07 de julho de 2026
Geral

Trabalho

Rita de C. Cornélio
| Tempo de leitura: 7 min

Dupla jornada pode levar à 'loucura'

Texto: Rita de Cássia Cornélio

O receio de perder o emprego tem levado o trabalhador a se dedicar ao máximo à empresa, deixando de lado o convívio familiar

O novo modelo econômico aliado a dupla jornada de trabalho e a alta taxa de desemprego são ingredientes comuns de uma receita que pode levar ao que o senso comum classifica como

"loucura". O medo de ficar desempregado tem levado os trabalhadores a se dedicarem "ao máximo" ao trabalho, deixando em segundo plano o convívio social, o lazer e o tempo com a família. A psicóloga Angélica Christina alerta para o perigo de viver em constante estresse.

Um dos primeiros sintomas de que o estado emocional do trabalhador brasileiro está desorganizado foi comprovado pela Organização Mundial de Saúde que publicou uma estatística na qual 70% deles sofrem de insônia. "A insônia

é derivada do estresse. Pessoas que não conseguem descansar durante o sono estão estressadas e muito próximas das doenças", segundo a psicóloga.

De acordo com ela o sono é uma necessidade básica.

"É como o ato de se alimentar. Quem não consegue dormir está correndo o risco de adoecer tanto fisicamente como mentalmente." Cada pessoa, segundo a psicóloga necessidade de um tempo para dormir. "Na média o sono deve durar de 8 a 10 horas, sem interrupção. Sono perdido não é sono recuperado. O sono dividido em vários horários não satisfaz."

Para ilustrar a tese, a psicóloga lembra de uma experiência nazista. "Para fazer as pessoas enlouquecerem, os alemães colocavam-as em uma sala branca com toda mobília branca. De 45 em 45 minutos tocavam uma campainha. Esse é o tempo médio que uma pessoa leva para entrar no sono profundo e relaxar. Como os prisioneiros não conseguiam relaxar, em poucas semanas ficavam loucos."

O aparecimento de gripes, herpes e estomatites também podem ser indícios de que o trabalhador está estressado.

"Sabe-se que não existe separação entre o corpo e a mente. Um influencia o outro. Se meu emocional está desorganizado eu estou mais próximo das doenças e distante da saúde."

Panela de pressão

A psicóloga lembra que no atual modelo econômico há uma exigência maior por parte das empresas. " O trabalhador tem que ser múltiplo. As empresas exigem a

qualificação da mão de obra e uma maior dedicação do trabalhador."

As exigências podem rondar o emocional do trabalhador como uma pressão. "O pensamento do empregado, na atual conjuntura é manter o emprego e para isso ele faz qualquer negócio. Ele sabe que pode ser substituído. No mercado há mão de obra sobrando."

Por conta dessa pressão, implícita ou explícita, o trabalhador vem dedicando mais tempo ao trabalho. "O tempo a mais que ele dedica ao trabalho, retira de outros aspectos de sua vida pessoal. O convívio com a família, social, afetivo está sendo deixado de lado. Para nutrir esses aspectos

é preciso tempo."

Sem tempo para a cuidar com carinho do lado afetivo, familiar e lazer a pessoa pode se desorganizar emocionalmente. "Primeiro vem a ansiedade que antecede o estresse que quase sempre é seguido da depressão."

Desempenho

Mesmo querendo se dedicar mais ao trabalho, o funcionário cansado, estressado e com problemas, não consegue obter um ótimo desempenho, segundo Christina. "Pode melhorar o nível quantitativo, mas não o qualitativo. O trabalhador pode dedicar mais tempo, porém não consegue ser criativo e desempenhar bem o seu papel na empresa."

De acordo com a psicóloga é comum os pacientes se queixarem das pressões dos patrões. "Alguns dizem claramente para o funcionário que se ele não fizer determinada coisa, será substituído. Isso gera uma insegurança muito grande no trabalhador."

Consequências na família

"Se o trabalhador está estressado, não está organizado emocionalmente e não tem recursos saudáveis e suficientes para dar atenção para a família", ressalta a psicóloga. De acordo com ela, as consequências podem ser diversas, especialmente com os filhos. "Os filhos reagem de várias maneiras. Alguns ficam solicitando a atenção dos pais e quando não são atendidos, se afastam. Outros, se afastam sem solicitar a atenção."

