D. Enedina: 115 anos de lucidez
Texto: Marcos Zibordi
Ela é uma dos 22 ilustres moradores do Abrigo para Idosos mantido pelo Centro Espírita Antoninho Moreno, em Piratininga
O nome é Enedina Pereira dos Santos, nascida em Jacaracy, Bahia, em 20 de outubro de 1884. 115 anos. "Nasci na mata virgem, no meio das onças e lobos. Tinha Bernardo, tinha Maria, tinha Francisca e de irmão tinha João, Franscisco, meu avô e minha mãe...".
Não foi difícil para esta criança livre e disponível começar desenrolar o novelo da sua história, quando sentou com a reportagem no banco do jardim na manhã de terça-feira. Outros ilustres companheiros também sentam para escutar. Ao lado, uma vovó de 94 anos reinicia o longo crochê. "A comida nossa lá era só uma comida, só uma vez no dia. Água para beber não tinha onde nos fomos criados. Não sabia o que era água no mundo, não conhecia nada. Quebrava um coco e bebia a
água".
Também não existia roupa no meio da mata naquele sertão baiano do fim do século passado. "A roupa era uma só, uma qualidade só de roupa". Como era a roupa? "Era tudo de capim. De cama, para vestir".
Dona Enedina, a filha mais velha, viveu com sua família numa espécie de comunidade primitiva e primitivista, que sobrevivia do extrativismo mas onde negros ainda eram escravizados, mesmo após a protocolar alforria de 1888, notícia que chegou um pouco mais tarde ao povoado.
"Passou muito tempo", mas quando a libertação chegou, conta dona Enedina, foi uma dia triste, "ô dia triste". "Chegou um homem lá e conversou com meu avô. Quando estavam conversando, ninguém podia vim perto. Eu fiquei perto da porta assuntando, mas não escutei nada. O homem saiu. Os senhores (de engenho) foram tão judiados, tinham apanhado tanto, que era para pagar o que eles tinham feito com os negros. Descia apanhando e voltava apanhando. Eu ficava de olho fechado para não ver ninguém".
Com cerca de 45 anos, após encontrar o avô "dormindo o sono que não acordava mais nunca", dona Enedina e o restante da família tiveram que sair da mata pela primeira vez na vida. A luz teria "cegado" seus olhos. Nunca tinha imaginado o mundo tal como existia percorrendo o caminho de descida pelo Espírito Santo, Rio de Janeiro e estado de São Paulo de 1930. "Era só casa que tinha. Falei, e agora, como é que nós vamos fazer? Fiquei pensando... os outros era bastante gente mas não pensava nada nesse puro mundo".
Entre lembranças das onças que miavam no meio da mata e do barulho dos vapores e máquinas da cidade, dona Enedina continua sua história. "Nós viemos andando por seis meses, só com o coco e a água. Eu pensava, mas meu Deus, andar tanto para chegar neste lugar?".
No estado de São Paulo, a família de retirantes perambulou por algumas cidades, em pequenos períodos de estadia, até chegarem à região de Bauru. A medida da surpresa na nova realidade é indicada com exemplos como este: na primeira vez que alguém convidou a família de retirantes para almoçar, dona Enedina disse aos irmãos:
"se vocês querem comer pode ir, mas eu não vou.
É só bichinho e pedrinha". Tratava-se de arroz e feijão. (Risos dos ilustres ouvintes).
O primeiro emprego de dona Enedina foi de lavadeira de pano de prato, "de fora à fora, os tanques todos cheios".
Enedina ainda trabalhou na propriedade de um certo Totó Franco, cujos negócios se expandiam para além do café com a extração de veneno de cobra. "Era um serviço triste para fazer. Era lidar com as cobras fechadas num cercado. Era quatro latas de leite. Quando despejava o leite todinho, vinha mais quatro lata de carne moída. As cobras passavam melhor do que a gente".
Mas aquele lugar ainda não era o definitivo. "O homem disse: vocês vão ficar num lugar chamado Piratininga. Lá é sossegado e tem serviço à vontade". Eles vieram. "Nós tivemos uma sorte tão boa. Tinha uma cabana para gente morar".
A família começou trabalhar na propriedade, principalmente após terem matado com grandes varas de bambu a Sucuri que comia os novilhos do patrão. "Batia o pau de três em três, até matar". Eram dez pessoas. A cobra era tão grande que foi tirada de caminhão da propriedade. O patrão italiano, em retribuição, trouxe provisões "com arroz, feijão, açúcar, café e três peças de pano para cada um da família".
A dona Enedina coube o trabalho de torrar e moer café. A família continuou trabalhando na fazenda. Muitos casaram, outros morreram, outros foram embora. Dona Enedina também se casou e teve um filho, que faleceu depois do marido. "Eu não queria casar, mas minha mãe quis".
Ela então procurou o Abrigo de Idosos, que tem o primeiro registro de dona Enedina em 1977. Segundo consta, ela ficou alguns meses, foi embora e depois voltou. O abrigo tem em seus arquivos os registros de nascimento, identidade e CIC de Enedina Pereira dos Santos, filha de Antonio Pereira dos Santos, natural de Ilhéus e Senhorinha Maria de Jesus.
A última avaliação médica do geriatra Raul Videla, que avalia periodicamente Enedina, diz que seu estado de saúde é perfeito. Por via das dúvidas, ela toma duas vitaminas prescritas pelo médico. Acorda todo dia às 6 horas da manhã, dá suas fugidinhas do Centro Espírita para rezar na igreja e mantém seu cabelo, também de 115 anos.
Ela conta que nunca os cortou, apesar de grande parte deles ter caído com um surto de febre amarela pelo qual passou os moradores daquele vilarejo na mata, nos remotos tempos em que a família vivia no sertão. Mas os cabelos são guardados discretamente sempre dentro de um imenso lenço, que só é tirado em ocasiões especiais, à pedidos.
Dois netos de dona Enedina ainda vivem em Bauru. Lúcida, sem bengala nem óculos, ela é uma das poucas detentoras de uma história incrível pelo tempo e pelos fatos. Prova de que a vida é um presente que vem do passado. "Eu gosto das coisas livres mesmo".