3.ª Via: humanização ou engodo?
Texto: Adriana Rota
Definição do novo termo faz referência a um caminho intermediário entre a Social-Democracia e o Neoliberalismo
No discurso de seus idealizadores, a Terceira Via seria uma tentativa para humanizar o Capitalismo, reduzindo as desigualdades sociais em busca do bem-estar social. A definição faz referência a um caminho intermediário entre a Social-Democracia tradicional e o Neoliberalismo. Em linhas gerais, um governo de Terceira Via teria princípios liberais, sem descuidar das preocupações sociais.
Alguns a classificam como "Esquerda Disfarçada de Centro", "Socialismo de Mercado", "Social-Democracia Modernizada", "Economia de Participação" ou "Centro Radical". Há, também, quem proponha chamá-la de "Via do Centro", considerando-se que pode pender para a esquerda ou para a direita.
Muitos criticam por considerar as definições vagas e imprecisas. Outros, ainda, a interpretam como pura jogada de marketing. O "pai" da expressão também
é motivo de controvérsias: pode ter sido Bill Clinton, presidente dos Estados Unidos, Tony Blair, primeiro-ministro britânico, Benito Mussolini, líder fascista ou Juan Domingos Perón, ex-presidente argentino.
Paternidade à parte, quem teorizou a doutrina político-econômica foi o diretor da London School of Economics, Anthony Giddens. Ele começou a provocar discussões em 1994, quando publicou o livro Para Além da Esquerda e da Direita
(Editora Unesp). Em seguida, lançou as bases do que seria o tal caminho alternativo: A Terceira Via - A Renovação da Social-Democracia.
Prega-se um Estado mais ativo na capacitação dos indivíduos e menos gerador de dependências, propondo reformas no sistema de Previdência Social, Educação, Saúde e programas específicos na área de emprego, com recursos arrecadados da tributação de empresas privatizadas e da loteria nacional. Demissões seriam evitadas, já que o capital humano e o conhecimento passariam a ser valorizados.
Blair seria o maior difusor das idéias da Terceira Via a partir da década de 90. Para a filosófa Marilena Chauí, a intenção foi puramente eleitoreira: uma maneira de o Partido Trabalhista afastar a imagem negativa dos 20 anos de thatcherismo, então agonizante. Chauí afirma que a Social-Democracia - que prega reformas progressivas ao Capitalismo, ao invés de uma revolução
- teria aparecido agora com uma nova roupagem (Terceira Via) para fazer frente ao Neoliberalismo que trouxe consigo "desastres sociais", como o desemprego, a violência, o narcotráfico, a miséria, dentre outros, a partir da década de 70, quando o Capitalismo sofreu uma crise geral.
Já o sociólogo italiano Domenico de Masi, em entrevista ao programa Conexão Roberto D'Ávila, exibido em 8 de julho de 1999 na TVE, afirmou que a única via alternativa existente é a religiosa, traçada por João Paulo II, que teria captado a crise do Capitalismo "que soube produzir riqueza, mas não sabe distribuir" e do Comunismo
"que sabe distribuir, mas não produzir". Masi acredita que o Papa conseguiu obter um modelo de diálogo com o Terceiro Mundo. A escolha do Capitalismo ou do Comunismo ficaria apenas para os laicos. A Terceira Via verdadeira teria de ser baseada na "rivalidade solidária", não na "competitividade destrutiva", e só um país do chamado Terceiro Mundo poderia fazê-la, por conhecer as dificuldades.
Conferência reúne adeptos
No dia 21 de novembro do ano passado, primeiros-ministros da Itália, Inglaterra, França, Alemanha e Portugal - membros de partidos social-democratas ou trabalhistas - e o presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso (único líder de um país
"emergente" convidado), estiveram presentes à conferência "Progressive Governance for the 21st Century
(algo como "Governança Progressiva para o Século 21"), em Florença, Itália.
FHC teria usufruído do lobby feito por Clinton e Blair. Já o presidente da Internacional Socialista, primeiro-ministro de Portugal, Antônio Guterres, eleito pouco antes do encontro, teria sido convidado na última hora.
