07 de julho de 2026
Geral

Museu

Fábio Grellet
| Tempo de leitura: 3 min

Peças contam a vida no último milênio

Texto: Fábio Grellet

Para preservar memória sertaneja, ex-tropeiro de Rubião Júnior recolhe objetos e documentos antigos há 35 anos

Você já teve oportunidade de conhecer de perto um telefone antigo, daqueles compostos por uma campainha e duas partes distintas, uma na qual se falava e outra para ouvir? E um gramofone, que só começava a funcionar depois que fosse girada uma manivela, para dar corda, e tocava os antiquados discos de 78 rotações? E um ferro que funcionava com brasa? E um candieiro? Relíquias como essas, junto com muitas outras, foram reunidas por Moacir de Campos, um morador de Rubião Júnior, distrito de Botucatu. Aos 67 anos, Moacir preserva, em um galpão de sua chácara, objetos e documentos antigos reunidos durante aproximadamente 35 anos de pesquisa e interesse por antiguidades.

Aos 16 anos, Moacir já trabalhava como peão de boiadeiro, integrante das tropas de comitivas - como eram chamados os grupos, de aproximadamente 12 pessoas, responsáveis por transportar gado entre uma fazenda e outra, quando ainda não eram usados caminhões.

Durante mais de 20 anos, Moacir trabalhou no transporte de gado. Paralelamente, aprendeu com seu pai a fazer artigos em couro, para montarias, que ainda produz. Também trabalhou em um circo de touradas, viajando por todo o Estado de São Paulo para apresentar espetáculos em que, num ambiente semelhante a um circo - sem cobertura, porém -, imitava a famosa dupla

"O Gordo e o Magro", fazia touradas e outras peripécias que entretiam o público. No circo, Moacir trabalhava junto com Índio Wago, um famoso artista da época.

Depois, por volta de 1965, Moacir começou a participar de exposições de gado. Saudoso, ele relembra esse período: "Não eram exposições como as atuais, em que o gado tornou-se secundário. Fora algumas poucas exceções, a maioria das feiras, hoje em dia, tem como principal atração os shows musicais. Os organizadores colocam lá um ou outro boizinho, para lembrar que se trata de uma feira de animais", diz. E completa:

"Naquele tempo, a gente viajava com o rebanho, havia dificuldades, mas os bois eram as principais atrações dos eventos".

Já por volta de 1965, porém, Moacir observou que a maneira antiga de lidar com a boiada, as tradições sertanejas em geral, estavam se perdendo em meio à modernização dos hábitos e equipamentos. Preocupado em preservar a memória da cultura sertaneja, Moacir começou a recolher objetos e documentos antigos. Em cada viagem que fazia, a cada ocasião em que se deparava com um objeto antigo, o ex-peão de boiadeiro o pedia ao seu dono. Na maioria das vezes, como o objeto era bastante antiquado, o proprietário não se importava em cedê-lo. Muitas peças, parte delas conseguida entre seus familiares, são próprias do cotidiano da gente que lidava com bois. Mas a coleção, com o tempo, extrapolou o universo sertanejo e, atualmente, dispõe de objetos e documentos raros, usados por todos os segmentos da sociedade, em tempos passados.

Moacir nem calcula quantos objetos conseguiu reunir. Só lamenta que não tenha conseguido, ainda, um local adequado para colocá-los em exposição. Ele afirma que, por várias oportunidades, tentou convencer a Prefeitura a criar um museu, para reunir os objetos de sua coleção. Ainda não conseguiu seu objetivo, mas está ansioso pela visita de um deputado, a quem Moacir pretende pedir auxílio para organizar adequadamente um museu. Por enquanto, as peças

- que contam um pouco da história do Brasil - estão guardadas em sua chácara, num recanto conhecido como Museu do Tropeiro.