07 de julho de 2026
Geral

Banespa

Márcia Buzalaf
| Tempo de leitura: 10 min

Regional do Banespa é superlucrativa

Texto: Márcia Buzalaf

Bauru é a 5.ª das 20 regionais do Estado em termos de lucratividade; figurando como a regional do banco que mais cresceu em lucros nos últimos anos. A região participa com várias cidades entre as que mais contratam o financiamento agrícola no Estado todo. A pergunta é: vale mesmo a pena vender um banco que dá lucro, principalmente na nossa região? Sindicatos e patronais respondem com clareza: Não.

Você sai de Bauru e pega a rodovia Marechal Rondon, rumo a São Paulo. No caminho, passa pelas plantações de cana-de-açúcar e pelas placas indicando os hospitais públicos. Chegando à capital, pega o metrô para chegar mais rápido até onde quer chegar. Só neste percurso, você passa por vários empreendimentos financiados pelo Banespa ao longo dos seus 74 anos e que são a base do crescimento do País hoje em dia.

Apesar de divergirem em várias idéias, o Sindicato dos Bancários e Financiários de Bauru e Região a gerência regional do Banespa concordam com uma coisa: o banco foi o fomentador mais importante do desenvolvimento do Estado e é atualmente uma instituição altamente lucrativa.

O gerente regional em Bauru, Welcy Arantes Carvalho, 45 anos, afirma que das 47 agências que a unidade centraliza, apenas uma não é lucrativa - mas deve se tornar dentro de dois meses.

A regional de Bauru é a 7.ª colocada em termos de lucratividade, sendo a que mais aumentou a entrada de recursos na história do banco. Abrigando 47 agências de 45 cidades diferentes, soma 200 mil contas e é mantida por aproximadamente mil funcionários. Na opinião do Sindicato dos Bancários e Financiários de Bauru e Região, foi feita uma maquiagem na imagem do banco para justificar a venda da estatal.

A privatização, confirmada recentemente através do pré-edital, ainda deve ser questionada na Justiça. O Sindicato dos Bancários e Financiários de Bauru e Região garante: o Banespa só será privatizado se passarem por cima da democracia e da Constituição Federal.

O sindicato quer pelo menos atrasar a venda do banco. O edital de venda está agendado para ser publicado no dia 4 de abril, e o leilão previsto para o dia 16 de maio. "Nós achamos que nós vamos conseguir liminar para atrasar isso", diz.

História

O Banespa foi fundado em 1909 e encampado pelo Estado em 1926. Três anos mais tarde, foi inaugurada a quarta agência do banco, na rua Rio Branco, em Bauru.

A agência central do banco na cidade ocupou a 7.ª posição do Estado em lucro durante o ano de 99, prometendo chegar à 5.ª agência ainda no começo deste ano.

Carvalho entrou no Banespa em 1974. Nesta

época, muitos dos financiamentos do banco eram voltados para obras públicas, como a construção de várias rodovias, hidroelétricas, metrô, escolas, hospitais e hidrovias.

De lá para cá, muita coisa mudou. O gerente regional confirma que os financiamentos públicos foram praticamente eliminados das atividades dos bancos a partir da intervenção, em 30 de dezembro de 94, mantendo a mesma política com a federalização, já em 97.

Do público para o privado. Atualmente, o gerente garante, todas as grandes empresas estão trabalhando com o Banespa. As taxas mais baixas são o principal motivo.

"As grandes empresas da região têm uma pessoa do setor financeiro para procurar as melhores taxas do mercado, não é? E nisso o Banespa ganha", diz Carvalho.

O sindicato dos bancários confirma a informação. De acordo com Silvestre, apesar do Banespa ter mesmo as melhores taxas, elas já foram ainda mais baixas antes do Governo Federal intervir.

No meio empresarial, novo foco do banco, o maior empreendimento recente é o financiamento de uma fábrica de cerveja na região de Assis. Carvalho destaca também o grande volume de leasing e financiamento para as empresas, até mesmo na exportação de seus produtos.