A explicação mais plausível é que ele seria de uma linha mais moderada do que seu antecessor na Internacional, o ex-primeiro-ministro da França, Pierre Mauroy. Diz-se que Guterres intenciona incluir na organização partidos como o Democrata de Clinton e o PSDB, que passariam a partilhar os mesmos anseios do PDT de Leonel Brizola, por exemplo, mesmo com posicionamentos tão distintos.
O ex-deputado federal Itamar Serpa Fernandes, do PSDB/RJ, em pronunciamento no dia 4 de novembro de 1998 no Congresso Nacional, disse que a esquerda brasileira estaria formatada em "paradigmas ultrapassados" por acreditar que o bem-estar social só pode ser alcançado
"quando o Estado assume papel centralizador, ditando regras para o mercado". Afirmou, ainda, que a Terceira Via conta com a simpatia dos tucanos e poderia servir de base para uma futura negociação com o PT e o PDT. "Historicamente, o PSDB possui laços fraternos com a esquerda que, infelizmente, se recusou a crescer".
Capitalismo humanizado é contradição, diz representante do PSTU
"Não existe Capitalismo mais humano. Como convencer os empresários, por exemplo, a ter menos lucros? Isso sim
é utopia". A opinião é do presidente municipal do PSTU e diretor do Sindicato dos Bancários e Financiários de Bauru e região, Laércio Pereira, que considera a busca por alternativas o resultado da crise do Capitalismo, causador da queda no padrão de vida a cada ano e de um ataque ferrenho aos direitos trabalhistas. Como resultado, Pereira destaca as greves gerais que vem assolando também os países ricos, como Grécia e Espanha.
"No início dos anos 90, com a queda do Muro de Berlim, falou-se que o Socialismo havia morrido. Ganhou espaço uma nova ordem social, a Globalização, que não passa de uma recolonização dos países pobres. Em 1994 houve a crise no México e nos Tigres Asiáticos. Essa idéia também fracassou. Agora, entrou essa nova onda de Terceira Via. Agora decidiu-se que não deve mais acabar com o Estado, que teria um papel social, enquanto o mercado se encarregaria da parte econômica".
Os que pregaram a nova ordem social, disse, estão empregando regras neoliberais, cuja base são as privatizações, não as defesas nacionalistas. "O mercado se sobrepõe ao interesse do Estado. Todos perceberam que é ruim, uma falácia", opinou.
Uma das propostas do PSTU é a estatização do sistema financeiro, "única forma de controlar o que entra e o que sai do país", segundo Pereira. "Nosso Governo nunca investiu tanto para salvar os empresários. As matrizes estão no Brasil mas mandam bilhões para as sedes. O País está cada vez mais dependente do capital externo, que só vem fazer especulação financeira. É um dinheiro vulnerável, volátil. Não existe meio termo: é preciso propor um controle mais eficaz da economia. A saída é a ruptura: não pagar a dívida, diminuir jornada de trabalho, reforma agrária...".
Pereira admite as distorções do Socialismo, acredita que a abertura para o Capitalismo está aumentando a crise, mas compara, para ilustrar, a situação de Cuba e do Haiti, da China e da Índia. "Mesmo desvirtuado, a situação dos socialistas é melhor".
De positivo ele destaca que os debates hoje são mais políticos
(antes, eram mais "economicistas"). De ruim, o fato de a esquerda brasileira ter-se "adaptado ao discurso neoliberal como se fosse a única alternativa". Embora a população esteja "sentindo na pele" e questionando mais, Pereira acredita que os partidos deveriam estar aglutinando-a. "É preciso mobilizar-se e tentar mudar a realidade. O MST está em destaque porque vai à luta. No sindicato também. Não esperamos que o Governo cumpra promessas de campanha".
Tidei classifica Terceira Via como engodo
A Terceira Via, para o ex-prefeito de Bauru e engenheiro, Antônio Tidei de Lima, é uma experiência que deve ser vista
"com certo cuidado". "O que estão pregando
é quase uma retorno ao Capitalismo tradicional. Antes, os banqueiros participavam do conjunto. Hoje, é quase o
único setor. O produtivo, por exemplo, ficou com espaço mínimo. É como se trocasse a roupagem para que os mesmos continuem mandando", opinou.
