07 de julho de 2026
Geral

Artigo

B. Requena
| Tempo de leitura: 3 min

Um milênio de incompreensões

(*) B. Requena

O artigo do amigo Vinicius Coube, nesta página, na edição de ontem, nos obriga a reflexões próprias de final e início de ano. Ele elenca, sugerindo, uma relação de fatos e atividades extremamente agradáveis, porém não necessariamente dispendiosos para qualquer pessoa, de qualquer nível e posse. Pode parecer paradoxal, mas não é. Vinicius ensina que a felicidade é construída num espírito sábio, não num espírito rico. Que pode ser encontrada durante a rotina que busca um ideal, no dia-a-dia e nos divertimentos sadios, ocasionais.

Vale recordar aqui o sábio filósofo grego Diógenes, que morava dentro de uma barrica e dizia em Corinto a Alexandre Magno, que vivia satisfeito à sua maneira, que de mais nada precisava. O único objeto que possuía, já na idade adulta, era uma cabaça com a qual se deslocava para uma fonte próxima, para beber água. Certo dia de grande calor, ao chegar à mina, viu com que grande prazer um garotinho saciava a sede bebendo água com as mãos encovadas. Imediatamente, se desfez de seu objeto, murmurando:

"Hoje aprendi com esta criança de que não preciso de mais nada."

Outro item que a imprensa continua discutindo é se com o ano 2000 nós entramos ou não em um novo milênio. Tenho lido opiniões de astrônomos, matemáticos e calendaristas. Ora defendendo uma corrente de opiniões, ora a outra. Meu tio-avô Gervásio, que não viveu para ver a discussão, era analfabeto de carteirinha. Hoje teria muito mais do que um século de vida. Portanto, a respeito de tempo, ninguém iria ser incauto de discutir com ele.

Para mim, que ficava ali ouvindo suas sabedorias de analfabeto, sobre este tema, sem precisar pegar no lápis ou caneta

(pois isto ele nem saberia fazê-lo) a explicação tinha esta simplicidade: "Um prédio tem 10 salas e um corredor que atravessa todas. Ora, quando passamos da 9ª para a 10ª sala já podemos dar o prédio por atravessado? Claro, que não! Ainda falta a última, a 10ª." E não se dava por satisfeito: "Veja esta laranja. Ela tem 10 gomos. Você acredita ter chupado a fruta inteira após engolir o 9.º gomo? Claro que não. Assim é o século, o milênio. Será preciso atravessar o ano 2000 para chegarmos a um novo milênio."

E o velho Gervásio pelo menos de números entendia. E dizia: "Jesus Cristo nasceu há quase 2.000 anos. Dentro de alguns anos, portanto, entraremos no ano 2000. O pontinho

(.) só pode ser colocado na quantidade de anos, não na contagem cronológica do tempo (2.000 e 2000)." Hoje muitos não sabem disso. Que saudade do tio-avô!

Quando nos aprestamos para uma passagem de ano como foi esta, para o ano 2000, sempre temos a esperança de que a Terra ficará mais azul. Que o homem vai parar com certas poluições desnecessárias, que agirá com mais prudência, sabedoria, que arquivará a violência. Que o indivíduo vai parar de fumar. Pela primeira vez em que ligamos a televisão no Ano Novo, está passando um comercial de cigarro. Que diz no final: "As crianças aprendem a fumar quando vêem o adulto fumando." Ora, embora se compreenda toda a sistemática, não há coisa mais ridícula! Pois elas não aprendem vendo o comercial pela TV?

Na redação, a gente abre um jornal da Capital e lá está a notícia de que no réveillon, um sujeito que fazia uma "roleta russa" própria, enfiando rojões acesos na boca, antes de apontar para o céu, teve a cabeça explodida. Neste ano 2000, como que o homem ainda não dá valor à vida! Permanece tudo igual, a Terra não ficou mais azul. Ah, mas dentro de um ano, entraremos num novo milênio. Aí, sim, há a esperança de que tudo mude. Esperança...

(*) O autor, B. Requena, é editor de Internacional do JC