07 de julho de 2026
Geral

Reciclagem

Adriana Rota
| Tempo de leitura: 9 min

Lixo reciclável muda a vida dos catadores

Texto: Adriana Rota

Quanto vale trabalhar pelo menos oito horas por dia, sob sol ou chuva, separando o chamado lixo limpo (reciclável) de restos de comida, animais mortos, papel higiênico usado, convivendo com a possibilidade de sofrer um ferimento causado por um caco de vidro mal localizado, que pode evoluir para uma infecção, e ainda sofrer discriminação por não ter um emprego de estatus? Setecentos reais paga este trabalho? A discussão sobre o valor do esforço das pessoas, nos diversos ramos de atividade, é tão antiga quanto sua organização em sociedade.

A realidade descrita acima - embora nem todos recebam o mesmo valor - diz respeito aos trabalhadores da Central de Reciclagem localizada no Jardim Redentor I, por onde passa boa parte do lixo da cidade, aproveitável ou não. Organizada por 35 separadores (número variável), através de uma associação, ela é um espaço onde ocorre a separação, o prensamento o enfardamento e a venda do plástico, jornal, papel, papelão, vidro, garrafas pet, alumínio, dentre outros recicláveis que chegam nos caminhões da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma), da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb) ou em veículos particulares. Cinco empresas, sendo três fixas (de Bauru, Lençóis e São Paulo), negociam com o grupo.

Até alguns meses, o dinheiro de tudo o que fosse produzido era dividido em partes iguais por todos os associados, exceto aqueles que faltassem. Esse esquema, segundo explicaram alguns mais antigos, causava confusões porque uns trabalhavam mais que outros. Optou-se, numa das diversas reuniões que realizam, por valorizar quem, por maior esforço ou condição física apropriada, produz mais. A média salarial fica na casa dos R$ 250,00 por mês, mas há quem consiga R$ 700,00 livres. No livro de registros da semana retrasada havia alguém que separou cinco toneladas em 20 dias, o que resulta em 250 quilos por dia.

O projeto da Central envolve, também, a Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes), que desde 1985 executa trabalhos junto a catadores de rua. A proposta de organizá-los em associação só foi efetivada 11 anos depois, quando passou a existir o programa de coleta seletiva de lixo na cidade. Até então, o próprio poder público municipal comercializava o material.

Hoje, o único vínculo com a Prefeitura é a cessão de uma assistente social para a Central de Reciclagem. A profissional cuida da seleção dos candidatos, verificação do uso de equipamentos de segurança e de um trabalho sócio-educativo com a família e o separador, que inclui encaminhamentos para escolas, creches, núcleos de saúde, obtenção de cestas básicas, medicamentos, documentação, dentre outros.

A maior parte dos separadores, segundo a assistente social interina, Sílvia Helena Ferreira, é analfabeta ou semi-analfabeta, sem qualificação profissional e desprovida do hábito de trabalho regular, daí a necessidade de incutir nela o espírito de trabalho empresarial. Por isso, todo o processo desenvolvido na Central de Reciclagem é encaminhado por eles próprios, incluindo a decisão de admissão de novos associados, compras, vendas e feitura do regimento interno. A idéia é capacitá-los para que formem uma cooperativa, dando oportunidade para outros grupos, enquanto o projeto de coleta seletiva não é ampliado, o que possibilitaria novas centrais.

Como o trabalho é remunerado por produção

(depende de quantos quilos foram separados diariamente por cada pessoa), a inclusão de outros geralmente só ocorre quando há material em excesso. No momento o grupo está fechado, mas o número costuma variar de 30 a 35 separadores. Os motivos de saída são diversos: outra oportunidade de trabalho, mudança de residência, incompatibilidade por motivos de saúde ou inadaptação. "A maior parte sai daqui para uma melhor", destacou a assistente social interina, que disse não ser essa uma atitude assistencial, mas profissional.

Estrutura

A Central conta com uma área coberta, onde o material separado fica acondicionado em caixas. A prensa e a balança estão nesse mesmo espaço. Aos poucos, foram sendo construídos um banheiro para homens e outro para mulheres e adquiridos um guincho e uma linha telefônica. Fogão, gás, televisão e um armário aguardam a reforma do refeitório. No escritório são fechados os negócios e colocados diversos adornos encontrados no próprio lixo.

É nele, também, que as revistas jogadas fora são arquivadas para consulta dos associados. As metas mais imediatas do grupo, que aceita a colaboração da comunidade, são a cobertura completa do pátio (para evitar a exposição à chuva e ao sol) e a obtenção de um convênio médico.

Lixo proporciona mudança de vida

"Meus sonhos sempre foram muito pequenos. Hoje faço planos: quero comprar um terreno e fazer a casa que nunca tive". O depoimento é de uma separadora da Central de Reciclagem que, a pedido da assistente social, não foi identificada. Ela tem uma das mais altas remunerações dentre os associados e orgulha-se pela "esperteza" conseguida após a adaptação. "Decoro as caixas certinho e não converso muito para não jogar no lugar errado, porque o freguês reclama", confidenciou.

Há um ano e quatro meses está na Central e não pretende sair de lá tão cedo. Mesmo assim, pensando no tempo em que ficar velhinha (hoje tem 31 anos), ela já fez vários cursos gratuitos e agora está aprendendo a fabricar lingerie. Voltar para a escola - onde permaneceu por apenas seis meses - ainda não foi possível, mas

é outro projeto para o futuro. Mãe de cinco filhos, a separadora já trabalhou como ourives, secretária, na área de serviços gerais, doméstica e catadora de rua. Antes de ir para a Central, pintava casas com o marido.

