mais é do que o ar que é engolido junto com os alimentos e bebidas. Ele passa pelo estômago, juntando-se aos resíduos da acidez digestiva. Dali, é empurrado para o intestino, onde soma-se a uma pequena quantidade de gás metano. Quando o processo digestivo está bem, os gases são eliminados naturalmente. Mas se o intestino está "preso", os gases se acumulam e quando conseguem uma brecha para sair, acabam causando embaraços.
"O primeiro passo para controlar esse problema é corrigir a dieta. Se o paciente come pouca fibra, aumentamos a ingestão de fibras. Se ele come muita fibra, diminuímos a fibra. Sem restringir, nem comer 10 pés de alface numa única refeição. E, paralelamente, nós indicamos um medicamento que ajude minorar o problema."
Arroto
Outra forma de eliminação dos gases é o arroto, tecnicamente chamado eructação. Neste caso, o gás escapa do estômago e volta na boca. Tolentino afirma que isso pode acontecer por diferentes causas, mas que quase sempre
é por causa de uma válvula chamada cárdia, responsável pela separação entre estômago e esôfago. Quando esta válvula não se fecha adequadamente, o gás a empurra e a pessoa arrota.
"Outra causa, que também não é rara,
é o excesso de gases no estômago, por dispepsia (má digestão). Isso já envolve mecanismos psicológicos." O médico salienta que uma pessoa ansiosa tem uma certa dificuldade para esvaziar o estômago. Então, quase inconscientemente, ela provoca o arroto para ter alívio. Esse mesmo procedimento é muito comum ainda depois de uma refeição exagerada ou após a ingestão de bebidas gasosas. "E se o indivíduo começa a provocar a eructação com freqüência, a válvula cárdia vai dilatando e ele acaba perdendo o controle."
Para acabar com esse problema, é preciso promover uma reeducação, um treinamento: a pessoa tem que aprender a não mais provocar o eructação. Como complemento, são usados alguns remédios. "Porque se a pessoa começa a segurar o arroto sem medicamento, ela vai sentir fortes dores no peito. Então ele tem que tomar um remédio para esvaziar o estômago e, ao mesmo tempo, promover uma reeducação, inclusive alimentar."
Soluço
Na lista de situações embaraçosas, aparece também o soluço que, segundo o gastroenterologista,
é um problema clínico que exige um diagnóstico mais preciso. "Uma boa parte dos casos é causada por refluxo gastroesofagiano, quando a válvula cárdia não funciona bem e não consegue reter a acidez gástrica no estômago, ou seja, o ácido sobe para o esôfago, que não está preparado para receber ácido, queima e origina o soluço. Isso tem que tratar, porque
é uma doença mesmo."
A segunda causa do soluço é uma distensão abrupta do estômago, que pode ocorrer após uma refeição copiosa, principalmente quando a pessoa ingere bebidas gasosas junto. O estômago fica muito cheio e se dilata. Como reflexo vem o soluço, neste caso, um reflexo nervoso. "Mas existem outras causas, mais raras, como a irritação da pleura, depois de uma pneumonia. Isso é muito comum em idosos. A pneumonia cria uma irritação num nervo do diafragma, o nervo frênico, provocando soluços freqüentes."
Diz a lenda que para curar soluço é só tomar sete goles de água sem respirar. Mas há outros truques: tomar três grandes goles de água esvaziando e enchendo bem os pulmões antes de cada gole. E tem também aquela simpatia: a pessoa pega uma caixa de fósforo vazia e três grãos de milho; ela prende a respiração, corre para fora da casa, coloca os grãos de milho na caixa, fecha, vira de costas para a casa e joga a caixa no telhado. Quando solta a respiração, o soluço passou.
E não pára por aí. Algumas pessoas costumam dar um susto em quem está soluçando, para cortar. Ou senão, mandam o indivíduo encher bem os pulmões e começar a ler um texto qualquer em voz alta, bem rápido, até não agüentar mais sem respirar. "O que todas essas dicas têm em comum é que a pessoa enche o peito de ar e fica um bom tempo sem respirar. Quando a gente prende a respiração, o diafragma abaixa e inibe o reflexo. Este é o segredo."
Uma questão de cultura
Arrotar ou soltar um "pum" nem sempre é falta de educação. Ao contrário: algumas vezes, não fazê-lo é que denota falta de consideração ou respeito. "Na verdade, são constrangimentos culturais. Por exemplo, entre os árabes e em algumas regiões do Oriente Médio, se a pessoa não arrota depois de comer é porque não gostou da comida. Em alguns países do Oriente Médio, a eructação depois das refeições é sinal de satisfação.
É bonito, indica que ele comeu bem e que a comida estava gostosa. E em algumas culturas os flatos são sinal de virilidade, têm ligação com os hábitos sexuais. São culturas machistas em que o homem que solta o 'pum' mais alto e forte é o melhor homem."