Câmbio foi primordial para o Brasil retomar o topo na exportação de carne
Texto: Luciano Augusto
O Brasil retomou da Argentina, no ano de 1999, a primeira colocação no ranking da exportação de carne bovina para a Europa, com 45% do mercado. Entretanto, o setor já vinha maturando o título a algum tempo e a desvalorização do real, foi o impulso que faltava ao mercado para viabilizar a conquista.
O empresário Vangélio Mondelli Neto, do Figorífico Vangélio Mondelli (FriMondelli), afirma que o fim da política de câmbio controlado
"foi primordial na retomada dos embarques, porque o setor trabalhava com um câmbio desfavorável". Como a Argentina continuou com seu câmbio paritário desfavorável, com a desvalorização do real, o Brasil passou a ser o exportador número um para a Europa. O Velho Continente tem, segundo Mondelli Neto, um potencial de compra que chega a 110 mil toneladas de carne bovina ao ano.
Outras medidas também viabilizaram esta posição de destaque. As movimentações em busca de produtividade na pecuária, vão desde a chegada das raças taurinas para a cruza com o zebu totalmente aclimatado ao País, "algumas com mais campanhas milionários do que propriamente resultados", a internacionalização das centrais de inseminação artificial, pastagens sendo encaradas como meio de cultura, chegando às técnicas de confinamento e o semiconfinamento. Os motivos que, segundo Mondelli Neto, "engrandeceram o setor pecuário foram muitos e, dentro da última década, o Brasil conviveu até com a legitimidade do boi se tornar um ativo financeiro com o reconhecimento das empresas de investimento pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), e também com a consolidação de posições por parte do produtor na Bolsa de Mercadorias
& Futuros".
Em 1999, os embarques de carne bovina foram incrementados em 35,5% e o frango, 23,6%, em relação ao ano de 98.
Frisa ainda que, na Argentina, "a pecuária foi tomada pela agricultura", devido ao "grave problema de câmbio". Em contrapartida, eles tiveram uma redução da produção de animais destinados ao abate e o boi encareceu, chegando ao pico de US$ 27,00 a arroba, enquanto o Brasil negociava com uma cotação de US$ 19,00 a arroba.
"Com a desvalorização do real, nós tínhamos o câmbio favorável, o animal pronto para o abate com preços mais interessantes para o comprador, os frigoríficos habilitados à exportação também investiram em tecnologia e nós saímos com a mensagem única do boi natural, terminado a pasto, coincidindo com os anseios desse nicho mercadológico no mercado europeu", argumenta Mondelli Neto. O exportador argentino encarou como a façanha brasileira como uma derrota do tradicional mercado argentino de carnes.
Também "a mutação do conceito europeu" quanto à qualidade das carnes que consome ajudou o País. O produto nacional caiu no gosto do consumidor europeu vendendo "atributos que vão muito de encontro com aquilo que o comprador almeja em termos de um produto destinado à alimentação". Experiências de se terminar animais (concluir o processo de engorda) com resíduos de origem animal "foi desastrosa" para os europeus, com a doença da vaca-louca, "o mal do século para o setor" na Europa.
O setor pecuário brasileiro, no entanto, já aguarda uma resposta mais dura por parte da Argentina. O presidente argentino Fernando De La Rua, aponta Mondelli Neto,
"tem demonstrado resquícios dentro dos seus pronunciamentos de que realmente vai tomar medidas para que a Argentina volte a exportar mais carne para a Europa".
A estratégia de De La Rua dizendo que deseja estreitar os laços do Mercosul são entendidas pelo industrial como um posicionamento de "mero competidor do Brasil" e a intensificação dos laços deve ficar somente no campo das trocas comerciais, com cada país traçando estratégias de mercado próprias.
Com o incremento da exportação, o setor já deu mostras de estar se reorganizando. Mondelli Neto revela que pelo menos cinco plantas (frigoríficos) no Estado de São Paulo que estavam "sucateando" foram recuperadas e tiveram a produção retomada.
"O momento é bom para se investir, principalmente no aprimoramento tecnológico das estruturas de abate, desossa e exportação. Mas o que foi mais latente foi a reativação de plantas e geração de empregos pelo setor".
Entre outras coisas, porém, o bom momento e uma forte seca no segundo semestre, trouxeram elevação do preço da arroba, no mercado interno. O preço teve um pico de alta devido entre outubro e novembro devido ao problema da seca, que diminuiu a oferta de bois prontos para o abate. Agora em dezembro os preços recuaram porque, tradicionalmente, os embarques para a Europa diminuem nesta época do ano.
Mesmo com as expectativas otimistas quanto aos índices macro-econômicos brasileiros em 2000, Mondelli Neto lembra que isto não impede que o competidor argentino adote estratégias próprias, principalmente com relação à desvalorização do seu câmbio, "que era uma questão que precisaria se ponderar". Juros mais baixos no Brasil também ajudariam,
"desde que estes juros comecem a ser canalizados no setor produtivo e não fiquem represados no setor financeiro", para que o setor possa, senão crescer, pelo menos estabilizar neste patamar.
Febre aftosa
O Ministro da Agricultura anunciou na terça-feira passada que o chamado circuito centro-oeste (São Paulo, Goiás, Mato Grosso, Paraná, oeste de Minas Gerais e Distrito Federal) será declarado zona livre de febre aftosa com vacinação, em maio de 2000, na Organização Internacional de Epizootia.
"Essa foi a maior vitória", comemora Mondelli Neto. Os testes sorológicos junto ao rebanho do circuito centro-oeste, que abriga nada menos do que 77 milhões de cabeça ou 50% do rebanho nacional acusaram apenas um foco isolado da doença na cidade de Navirai, no Mato Grosso do Sul.
O País agora poderá lutar por vendas do produto in-natura para os mercados americano e japonês, com a devida aprovação das plantas processadoras por missões técnicas desses países, tentativa essa já iniciada pelos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, área consideradas livres, com vacinação, desde o ano passado.
Selo de qualidade
A Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne (Abiec) lançou um selo de qualidade para o produto brasileiro. Ele reitera a disseminação da filosofia de se exportar um produto natural, sem anabolizantes, livre de doenças. Cogita-se já, inclusive, na Europa a produção de uma carne orgânica, onde todo o processo de engorda do boi passe, por exemplo, por pastagens advindas de adubo orgânico.
O selo serviu, entre outras coisas, para consolidar a imagem natural dos produtos brasileiros nas feiras internacionais, como a de Anuga, na Alemanha, com mais de meio século. Na ocasião participaram 5.559 expositores de 94 países, com um público de 190 mil profissionais vindos de mais de 150 países.
A feira serviu para os frigoríficos brasileiros poderem fazer uma "sondagem de mercado", principalmente em relação ao produto industrializado, para tentar a venda destes produtos num futuro próximo.