07 de julho de 2026
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Fábio Grellet
| Tempo de leitura: 6 min

Acidentado vai ser atendido de graça

Texto: Fábio Grellet

Trabalhador rural que teve os genitais decepados deve ser atendido por urologistas, cirurgião plástico e psicólogos

Quem leu a matéria, publicada pelo Jornal da Cidade no último dia 26 de janeiro, sobre o trabalhador rural Alcir José de Paula, 38 anos, que perdeu os órgãos genitais durante um acidente sofrido na fazenda em que trabalhava, na cidade de Pirajuí, em outubro do ano passado, certamente ficou chocado com a gravidade da situação. Em meio

à tristeza e lamentação, entretanto, ao menos uma notícia positiva, fruto dos avanços da Medicina, pode ser anunciada: Alcir está sendo atendido gratuitamente

(através do Sistema Único de Saúde - SUS) por uma equipe de médicos urologistas e cirurgiões plásticos, dispostos a se empenhar para, senão solucionar

(já que fazer o paciente dispor das mesmas características naturais de que dispunha antes do acidente é impossível), ao menos reduzir os problemas do trabalhador.

Segundo o cirurgião plástico Bashir Mussa Gazi, que já avaliou a situação de Alcir, é possível instalar no paciente um pênis artificial, que terá a função de excretar a urina e satisfazer sexualmente sua parceira. Ainda não é possível, mediante a tecnologia atual, torná-lo fonte de sensibilidade e prazer para o próprio Alcir.

O acidentado é um paciente que precisa de atendimento multidisciplinar

- nas áreas de urologia, cirurgia plástica e psicologia. Quanto ao acompanhamento psicológico, deve ocorrer simultaneamente aos demais e ser contínuo, porque o abalo a que Alcir foi submetido é muito intenso - portanto, é preciso mantê-lo disposto a se recuperar e reconstruir seu físico.

Além do acompanhamento psicológico, a primeira etapa do tratamento que Alcir deve enfrentar inclui a reconstituição de sua uretra - o canal através do qual a urina é conduzida para fora do corpo. Esse orifício pode ser dividido em três partes, que passam, respectivamente, pela próstata, pelo períneo e pelo pênis. Como este foi estirpado, também a porção da uretra que passava por ele se perdeu. Mas uma parte da uretra, quando passa pelo períneo, e toda a extensão dela ao longo da próstata continuava intacta. Dias após o acidente, porém, o orifício da uretra se fechou, num processo chamado estenose. Por isso, foi necessário fazer uma nova intervenção cirúrgica, para instalar uma sonda através da qual o trabalhador urina. A recuperação de Alcir deve começar pela reconstituição da uretra, fazendo com que ela termine no períneo. Isso obrigaria Alcir a urinar sempre sentado, mas dispensaria o uso da sonda.

Essa etapa vai ser realizada em São Paulo, por uma equipe especializada do Hospital Universitário da Faculdade de Medicina do ABC, em São Bernardo. Conforme destaca o cirurgião plástico Bashir, o fato da primeira etapa do tratamento acontecer em São Paulo não resulta da incapacidade dos médicos que atendem em Bauru: "O acidentado poderia ser atendido e desenvolver esse tratamento com qualquer urologista de Bauru, que é um centro especializado também nesta

área. Mas alguns médicos da Faculdade do ABC tomaram conhecimento do caso e pediram para examinar o paciente e desenvolver seu tratamento, até por se tratar de um caso raro na literatura médica", diz o cirurgião.

Alcir está internado desde a última segunda-feira no hospital do ABC e anteontem, após examinar o paciente, os treze médicos especializados em Urologia que atendem naquele hospital iriam se reunir para definir qual o atendimento mais adequado para o caso. Segundo Fábio José do Nascimento, um dos médicos urologistas envolvidos no atendimento a Alcir, depois de criar esse plano de ação os médicos entrariam em contato com o cirurgião plástico de Bauru, que será responsável pela continuidade do tratamento. Vão apresentar a ele seus planos, para que o cirurgião avalie se alguma das ações a serem executadas pela equipe de urologia pode trazer dificuldades para a seqüência do tratamento - desta vez, na esfera da cirurgia plástica. Se todos concordarem com o tratamento, o acidentado deve ser submetido às cirurgias necessárias

à recuperação de seu físico sob a

ótica funcional. Bashir Gazi acredita que será necessário um mês, no máximo, para que essa etapa seja concluída. Depois, o paciente retorna para Bauru, onde vai começar a recuperação estética da área decepada de seu corpo.

O cirurgião plástico planeja instalar um pênis artificial no acidentado, mas alerta que a peça não terá sensibilidade natural. Em outra etapa, a uretra pode ser estendida para passar por dentro do pênis artificial, permitindo assim que Alcir urine inclusive de pé, da forma como os homens habitualmente fazem. Essas etapas, porém, só vão ser desenvolvidas se autorizadas por Alcir: se ele estiver satisfeito com a saída da uretra ao longo do períneo, por exemplo, ela não deve ser transferida para a extremidade do pênis. Para a recuperação total do acidentado, Bashir acredita que será necessário um ano.

Bashir Gazi avalia que a equipe responsável por prestar o primeiro atendimento ao acidentado no Hospital de Base, em Bauru, conseguiu salvar sua vida, já que ele estava em estado de choque e corria sério risco de morrer, porque havia perdido muito sangue. O cirurgião também ressaltou que, em geral, são necessários três meses após um acidente dessas proporções para que o ferimento cicatrize totalmente e então seja possível avaliar a melhor forma de iniciar a recuperação. O reimplante dos órgãos genitais decepados só

é possível desde que não se passem, desde o arrancamento, de quatro a oito horas, conforme a maneira como eles forem guardados.

Empregado teve genitais decepados por trator

Alcir José de Paula, 38 anos, trabalhava prestando serviços gerais na fazenda São José, em Pirajuí. No final da tarde do dia 1 de outubro de 1999, ele ia dar ração para o gado. Usava um trator e teve que descer dele para abrir uma porteira. A máquina perdeu o freio, se desgovernou e foi em direção a Alcir, arrancando seus órgãos genitais. Como estava sozinho, o trabalhador só foi socorrido após 40 minutos. Levado ao Pronto-Socorro de Pirajuí, em seguida Alcir foi transferido para o Hospital de Base de Bauru. Permaneceu internado durante 17 dias, quatro dos quais na UTI

(Uunidade de Terapia Intensiva), recuperou-se e até voltou a trabalhar na fazenda, até sofrer outro acidente, desta vez quebrando a mão, em dezembro último.

O boletim de ocorrência relatando o caso só foi feito na última segunda-feira, na Delegacia de Polícia de Pirajuí, na presença da equipe de reportagem do Jornal da Cidade. Alcir alegou já ter tentado formulá-lo antes, em duas ocasiões, mas disse que um delegado, na primeira vez, e um investigador, depois, se negaram a registrar a ocorrência.

O patrão de Alcir informou suspeitar que ele teria sofrido o acidente fora de sua fazenda. Um investigador da Polícia Civil de Pirajuí alegou que há uma investigação, classificada por ele como "paralela", que apura a hipótese de Alcir ter sofrido o acidente enquanto tentava furtar uma vaca da fazenda.