08 de julho de 2026
Geral

Ministro da Saúde

Fábio Grellet
| Tempo de leitura: 4 min

Serra admite discriminação na Saúde

Texto: Fábio Grellet

Em visita a Pederneiras, ministro disse que "ainda se tratam as pessoas, na saúde, como se fossem de 1.ª ou 2.ª classe"

O ministro da Saúde, José Serra (PSDB), esteve ontem em Pederneiras para assinar um contrato através do qual a Santa Casa da cidade vai receber um empréstimo de R$ 524,4 mil, valor liberado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) através da Caixa Econômica Federal (CEF). O dinheiro poderá ser devolvido em até sete anos, com juros anuais de 2% mais a metade da Taxa de Juros a Longo Prazo (TJLP), o que deve significar cerca de 7% ao ano. O pagamento efetivo do empréstimo pode começar após os primeiros doze meses, porque este é o período de carência (nada precisa ser pago no decorrer dele) (leia mais no boxe). Durante a visita, Serra comentou o caso de um bebê que morreu, supostamente por omissão de socorro, em Santo André. Ele disse que o hospital tinha estrutura suficiente para prestar o atendimento, mas a paciente não dispôs da atenção necessária. "Morreu porque é pobre e infelizmente ainda se tratam as pessoas, na área da saúde, como se fossem de primeira ou segunda classe", admitiu o ministro. Ele disse também que nem passam pela sua cabeça, por enquanto, candidaturas para o governo estadual ou federal. Recentemente, a imprensa divulgou que Serra é cotado para ser candidato a presidente da República, tendo como vice a atual governadora do Maranhão, Roseana Sarney (PFL), numa tentativa de manter a aliança PSDB-PFL, que elegeu o presidente Fernando Henrique por duas vezes.

Serra chegou a Pederneiras por volta de 17h10, duas horas após o anunciado. Foi recebido na Prefeitura pelo prefeito da cidade, o médico Rubens Cury (PSDB), pelos deputados estaduais Carlos Braga (PPB) e Pedro Tobias (PDT), por vereadores e correligionários. A assinatura do contrato aconteceu no salão nobre, após os discursos do provedor da Santa Casa de Pederneiras, José Maturana Corral, do prefeito Cury e do ministro. Após agradecer ao ministro pelo empréstimo, Corral cobrou dele o aumento dos valores pagos pelos procedimentos médicos executados através do SUS (Sistema Único de Saúde). Já o prefeito de Pederneiras destacou que Serra foi o primeiro ministro de Estado a visitar a cidade e exaltou seu desempenho na função. Alertou também que, "há quatro anos, o hospital esteve fechado, e coube a nós ampliá-lo, construindo uma nova Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e uma nova maternidade".

O ministro elogiou o programa criado pelo governo federal para prestar auxílio financeiro às Santas Casas e hospitais filantrópicos, para o qual foram destinados R$ 100 milhões, e alertou que, a cada R$ 10 gastos em Saúde no Brasil, R$ 7 provém do Ministério que ele comanda. Serra também cobrou do prefeito de Pederneiras que desenvolva na cidade o Programa de Saúde da Família, através do qual um grupo de profissionais da Saúde visita os pacientes em suas casas, permitindo, entre outros benefícios, que os hospitais permaneçam menos lotados. O ministro destacou que muitas pessoas ainda vão ao hospital, congestionando seu atendimento, quando um Posto de Saúde poderia oferecer o tratamento adequado ao seu problema. Para Serra, sete ou oito equipes seriam suficientes para atender à população da cidade - aproximadamente 36 mil pessoas.

Ao justificar seu atraso, o ministro disse que tivera de internar sua mãe, acometida por problemas de saúde, em um hospital. Também fora visitar um hospital em Santo André, onde morreu uma paciente, suposta vítima de omissão de socorro. Ao comentar o caso, admitiu que há tratamentos diferenciados na área da Saúde. Serra ainda disse que ainda não pensa em futuras candidaturas: "Atualmente, eu só penso no meu trabalho como ministro e posso até dizer que meu partido é o da Saúde", encerrou. O ministro permaneceu em Pederneiras durante uma hora. Hospital deve quitar dívidas

Fundada em 1928, a Santa Casa de Pederneiras conta com 103 leitos, dos quais 69 são destinados a pacientes atendidos através do SUS (Sistema Único de Saúde). Os 174 funcionários do hospital (dos quais 29 são médicos, que atuam em 16 especialidades) atendem 220 pacientes por mês, em média, no ambulatório de especialidades. No Pronto-Socorro, são atendidos mensalmente outros 4,5 mil pacientes. Nos leitos reservados aos pacientes do SUS, são internados aproximadamente 340 pacientes por mês.

Segundo o diretor municipal de Saúde de Pederneiras, Affonso Viviani Júnior, pelos convênios firmados (através do SUS e planos de saúde particulares), a Santa Casa recebe, mensalmente, R$ 125 mil. Mas tem uma despesa de aproximadamente R$ 190 mil por mês. O déficit é amenizado por uma subvenção concedida pela Prefeitura, que destina à Santa Casa, mensalmente, cerca de R$ 50 mil. Mas a dívida com funcionários, médicos e demais serviços, além de fornecedores, cresce entre R$ 5 mil e R$ 20 mil a cada mês e, atualmente, atinge aproximadamente R$ 500 mil. O empréstimo deve permitir ao hospital quitar a dívida acumulada até agora, mas Viviani admite que o déficit deve continuar. Ele espera que a tabela de valores pagos pelos atendimentos prestados pelo SUS seja reajustada de forma adequada, e diz que não é possível diminuir os gastos do hospital: "Para reduzir os gastos, seria preciso diminuir o número de funcionários, mas isso iria comprometer o atendimento, coisa que nós e a diretoria da instituição nunca vamos admitir", completa.