Indústria reclama de 99 e espera ano melhor
Texto: Márcia Buzalaf
A indústria passou por um ano de resistência. O custo das matérias-primas aumentando o tempo todo, a pressão do mercado em segurar preços e, principalmente, a falta de uma política econômica definida para o setor. Empresários locais dão nota 6 para o ano difícil, mas esperam um ano 2000 bem melhor. Para dirigentes da Tilibra e da Plasútil, as duas maiores empresas brasileiras nos setores que atuam, se as taxas de juros se mantiverem baixas e a cotação do dólar estabilizada, a exportação deve render mais mercado para as indústrias brasileiras
- e bauruenses também.
1999 foi um ano de manutenção do mercado para a indústria. Os empresários afirmam que passaram o ano todo investindo para conseguir manter as vendas, sem nem precisar avançar. No setor industrial, a pressão foi muito grande. De um lado, os fornecedores reajustando os preços constantemente; de outro, os compradores, não aceitando nenhum tipo de reajuste.
Em Bauru, a situação não foi diferente. Caio Coube, 42 anos, diretor superintendente da Tilibra, e Edson Donizetti Begnami, 42 anos, diretor comercial da Plasútil, as duas maiores empresas do Brasil no setor de papelaria e plásticos, respectivamente, afirmam que o ano foi atípico, mas que pode ter semeado boas colheitas para 2000.
A regional de Bauru do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) não forneceu dados sobre as atividades das indústrias da região em 99 alegando estar em recesso. O dirigente do Ciesp também não respondeu às chamadas para avaliar a situação da indústria na região.
Mesmo assim, os dados da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) até novembro detectam que o Brasil continua a importar mais do que exportar, apesar de ter melhorado o índice em relação ao ano de 98. O déficit na balança comercial brasileira registrado pela federação no acumulado até novembro deste ano estava em torno de 3,3%, somando R$ 44,780 milhões em importações contra R$ 43,341 milhões em exportações.
O Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) detectou que o déficit na balança comercial de São Paulo entre janeiro e novembro de 99 foi de US$ 5,46 bilhões, maior rombo entre todos os estados da federação, mas abaixo da diferença entre importação e exportação de 98, que ficou em US$ 9,68 bilhões. A média do déficit na balança comercial do Brasil é de US$ 1,45 bilhões.
Tilibra - exportação privilegiada
Para Caio Coube, o ano começou com um fato marcante, que foi a mudança do regime cambial. Com a importação mais cara e a exportação mais atrativa, a Tilibra se voltou tanto para o mercado interno quanto ao externo.
A elevação no custo da importação
- tanto de produtos quanto de matéria-prima - foi favorável para as indústrias que não tinham dívidas em dólar e que não dependem tanto da matéria-prima importada. "Isso torna o brasileiro mais competitivo. Vai ver o que aconteceu nos pólos de exportação, no calçado do Rio Grande do Sul. Estimula o setor exportador", avalia. Em relação ao consumo, a mudança também é significativa.
Com o produto importado mais caro, os produtos nacionais voltam a ser mais competitivos também. As taxas de juros baixas também privilegiaram a exportação. Atualmente, Coube afirma, as taxas de juros nominal para clientes de primeira está em torno de 2% ao mês, taxa alta se comparada com o mercado internacional, mas baixa se comparada à taxa antes vigente no Brasil.
A relativa estabilização do dólar e a queda das taxas de juros foram as conseqüências positivas desta mudança nos rumos da economia na opinião do empresário.
Para Coube, a maior lição que se tira deste ano
é que o empresário e o mercado brasileiros se adaptam facilmente às mudanças na política econômica.
"Houve uma reversão de expectativa positiva que comprova a capacidade do Brasil, dos agentes econômicos, da indústria, do comércio, de se adaptarem a um novo cenário a uma nova situação", diz.
Atualmente, a Tilibra exporta 15% de sua produção para os Estados Unidos e para oito países da América Latina, sendo uma sede em parceria com empresas locais para comercialização e distribuição na Argentina e outra no Chile. A indústria espera uma valorização nas exportações para o ano 2000, já que a mudança neste ano impossibilitou a entrada dos brasileiros nas cotações internacionais.
Caio Coube dá sua nota final: "Eu dou nota 6 para este ano, mas espero nota 8 para o ano 2000".
Plasútil - mantendo mercado
A Plasútil, segundo seu diretor comercial, Edson Donizetti Begnami, 42 anos, investiu em 99 aproximadamente R$ 5 milhões para a manutenção do mercado que tem. O maior problema enfrentando pela indústria de materiais plásticos foi justamente o preço da matéria-prima, cotada em dólar e com base no preço do barril do petróleo, que passou de US$ 11,00 para US$ 25,00.
O reajuste no plástico foi acima de 100% e o repasse para os preços não foi integral, muito pelo contrário, está sendo "segurado" por até 90 dias para os clientes. Isso fez com que o benefício da exportação com o real menos valorizado fosse quase anulado. "Eu concedi algum desconto no preço de exportação, mas não foi suficiente para aumentar a competitividade no mercado internacional", explica.
A exportação privilegiada foi importante para a empresa, que vende seus produtos para países da América Latina, Europa e África, além dos Estados Unidos e Canadá. Sendo a maior empresa brasileira do setor, a Plasútil volta cerca de 12% de sua produção para a exportação.
O custo do dinheiro para os industriais que têm dívidas em dólar também aumentaram significativamente. Este problema, segundo Begnami, não afetou a Plasútil porque a empresa não depende de capital externo, mas o efeito nos quase 25 mil clientes da empresa também foi prejudicial.
Para o ano 2000, a Plasútil está esperançosa. Segundo Begnami, alguns negócios da empresa devem se consolidar neste ano e a empresa espera lançar mais 60 itens novos no mercado. "Em 2000, a gente pretende investir entre R$ 3 e R$ 4 milhões", afirma.
O mercado que mais vai ser focado este ano é o dos Estados Unidos, que pode crescer mais percentualmente do que as vendas internas.
Sua avaliação do ano também é regular:
"Não foi um ano ruim nem bom. Vamos falar em um ano nota 6".