"Mas não era um serviço fixo. Ele também não tem muita saúde. A gente morava numa casa de madeira com três cômodos, chovia dentro, o banheiro era para fora, sem chuveiro. Conseguimos construir uma edícula no Ferradura Mirim, com muro e tudo (apesar de que o terreno não

é nosso). São dois quartos, cozinha, banheiro. Sala não temos, por enquanto. Mas consegui comprar tudo para a casa e, ainda, acho um monte de coisa no meio do lixo. Eu sinto orgulho. Me sinto realizada por poder opinar, coisa que nunca fiz na vida. Tem muita gente, por exemplo, que é formada e está parada", ponderou. A moça disse querer sair da favela para que suas crianças deixem de sofrer discriminação.

Foi justamente este o empecilho que o decorador José Carlos Moraes, 30 anos, teve de superar. Antes de ir para a Central, há seis meses, ele trabalhou dois anos em uma firma que se mudou da cidade. Por oito meses chegou a fazer "bicos" na área, mas o sustento dos quatro filhos o obrigou a canalizar sua sensibilidade de outra maneira.

Um dos mais jovens da Central, Ezequiel Duarte, 18 anos, disse

"tirar de letra" os comentários maldosos. "Eu nem ligo. A gente está trabalhando, não andando

à toa, roubando, matando". Ele fala com a garra de quem tem um filho de dois meses para criar e só agora, após um ano e seis meses de serviço, pôde começar a arrumar sua casa. "Eu tinha de ajudar minha mãe", contou o ex-entregador de panfletos, que pensa em ficar "até arrumar um serviço melhor", quem sabe, como mecânico. "O pessoal tem de olhar nosso serviço. A gente está fazendo muita coisa. Imagina quanto tempo a terra ia levar para consumir isso?", disse, demonstrando a conscientização que a maioria só consegue obter após algum tempo de atuação.

O recém-chegado Fernando Florêncio, 22 anos, também destaca a importância de valorizar o "sentir bem" que o trabalho proporciona, independentemente do que "os outros" possam dizer. Apesar de ter um ofício - ele

é soldador - a dificuldade em conseguir emprego na área o levou a fazer bicos de garçom e, agora, trabalhar na Central.

Embora demonstrem preocupação com o destino de outras pessoas que enfrentam situações tão difíceis quanto as que passaram, quando ressaltam a necessidade de outras centrais e da ampliação da coleta seletiva, alguns destacam que não é um local para se fazer caridade. A falta durante seis dias consecutivos, por exemplo, resulta em desligamento do grupo. "Tem de ter força de vontade, senão é eliminado. Todos dependem disso para sobreviver. Quem faz menos é porque é preguiçoso", opinou Sidnei Aparecido Pereira de Godoy, 28 anos, que está há um ano e três meses na Central. Para ilustrar, ele citou o trabalho da "mulherada", dizendo que "fazem mais que os homens", apesar de fisicamente mais frágeis.

Dentre as "vitoriosas" está Sônia E. Amaral, 33 anos, uma moça vaidosa que disse sentir-se incomodada com as "cantadas". Tímida, confessou ainda ter vergonha de trabalhar com lixo, apesar de o impacto inicial, de oito meses atrás, ter passado. Desquitada e mãe de quatro filhos, Sônia disse que o serviço "é melhor que o de empregada (doméstica)". "Hoje vejo resultado no que faço". A moça fala com tristeza, no entanto, do fato de ter estudado apenas até a quarta série. "Acho que não tenho mais chance,

é difícil conseguir outra coisa. O negócio

é se dedicar aqui mesmo".

A mais experiente da casa e mais idosa do grupo é Maria Aparecida Pereira da Silva, carinhosamente chamada de "Dona Cidinha" pelos companheiros. Há seis anos ela está na Central. Seus 66 anos de idade, um incêndio em sua casa do Jardim Solange, no final do ano passado (que a deixou apenas com a roupa do corpo), a ausência da família (tem apenas uma sobrinha em Santos), problemas de saúde (disse ter sido paralítica por quase quatro anos), não a impedem de sair a pé às quatro horas do Jardim Popular Ferraz, onde mora agora, para chegar na Central. Ela hesitou em conceder entrevista porque tinha pressa em concluir o serviço,

"para reconstruir a vida", segundo disse.

Roberto Rodrigues dos Santos, que apesar da pouca idade (24 anos)

é um dos mais velhos da Central, com poucas palavras devido

à urgência em voltar para o trabalho, fez questão de apelar à população para acondicionar melhor seu lixo. "Ocorrem muitos acidentes, porque a luva fura fácil. Papel sujo, restos de comida, fraldas, absorventes, lâmpadas fluorescentes e seringas não servem para a gente e têm de ser colocados em sacos separados. Cacos de vidro também precisam estar em embalagens seguras", ensinou.

Serviço

A Central de Reciclagem fica na travessa James Russel, sem número, no Jardim Redentor. O telefone é 230-6365.

Pisos salariais de algumas categorias*

escriturário (bancos) - R$ 515,68 por 30 horas semanais

caixa (bancos) - R$ 728,69 por 30 horas semanais

vendedor - entre R$ 305,00 e R$ 321,00 (dependendo do porte da empresa), por 44 horas semanais

padeiro - R$ 455,00, por 44 horas semanais

balconista (padaria) - R$ 295,00, por 44 horas semanais

repórter (jornais e revistas) - R$ 721,60, por 30 horas semanais

farmacêutico - R$ 720,00, para a metade do horário de funcionamento do estabelecimento

professor de pré (escola particular) - R$ 339,99 para 22 horas semanais

* Valores brutos

* Fonte - sindicatos