Ele também lembra que se não fosse o Banespa, os mais de mil servidores públicos municipais não teriam recebido o 13.º salário em 99 e em 98. Durante dois anos consecutivos, o banco financiou para a Prefeitura Municipal que não tinha caixa o 13.º salário.

Para quem trabalha na Associação Hospitalar de Bauru (AHB), que não tinha caixa para pagar os funcionários no final de 98, o banco também salvou o 13.º. A pergunta que fica é: "Será que se fosse uma instituição privada faria isso?".

Privatização

O fechamento de agências, prática comum dos bancos privados principalmente em cidade pequenas, é o temor de todos. Várias agências que compõem a regional são os únicos bancos nas cidades em que estão. É o caso do posto de atendimento fechado em Balbinos esta semana, e que deixou desamparados os cerca de 400 correntistas do banco.

Este posto estava sendo mantido através de liminar, como várias outras agências mantidas pelo banco. Depois da intervenção no banco, decretada em 1994 pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, houve o anúncio do fechamento de algumas agências. O sindicato dos bancários conseguiu manter três delas na região através de liminar.

Silvestre conta que logo depois da intervenção, o governo do Estado fez uma pesquisa que indicou que 66% da população de São Paulo era contra a privatização do Banespa. "O governo engavetou a pesquisa porque não interessa. A única pessoa que divulgou isso foi a Joyce Pascowitch, na coluna social da Folha de S. Paulo", diz Silvestre.

O líder sindical também destaca os elementos subjetivos da rejeição à privatização. Segundo ele, as pessoas demonstram-se contra a venda do Banespa na rua mesmo, principalmente aqui no Interior.

Conta estranha

Foi logo depois da intervenção que o governador do Estado, Mário Covas (PSDB) transferiu 51% das ações para a União. Em dezembro de 99, mais 16% das ações foram transferidas, totalizando o banco, já que o restante, aproximadamente 15%, pertence

à Caixa Beneficente dos Funcionários do Banco do Estado de São Paulo (Cabesp).

A transferência dos últimos 16% das ações para a União foi motivada pela multa de R$ 2 bilhões emitida pela Receita Federal, já que o Estado não tinha dinheiro para arcar com esta despesa. O problema é o valor da transação.

De acordo com Silvestre, ao mesmo tempo em que os 16% das ações foram "comprados" por R$ 2 bi, o preço mínimo para o leilão dos 66% das ações do Banespa, que dá o controle acionário do banco, está avaliado entre R$ 1 bi e R$ 1,5 bi.

Silvestre analisa que a política usada

é a de rebaixar o valor do banco, já que esta multa deve ser provisionada no balanço de 99 (ainda não publicado), para poder dizer que o governo conseguiu ágil na venda da estatal. "Porque não tem sentido um órgão federal multar um banco federal", diz.

O lucro do banco no balanço do primeiro semestre de 99 foi de R$ 581,5 milhões. Silvestre estima que o Banespa fecharia o ano com mais de R$ 1 bi em lucro, mas que depois do provisionamento da multa, estimada em R$ 1,8 bi, o fechamento deve ser negativo ou com um lucro pouco pequeno.

Silvestre afirma que o lucro já foi subfaturado em 98, ficando em R$ 158,432 milhões, mesmo assim, ocupando 6.º lugar em lucro das instituições financeiras no Brasil.

O questionamento em relação ao valor da multa também é feito pelos banespianos. Eles perguntam o porquê desta penalidade não ter sido aplicada no banco no início de sua vigência, a partir de 94, quando já estava na mão do Governo Federal. "Se a multa está correta, porque não autuou lá, já que são duas esferas do governo federal", diz. A explicação para isso, segundo Silvestre, é a desvalorização do banco, para se justificar e facilitar a privatização.

O banco é nosso

Pessoalmente, Carvalho afirma que é totalmente contra a privatização do Banespa, já que ele é um banco lucrativo. Profissionalmente, ele afirma que não concorda com o fechamento de agências lucrativas, mas que é totalmente a favor do fechamento das que dão prejuízo.

