Especialista adverte para infecções
Além de todo o problema social e econômico desencadeado pelas enchentes, as autoridades de Saúde chamam a atenção para outro aspecto grave, as doenças que as águas contaminadas das chuvas podem transmitir à população. Em entrevista à Agência Estado, o infectologista Vicente Amato Neto, do Hospital das Clínicas de São Paulo, afirma que as pessoas estão sujeitas a uma série de problemas infecciosos nesta estação.
Em situações como a que o País vive desde o início do verão, com fortes chuvas, o maior risco são as transmissões de doenças por microorganismos fecais, por via oral. "Estes microorganismos estão presentes em água contaminada e são transmitidos pelo simples contato com a boca ou mesmo por ingestão, mesmo que inadivertidamente", frisa.
Entre eles, destacam-se o vírus da hepatite A, e as salmoneloses - causadas pela bactéria salmonela. "Ainda neste contexto, podemos ressaltar a febre tifóide, problema preocupante nestas ocasiões", diz o infectologista. Outras infecções importantes são as Shigueloses, causadas pelas bactérias shiguelas. Da relação constam ainda a Escherichia coli patogênica.
As águas que transbordam de rios, lagos, córregos e esgotos sem higienização possuem ainda grande quantidade de parasitas, como a giardia e a ameba. "Em certos lugares, onde já se observa a cólera, a enchente pode provocar a ampliação do problema. O risco de se contrair a cólera é bem maior.
Amato Neto ressalta que não se pode esquecer de uma das ocorrências mais comuns nas chuvas graves de verão: a leptospirose, transmitida pelo microorganismo de nome leptospira. "A água é contaminada pela leptospira por urina de vários tipos de animais, os mais importantes são ratos e cães. Isso é perigosíssimo, pois o número de ratos atualmente é enorme em várias cidades. Em São Paulo, por exemplo, calcula-se que existam três ratos por habitante, e há cidades com até dez ratos por habitante", ressalta. A leptospirose penetra no organismo humano pela mucosas ou através da pele lesada.
Outro tipo de doença destacada pelo especialista é a piodermite, uma infecção da pele desencadeada por bactérias que desenvolvem pus.
"Além disso, temos as micoses da pele, de unhas e das mucosas, transmitidas por fundos que ficam nas águas sujas", informa.
Vacinas - Há vacinas para a hepatite A. Entretanto, a medicação só faz efeito após a terceira dose. A hepatite A ainda não faz parte dos programas de Saúde Pública, não só no Brasil como também em outros países, lembra o médico. Com relação à febre tifóide, diz ele, em situações de emergência há programas especiais de vacinação. "Mas, vale dizer, que a vacinação contra este tipo de febre no Brasil e muito ruim, bem pouco eficaz. Já há vacinas mais modernas, só que ainda não chegaram aqui. "A febre tifóide não mata, mas é uma doença grave e deve ser tratada adequadamente.
Há regiões que também providenciam vacinas contra o tétano, doença cuja bactéria penetra no organismo em áreas feridas ou com cortes. "Mas é tanta gente que uma medida emergencial destas se torna inviável".
Prevenção é quase impossível
Mas como prevenir todas estas doenças numa situação de emergência? A população carente é a que mais sofre e é, sem dúvida, a maior vítima do descaso das autoridades com relação ao saneamento básico de córregos, rios e esgotos. Porém, a sociedade também pode fazer a sua parte evitando jogar lixo nas ruas.
Amato Neto frisa, contudo, que é importante evitar ao máximo o contato com as águas de enchentes. E, especialmente, não deixar crianças brincando em poças d'água.
Para o infectologista é muito difícil falar em prevenção em situações tão dramáticas como a que vemos atualmente. "Sou pessimista porque uma enchente é um grande desastre, e quando isto acontece já não dá para fazer muita coisa", lamenta. "Nas regiões muito pobres, desprotegidas,
é um despropósito falar em prevenção para a população. A maior providência, acredito,
é a prevenção das enchentes".
* Vicente Amato Neto é médico infectologista e professor emérito da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.