Em consequência temos uma geração de filhos carentes, alerta a psicóloga. Um dos primeiros sintomas são filhos carentes. Famílias menos unidas. Relacionamentos insatisfatórios e até separações."

O estresse também mostra sua influência na atividade sexual de um casal, frisa Christina. "Se estou estressado não tenho o mesmo desempenho sexual, num nível satisfatório. A qualidade da relação cai e pode trazer problemas conjugais."

Desatando o nó

O novo modelo econômico não vai mudar tão já e manter a saúde física e mental é o desafio que o trabalhador tem que enfrentar. A organização, segundo a psicóloga é a saída para enfrentar a situação. "O trabalhador tem que dar um jeito de organizar sua vida para que, no mínimo, os aspectos familiares, sociais e afetivos, incluindo o sexual, sejam nutridos de forma satisfatória."

O conhecimento de si mesmo é uma das armas que pode ser usada pelo trabalhador para lutar com essas situações adversas, alerta a psicóloga. "A psicoterapia ajuda. Muitas pessoas ainda acham que quem faz terapias é louco. Isso é bobagem, todos precisam de ajuda, especialmente para se organizarem."

A psicologia avançou muito, atualmente existem atendimentos de curto duração que onera menos, a psicoterapia breve. "Se a pessoa ficar estressada durante muito tempo pode entrar em surto e perder o contato com a realidade, passando ao desequilíbrio emocional sem controle do choro ou riso. Algumas pessoas em surto passam a falar coisas desconexas e são consideradas loucas."

Alcoolismo & família

Com uma taxa de desemprego beirando os 22%, O trabalhador da construção civil amarga um dos piores momentos. Fazer "bico" de final de semana e nas horas vagas é uma constante na vida desses trabalhadores. Em consequência estão sempre mais perto das doenças do que da saúde.

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil, Cláudio da Silva Gomes diz que o problema que mais afeta a categoria é o alcoolismo. "Para eles é uma válvula de escape. O trabalho exige muito esforça físico e eles acabam se refugiando nas bebidas."

Além do alcoolismo, que na maioria das vezes causa a desagregação da família, os trabalhadores da construção civil, apresentam problemas ortopédicos. "Problemas na coluna devido ao peso que carregam constantemente."

As horas vagas que deveriam ser dedicadas ao convívio social ou familiar, são usadas para os "bicos", que na maioria das vezes o ajudam a completar o orçamento familiar.

"Com o passar do tempo, o trabalhador começa a apresentar os primeiros sintomas do estresse. A situação econômica deles é a que mais o deprimem. "

Diante do novo modelo econômico, segundo o sindicalista, os trabalhadores da construção civil podem ser divididos em dois grupos. "Aqueles que se esforçam muito para não perder o emprego e acabam doentes. E aqueles que se tornam muito submissos quando se sentem ameaçados pelo desemprego."

Três turnos

Os baixos salários impostos a categoria tem penalizado triplamente os trabalhadores da saúde de Bauru, ressalta Marilsa Sales Braga, presidente do Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos de Serviços de Saúde de Bauru e Região.

De acordo com ela, 80% dos trabalhadores da saúde de Bauru e região são do sexo feminino, portanto mães de família. " A atividade é ininterrupta e desgastante. Com a política econômica adotada pelo governo, os salários são baixos e exigem do trabalhador a complementação salarial, o que "obriga-o" a trabalhar em dois empregos."

No caso específico dos trabalhadores da saúde, trabalhar em dois turnos significa triplicar o trabalho. "Como a maioria

é mulher, elas trabalham em dois turnos e ainda chegam em casa e têm que trabalhar, portanto elas cumprem três turnos."

O desgaste emocional causado pelo excesso de trabalho e pela própria atividades, que lida com a vida e a morte, segundo a sindicalista acarreta o estresse constante. "Temos percebido que muitos profissionais estão emocionalmente abalados. Porém, o estresse e doenças emocionais não são consideradas moléstias profissionais na nossa categoria", lamenta.

Na opinião da sindicalista o primeiro sintoma de que a família dos trabalhadores da saúde não vão bem são as inúmeras queixas de que os filhos não vão bem na escola. "Temos ouvido muito isso. As mães reclamando de que não têm tempo para ajudar os filhos e muitos estão abandonando os estudos."