Apenas uma das 47 agências que fazem parte da regional dá mais prejuízo do que lucro. Mesmo assim, Carvalho garante que em no máximo dois meses ela estará rendendo mais do que gastando. Para o gerente regional, esse é o segredo: somar o potencial do banco com um gerenciamento voltado para a lucratividade.

Mas o corte mais dolorido da intervenção, na opinião de Silvestre, não foi o físico, foi o de funcionários. O Banespa contava com 33 mil funcionários; hoje em dia, tem apenas pouco mais de 20 mil, um corte de 40%.

Na base do sindicato de Bauru e região, Silvestre calcula que 300 mil banespianos perderam o emprego, foram obrigados a se aposentar ou aderiram ao Programa de Demissão Voluntária (PDV). A conseqüência, segundo Silvestre,

é evidente: horas-extras generalizadas e filas, muitas filas nas agências.

Assim como o balanço de 99, a Associação dos Funcionários do Banco do Estado de São Paulo

(Afubesp) deve questionar vários outros assuntos que são pré-requisitos para a privatização do banco.

Entre eles, está o mais polêmico, da criação do fundo de complementação de aposentadoria dos funcionários do Banespa. Apesar do Governo Federal ter anunciado na imprensa que está tudo regularizado, Silvestre afirma que a criação do fundo tem que ter a aprovação das 16 mil pessoas que fazem parte do banco desde 75, entre 14 mil aposentados e quase 2 mil na ativa. Em assembléia realizada no início de dezembro, os interessados votaram pela não-criação do fundo, inviabilizando a venda do banco.

Para vender o Banespa, a esfera federal tem que criar um novo fundo de complementação da aposentadoria para os ativos, contratados depois de 75. Para isso, também precisa da aprovação dos envolvidos.

Os banespianos estão agendando uma greve geral para o dia 4 de abril, por tempo indeterminado. "Nós vamos até o fim, se é guerra, vale tudo, não tem acordo", diz Silvestre. "E não tem acordo porque ninguém consultou a gente nem a população para saber se queríamos que o Banespa fosse privatizado".

Na safra

Em termos de inadimplência, a regional do banco também ostenta uma boa posição:

é credora. "Nós recuperamos bem mais do que emprestamos", diz Carvalho. Segundo ele, apesar da inadimplência ser constante nas instituições financeiras, o Banespa montou uma carteira de crédito em liquidação, ou seja, um departamento para a recuperação do crédito.

O setor agrícola é o único que se manteve atuante no Banespa mesmo depois da intervenção, financiando mais de metade de toda o empréstimo concedido para o setor. Nas propriedades agrícolas, o temor é justamente para saber o que vai acontecer depois da venda, já que o banco privado pode preferir recolher o imposto compulsório ao Banco Central do que ter que administrar uma carteira de empréstimos de um setor que oscila conforme o tempo.

Silvestre conta inclusive que vários produtores procuraram o próprio sindicato para prestar solidariedade, contra, é claro, a privatização do banco. O presidente do Sindicato Rural de Bauru e Região, Maurício Lima Verde Guimarães, também vem sido outro defensor do banco. Segundo ele, sem o Banespa, não há como prever o que vai acontecer com os financiamentos agrícolas.

Isso porque, segundo o que o Jornal da Cidade conseguiu apurar, a regional de Bauru é uma das maiores do banco em financiamento agrícola, já tendo ocupado o primeiro lugar dentro do Estado. Santa Cruz do Rio Pardo, Palmital, Cândido Mota e Bauru são as principais cidades que se beneficiam do empréstimo rural, ocupando hoje em dia os primeiros lugares no ranking do Estado.

Números da regional do Banespa

4.ª agência do Estado - fundada em 1929

47 agências em 45 cidades abrangidas

1 mil funcionários

200 mil contas

Números do Banespa

3 milhões de clientes

20 mil funcionários

5.º banco no mercado brasileiro

Valor estimado: de R$ 1 bi a R$ 2 bi