Cai índice de mortalidade de novas empresas
Cai 'mortalidade' de novas empresas
Texto: Luciano Augusto
Pesquisa aponta que o índice de empresas que conseguem sobreviver após o terceiro ano de funcionamento já
é de 44%
Uma pesquisa estadual desenvolvida pelo Sebrae-SP jogou por terra os números comumente aceitos de que cerca de 80% das novas pequenas empresas que iniciavam atividades fechavam suas portas no primeiro ano de vida. Através do novo estudo do organismo de consultoria empresarial, constatou-se que de cada 100 empresas abertas anualmente no Estado de São Paulo, 35 encerram suas atividades antes de completar o primeiro ano, 11 fecham no segundo ano e 10 no terceiro. Em termos acumulados, a taxa de
"mortalidade" das empresas é de 35%, 46% e 56% nos três primeiros anos de atividade, ou seja, 44% das empresas continuam em atividade após três anos.
A pesquisa foi realizada pelo Sebrae-SP em parceria com a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), durante os anos de 98 e 99, com a busca extensiva de três mil empresas abertas em 95, 96 e 97 e entrevistas qualitativas com 509 empresas entre junho e julho deste ano. O estudo dividiu o Estado em duas macro regiões (Interior e região metropolitana de São Paulo), sendo que os índices são praticamente idênticos.
Além de desmentir o percentual anterior, o trabalho identifica fatores associados às chances de um negócio manter-se em atividade ou fechar.
O consultor econômico do Sebrae-SP, Pedro João Gonçalves, explica que a pesquisa "é uma amostragem selecionada de forma aleatória e foi gerada de forma que se tivesse uma margem de erro de quatro pontos percentuais". O estudo também está sendo feito em outros Estados, com a mesma metodologia. Em Minas Gerais, por exemplo, os resultados foram similares, com 36% de mortalidade no primeiro ano. A primeira e óbvia conclusão verificada pela pesquisa é que o primeiro ano de atividade é crucial para o futuro da empresa.
Para não dar um passo maior do que a perna, alguns fatores podem contribuir para o sucesso do novo empreendedor. Os principais são falta de experiência prévia dos empreendedores no ramo, falta de um planejamento prévio adequado e descuido com o fluxo de caixa e com o cliente. A recessão econômica, a falta de capital de giro, o excesso de carga tributária e a concorrência também foram apontados como os principais focos de dificuldade para a atividade empresarial.
Especificamente sobre a recessão econômica, o economista do Sebrae comenta que foi um dos fatores mais citados entre as dificuldades que as empresas enfrentam no primeiro ano de vida. Mas, segundo ele, "como ela (recessão) atinge a todas as empresas indistintamente, não é um fator que possa distinguir as empresas que fecharam daquelas que sobreviveram".
Tanto é assim que mesmo com um desempenho econômico superior do Interior em relação à região metropolitana, nos últimos anos, não há grande diferença dos números entre as regiões. A pesquisa de conjuntura econômica do Sebrae aponta que o faturamento das MPs caiu 2% no Interior, entre janeiro e outubro de 99 contra o mesmo período de 98. Já na região metropolitana, o faturamento das micro e pequenas caiu 18% na mesma época. "Estatisticamente, as taxas são iguais", diz Gonçalves (região metropolitana possui taxas de mortalidade de 35%, 9% e 12%, respectivamente, nos três primeiros anos; no Interior, os mesmos números são de 35%, 12% e 8%, respectivamente).
O consultor de negócios da agência Bauru do Sebrae, Adriano Fabri, confirma "a percepção" dos resultados da pesquisa também regionalmente. Os problemas que levam ao fechamento desses novos empreendimentos também são, via de regra, os mesmos verificados em nível estadual.
De acordo com ele, um grande número dos empresários novatos não controlam devidamente as finanças de suas empresas. "Alguns, inclusive, não conhecem até mesmo o seu faturamento exato", esclarece Fabri.
Setores
A pesquisa do Sebrae-SP/Fipe mostrou que o comércio "parece possuir uma taxa maior de mortalidade" do que os setores industrial e de prestação de serviço. No comércio, 39% das empresas não conseguem completar o primeiro ano de atividade, 12% fecham no segundo e 8% no terceiro
(taxas acumuladas de 39%, 51% e 59%). Nas empresas prestadoras de serviço, 30% fecham no primeiro ano, 7% no segundo e 12% no terceiro (com taxas acumuladas de 30%, 37% e 49% no três primeiros anos). No setor industrial, 32% se extinguem no primeiro ano, 12% no segundo e 6% no terceiro (taxas acumuladas de 32%, 44% e 50% no triênio inicial).
De acordo com Gonçalves, existe uma "hipótese básica" que explica estes números. Segundo ele, para se abrir um estabelecimento comercial, o empreendedor
"não precisa ter um domínio (apurado da nova atividade), uma habilidade específica ou um grande capital". O setor industrial, cita como exemplo, "tem que dominar o processo produtivo e o de serviço, dominar a atividade com conhecimentos específicos".
Dentre os motivos que levaram ao fechamento da empresa, a falta de demanda (30%), escassez de crédito (25%), problemas pessoais (16%), inadimplência dos clientes (9%) e impostos/encargos
(7%), foram os principais. Para estas empresas, mais crédito para investimento e capital de giro (41%), consultoria financeira e contábil (17%), redução da carga tributária
(16%) e melhoria da economia (5%), seriam pontos vitais para que evitariam o fechamento das empresas entrevistadas. Preocupações essenciais
Ao abrir um empreendimento próprio, o empresário de primeira viagem deve atentar-se a algumas variáveis que podem definir o sucesso ou não do novo negócio.
Experiência no ramo de atividade, tempo gasto estudando o negócio antes mesmo de abri-lo oficialmente, planejamento de gastos e fluxo de caixa, utilização dos serviços de assessorias especializadas, tempo dedicado à nova atividade... todos estes fatores fazem diferença, conforme comprovação pela própria pesquisa, para a permanência no mercado.
O estudo do Sebrae-SP detectou, por exemplo, que 60% dos empresários que se dedicaram integralmente à atividade empresarial continuam com o empreendimento em funcionamento. Do lado das que fecharam, somente 43% tinham dedicação integral. Mais: um terço das empresas que sobreviveram no mercado utilizaram assessoria. Entre as extintas, somente um quarto a utilizaram. No tocante à experiência anterior na
área de atuação, 68% dos que sobreviveram tinham uma bagagem de conhecimento acumulada. Por outro lado, 52% das empresas extintas contavam com pessoas experientes no ramo. "Se após a abertura do negócio ele não realizar alguns procedimentos básicos de administração, como ficar atento ao fluxo de caixas, conciliar os pagamentos com a expectativa de receita, ouvir o cliente procurando aperfeiçoar o seu produto, a chance de sobrevivência dele vai ser pequena", adianta o consultor do Sebrae-SP.
Perfil dos profissionais
O Sebrae-SP detectou ainda os principais motivos que levaram os novos empresários paulistas a abrirem suas empresas e o perfil dos profissionais.
O principal deles foi a identificação da oportunidade de negócios, seguido pelo fator experiência na área de atuação, o desemprego e também a disponibilidade de capital.
Entre os novos empreendedores, aproximadamente 70% são do sexo masculino, com média de 40 anos, sendo que a maioria
(62%) tem o segundo grau completo. Quanto às atividades desenvolvidas anteriormente, 52% eram empregados de empresa privada, 19% autônomos, 14% empregador em outra empresa e 6% dona de casa, entre outros.