Os países em desenvolvimento, segundo Tidei, continuarão dependentes do FMI, dos bancos, das supranacionais, das conglomerados financeiros "que mandam até no presidente dos Estados Unidos". "É uma guloseima para adoçar a boca daqueles que estão morrendo de falta de nação. Ela adoça a boca e nada mais. A receita, nunca teremos. Vejo como um engodo, uma nova roupagem para a exploração de nossas riquezas e potencialidades, uma forma de nos manter colonos, como temos sido ao longo da história, com rápidos lampejos de autonomia, pequenos clarões de soberania".
O ex-prefeito expôs que quando a União Soviética se desfez passou a haver uma busca por um Capitalismo mais agressivo, que resultou no Neoliberalismo. "Antes era uma experiência quase exclusivamente inglesa, com Tatcher. Depois, passou para controle mundial através do FMI, instrumento do grande capital internacional de dominação dos países".
O fato de o Brasil ter sido convidado para a reunião de Florença, para Tidei, é resultado de uma política de "melhor atrair que isolar", por ser um país que assusta. "Pessoalmente, prefiro evitar uma Terceira Via e lutar para que haja conquistas na área social, listadas no Socialismo. Algumas pessoas podem estar buscando um Socialismo adaptado, da esquerda para o meio não o Capitalismo adaptado. Mas o Socialismo continuará sendo a utopia a ser buscada, um sonho de igualdade, fraternidade, liberdade. Pode até ser que não seja com esse nome".
Tema exige distanciamento histórico
A professora e "eterna estudante" de História
(como se classifica), Sonia Mozer, disse ter dúvida se a Terceira Via funciona como retórica ou uma tentativa de acomodar a situação do Capitalismo, como já ocorreu antes. "Quando tomou a feição atual, com a Revolução Industrial, a classe operária começou a se organizar. O que, a princípio, era visto como caso de polícia, mais tarde tornou-se uma tática para inclui-la no sistema. Outro momento foi no período pós-crise de 1929, quando foi necessário tomar medidas para sobreviver", explicou. Só o distanciamento histórico pode trazer respostas.
Mais recentemente, a Globalização foi colocada como uma "luz", que acabou não trazendo bem-estar para uma grande parcela da população mundial. "A História é um farol que ilumina para trás. Imagino se esse 'reformismo progressista' não é uma iniciativa de diminuir a forte pressão social, um tipo de populismo, como conhecemos na América Latina. Na hipótese mais otimista, podemos considerar que haja intenção de dar feições mais humanas ao Capitalismo. Mas não se pode ter uma alternativa para o Socialismo que seja totalmente o oposto dele. Como saber se o prato não é bom por causa da receita ou por causa do cozinheiro?", levantou questionamento.
Mozer disse, ainda, que teme até mesmo o nome "Terceira Via", por remeter ao discurso fascista de Mussolini, colocado numa posição intermediária entre Estado e o trabalho, opondo-se tanto ao Capitalismo - por seu caráter internacionalista e opressor - quanto ao Socialismo - também internacionalista e "ameaçador" da propriedade.
Catalano propõe meio-termo
O coronel aposentado Iracy Vieira Catalano, presidente do Lions Clube de Bauru Centro, faz uma opção pela Democracia.
"Pode-se admitir uma terceira opção desde que ela consiga captar os pontos positivos de cada regime, expurgando as mazelas de cada um. Ainda assim, assumo a democracia plena, pura, com uma sociedade mais justa, una, coesa, fortalecida, sem clientelismo, sem a "Lei de Gérson", com muito civismo, muita cidadania, com muito amor, alegria, ordem, disciplina e, principalmente, liberdade", finalizou.
O que engloba a Terceira Via?
* o Estado como garantidor, mas não necessariamente provedor direto dos bens de oportunidade;
* um sentimento de compromisso e solidariedade;
* uma política social centrada no emprego, com obtenção de receita através de uso dos atributos do meio-ambiente;
* constituição de fundos comunitários, fazendo com que o Estado adquira gradualmente uma participação no patrimônio produtivo nacional, colocando-o num fundo especial cuja remuneração deve ser utilizada para financiar a oferta dos bens, como Educação e Saúde;
* criação de uma "economia mista", formada pelo Estado e pelo mercado.