07 de julho de 2026
Geral

Artigo

B. Requena
| Tempo de leitura: 4 min

Corte do pé de ipê-roxo derrubou minha poesia

B. Requena é editor de Internacional do Jornal da Cidade

Ele era o maior monumento da Vila Falcão. Monumento vivo. Braço direito erguido, apontando para o céu. Mas o tempo inclemente não cessa. Os anos e as décadas passam, são primaveras e mais primaveras. O tempo também vem em ondas e bate com força como as águas que castigam os rochedos. Muito velho, não resistiu ao cansaço e deixou cair o seu braço principal. Estava doente, sim, porém vivo. Vieram os homens e praticaram a eutanásia. Pobre ipê-roxo, de quem não pouparam a enfermidade, não respeitaram a velhice!

Numa manhã de primavera, há mais de 60 anos, a diretora do Segundo Grupo Escolar de Bauru pediu ao servente para que tocasse a sineta. Todos os alunos saíram em fila e foram para a frente da escola. "Crianças - disse - primeiro vamos cantar o Hino Nacional, plantar uma árvore, este pequenino pé de ipê-roxo que está aqui em minhas mãos. Depois, a aluna Rosinha, da 4ª B, vai recitar uma poesia sobre a árvore. Como vocês sabem, a árvore

é um ser sagrado que Deus designou para acompanhar as pessoas por toda a vida. Quando ainda bebê, ao abrirmos pela primeira vez os olhos no berço, já vemos ali partes de alguma

árvore. Depois, durante toda a vida, ela é nossa amiga e companheira, ora nos dando sombra, ora servindo para a gente sentar, em forma de cadeira, comer, dormir, mesa e cama. Finalmente, quando a gente morre, ela vai conosco, em forma de caixão. Vamos dar um viva à árvore?"

(Viva e aplausos)

Passaram-se mais de 60 anos e o ipê viu como sua base de terra vermelha e os bancos de areia branca das ruas Bernardino de Campos e Andradas foram se transformando. Alguns dos alunos que vinham diariamente regá-lo, de calças curtas e suspensórios, anos depois por ali passavam, bigodinhos começando a aparecer e as meninas, mocinhas florescendo. Muito em breve, ele já olhava a todos lá de cima. Crescia mais do que os garotos! Mas nunca deixaram de ser amigos. Amava a todos. Logo, ele via aquele casalzinho que há tão pouco tempo o regava, que até há pouco tempo namorava

à sua sombra, entrar com toda pompa igreja adentro. Ela com um buquê branco nas mãos. "Como estavam bonitos!", imaginava... Depois, outros e outros e mais outros amiguinhos. Quando podia, quando sabia antes, fazia questão de preparar um lindo tapete com suas flores para retribuir, aos noivos, amizade tão sólida. E quando havia quermesse de São Benedito! Ah, era só festa! Não via a hora de o vento bater em sua copa para dançar com a rapaziada.

Mas nem tudo era alegria. Quantas e quantas vezes deixou cair sua seiva em forma de lágrimas, quando caixão de um amiguinho, ou de um filho de um amiguinho adentrava a igreja para uma missa de corpo-presente! E com o passar do tempo isto foi aumentando cada vez mais! Às vezes, se surpreendia:

"Veja, como meu amigo está velhinho, cabeça branca." Ou "olhe, que pena, precisa de ajuda para andar!"

Na quarta-feira, foi a vez dele. O braço cansado, caiu. Ainda não foi possível determinar por quem foi assistido. Recomendaram a eutanásia! Mas não havia um recurso, uma terapia? Freqüentemente, vemos na grande imprensa que um especialista chega a fazer uma viagem de avião para ir curar uma árvore! Hoje, para quase tudo há um jeito! Temo que o nosso ipê-roxo tenha sido assistido apenas por conhecidos, vizinhos, não por amigos.

No momento de sua agonia, chamaram cá de baixo os Bastos, os Scriptore, os Teixeira, os Trevisan, o Zé de Souza? Mandaram avisar mais ali em cima os Spetic, os Polido, os Purini, os Tech, os Zogheib? Temo que seu sacrifício tenha ocorrido sem o conhecimento dos Acosta, dos Serrano, dos Munhós, dos Zaneti. Não foram avisar os Viola, os Sato, os Mateus, os Tonetti, os Frederico? Como eliminar nosso maior monumento sem pegar autorização dos Vedrossi, dos Goulart, dos Gonçalves, dos Falcades, dos Vendramini, dos Torrecilha, dos Rodrigues, dos Moura, e dos Cesário? E os Pereira, autorizaram? Os Martins assinaram algum documento? Tiveram o "sim" dos Toloi, Pelegrina, Vilela? Dos Milagre e dos Tosi?

Há quase 30 anos, foi preciso proteção policial para o nosso ipê-roxo. Para fazer remédio para curar o câncer, já naquela época queriam assassiná-lo. Ele era importante para mim. De madrugada, recolhi três pedaços de seu tronco. Algum museu haverá de requisitar. Na poesia que dediquei à Vila Falcão, há vários anos, ele, que já foi até cartão postal do bairro, é citado logo no início: "O ipê-roxo que guarda as portas deste pequeno mundo, câncer nunca curou, mas tem curado tanta saudade..."

(*) B. Requena é jornalista nascido na Vila Falcão